Uma leitura sobre a série norte-americana: Modern Family


* Por Sara Santa Rosa


Modern Familly é uma série produzida nos Estados Unidos da América (EUA) cujos episódios foram ao ar entre 2010 e 2020. São, portanto, dez anos de transmissão de uma série de TV que retrata a família moderna norte-americana para os estadunidenses. Vale registrar que seria foi reconhecido como uma excelente produção, inclusive sendo alvo de vários prêmios e 14 indicações ao Oscar, ou seja, pensem numa série boa? Pensou? É fichinha perto de Modern Family!


A série se originou a partir de conversas triviais, de mesa de bar entre dois amigos (os futuros roteirista e diretor da obra) que conversavam sobre as peripécias de suas famílias, do quanto eram engraçadas e diferentes. Pensaram: Por que não produzir um seriado de televisão que represente a família do século XXI, ou seja, a família moderna?


A história da série é longa e vocês podem encontrar facilmente por meio do Google, mas quero destacar aqui, meus girassóis, que embora Modern Family tenha recebido muitas críticas, não encontrei nenhuma que abordasse a predileção evidente por norte-americanos de pele branca.


Confesso-lhes que estou no final da segunda temporada, portanto farei um texto de retratação, caso surja alguma família com personagens principais de pele preta. (eu prometo!)


A série dá espaço também para os latino-americanos quando conta a história de Gloria, Manny e alguns figurantes, contudo a quantidade de personagens e de figurantes de pele branca é extremamente superior. Inexistem personagens pretos e eles são cota dentro dos figurantes (literalmente: se tem 10 figurantes, 1 é preto. Ele aparece e nunca mais volta a ser contemplado novamente pela série).


Essa constatação é inquietante quando se sabe que Modern Family foi ao ar durante o governo de Barack Obama, o qual foi o primeiro presidente negro norte-americano e integrante da primeira família preta a morar na Casa Branca. Eu não sei vocês, meus girassóis, mas eu me pergunto a cada episódio: Como pode, gente?


O fato do roteirista e do diretor serem brancos não justifica o apagão da população preta norte-americana na série ou então esta deveria se chamar “Modern White Family”. O que quero dizer é que as pessoas que estão à frente de projetos precisam ter a responsabilidade social de afastar-se ao máximo dos seus valores e da sua história pessoal para abraçar a diversidade.


A essa altura do campeonato, vocês devem estar se perguntando: Ora, então por que você continua assistindo? Eu poderia responder sem medo que continuo vendo por causa da minha curiosidade, que é bastante aguçada, porém essa resposta estaria incompleta.

Depois de descascar o principal abacaxi de Modern Family, vamos refletir sobre uma questão, girassóis. Simbora? Simbora.


Nenhuma obra artística conseguirá abordar todos os pontos críticos de uma sociedade. Modern Family desconstrói a ideia de que uma família só funciona bem quando formada por um casal heterossexual e crianças em uma casa silenciosa, na qual os filhos têm medo dos pais e a mulher do marido, vivendo, portanto, em um esquema macabro erroneamente chamado de família.


Fala também sobre o casamento entre pessoas de idades, nacionalidades distintas (Gloria e Jay) e evidencia que a paternidade oriunda da afetividade (Jay e Manny) é muito mais eficaz do que a biológica quando esta não é participativa. Assim como, Modern Family demonstra o quanto que a sociedade tem dificuldade de enxergar o amor para além das conformações sociais, isto é, da concepção de que existe uma moral a ser reverenciada, um jeito para ser feliz e ai daquele que caminhar por uma estrada diversa.


Em um episódio da segunda temporada, por exemplo, a personagem Gloria (colombiana) é questionada pelo seu cunhado sobre o motivo dela não se divorciar do marido (Jay) e ir em busca do seu Green card. É como se ela não tivesse o direito de amar Jay por ele ser mais velho, reduzindo, portanto, a mulher latino-americana a uma “caça herança”.


O amor, meus girassóis, é um jogo de interesses como tudo nessa vida, afinal nós somos seres essencialmente políticos, mas nem sempre o interesse principal de uma mulher é um corpo típico de galã de novela. É possível, por exemplo, que o top 1 da lista dela seja o conforto de uma família com cheirinho de café coado. Normalizem isso.


A série também aborda o casamento homoafetivo e a adoção de uma criança vietnamita em uma tentativa insuficiente de se redimir das bombas que foram esquecidas no Vietnã e, que explodem vidas e famílias diariamente. Embora a série tenha caminhado por uma estratégia de “viramos mocinhos”, evidenciou-se a possibilidade de que uma criança seja muito amada por um casal composto por pessoas do mesmo sexo.


Outro ponto intrigante é o personagem Cam (companheiro de Mitchell), pois ele tem ações preconceituosas quando evoca a sua masculinidade e branquitude ao tentar matricular Lily (sua filha) em uma escola renomada e se revolta quando um casal de mulheres homoafetivas de etnias distintas e deficientes consegue a mesma vaga para o filho delas. É perceptível, então, que as pessoas não devem ser canonizadas por representarem minorias, afinal pessoas são pessoas, logo tanto podem ajudar alguém na rua como podem ter atitudes indigestas.


Modern Family também está de parabéns por não perpetuar mais a ideia de mocinhos e vilões dentro das famílias, afinal eles não existem. Não há regra geral sobre pessoas certas ou erradas dentro de um lar, mas apenas seres humanos com desejos, sonhos, qualidades, defeitos e que escolhem disseminar o amor entre si, inclusive é possível ser imaturo e bom pai ao mesmo tempo, como Phill (esposo de Claire).


Amar, então, é uma escolha diária e o afeto é mais importante do que os laços sanguíneos. Os filhos precisam ver a humanidade dos pais, pois a sociedade já transmite superficialidade demais. O acolhimento, portanto, surge do compartilhamento de vulnerabilidades.


Outra questão a ser pontuada é a ausência de mulheres assumindo o trabalho para além do doméstico em um país palco do capitalismo, da presença feminina no mercado de trabalho. Por outro lado, é importante falar também sobre as mulheres que decidem ser donas de casa, que são felizes dessa forma. Elas também devem ser alvo dos discursos feministas. Gloria e Claire escolheram ser mãe e esposa e isso precisa ser respeitado.


Modern Family é sem dúvidas uma série boa, pois uma obra ruim não nos renderia tanto papo, né? Concluo dizendo que ninguém ilumina uma caverna escura com apenas uma vela acesa, pois é preciso que hajam mais velas brilhando a fim de que não existam mais pontos escuros. Modern Family acendeu algumas velas e outras obras virão para retirar qualquer penumbra da nossa caverna fictícia.


Um beijo, meus girassóis.


*Advogada, pós graduada em Direito Processual Civil e mestranda em Direito.


Link da imagem: https://espalhafactos.com/2017/05/11/abc-renova-familia-moderna-duas-temporadas/


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