top of page

VOCÊ QUER SER LEMBRADO, MAS NÃO QUER LEMBRAR





* Por Polly Moraes


Você conhece um personagem infanto-juvenil chamado Augustus Waters? O xodó da Geração Millenium, esse personagem revela que seu maior medo é ser esquecido. Para sua total satisfação e contrariedade, a protagonista do romance refuta sua fala, afirmando que:


“Vai chegar um dia em que todos vamos estar mortos. Todos nós. Vai chegar um dia em que não vai sobrar nenhum ser humano sequer para lembrar que alguém já existiu ou que nossa espécie fez qualquer coisa nesse mundo. Não vai sobrar ninguém para se lembrar de Aristóteles ou de Cleópatra, quanto mais de você. Tudo o que fizemos, construímos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido e tudo isso aqui vai ter sido inútil. Pode ser que esse dia chegue logo e pode ser que demore milhões de anos, mas, mesmo que o mundo sobreviva a uma explosão do sol, não vamos viver para sempre. Houve um tempo antes do surgimento da consciência nos organismos vivos, e vai haver outro depois. E se a inevitabilidade do esquecimento humano preocupa você, sugiro que deixe esse assunto pra lá. Deus sabe que é isso o que todo mundo faz” — GREEN, John. A culpa é das Estrelas, 2012.


Acontece que, segundo a pesquisadora Maria Mazzucchi Ferreira, em seu artigo Políticas da memória e Políticas do Esquecimento, não precisaremos passar por uma explosão solar para esquecer de protagonistas ou personagens secundários de nossa história. Cerca de trinta e três anos depois da redemocratização brasileira, parcelas da população se alienam por meio de mídias, estratégias utilizadas durante o período fascista na Alemanha e solicitam, chorosos, por uma intervenção militar. Um questionamento comparável ao de Hazel Grace me vem à mente: Se tais não recordam de uma ditadura militar, onde houve assassinatos, sequestros, torturas, censura, exílio… Como você espera que seu tio lembre do seu aniversário?


Talvez ele estivesse vivo no dia do seu nascimento, mas ao contrário daqueles que viveram o momento como quem lhe pariu, o acontecimento não estará fincado em sua mente por meio da dor, do amor, do sentimento único de humanidade. Aí está a fatídica diferença: a população em situação de vulnerabilidade social que viveu a ditadura, aqueles que foram torturados ou tiveram os seus sequestrados e desaparecidos, os que lutaram pela liberdade irão recordar do que realmente foi aquele período.


Em contrapartida, os coronéis, a elite brasileira e todos aqueles que estavam sentados de pernas cruzadas em seus respectivos sofás tomando chá de camomila, fingindo estar na Europa e chamando quem lutou por liberdade de vagabundo… Ah, esses, meus caros, serão para sempre nomeados os tios do pavê. Eles até estavam na festa de Natal. Mas sua atenção não estará voltada ao momento em família, ou à confraternização. Sua preocupação sempre será a quantidade de cerveja que tem no freezer.


__________________________________________

*Polly Morares é Jornalista, comunicóloga e escritora. Instagram: @apollypur



REFERÊNCIAS:


GREEN, John. A Culpa é das Estrelas. John Green; Tradução Renata Pettengill - Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012.

FERREIRA, Maria Mazzucchi. Políticas da Memória e Políticas do Esquecimento. Maria Mazzucchi Ferreira; Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP), 2011.

43 visualizações2 comentários

2 commentaires

Noté 0 étoile sur 5.
Pas encore de note

Ajouter une note
Noté 5 étoiles sur 5.

Muito bem escrito, esclarecedor e reflexivo! Amei 💗

J'aime

Noté 5 étoiles sur 5.

uma visão nova 🙏🏽

J'aime
bottom of page