Narcisismo Político





Um dos grandes perigos que podemos ser tentados a cair, conscientes ou não, é o narcisismo político. O que significa? É a tendência intolerante de não chegar a nenhuma outra visão de mundo político que não seja a nossa. E por que isso é danoso para uma sociedade que deveria se basear na tolerância e na redutibilidade das nossas convicções? É isso que vamos refletir hoje.


Recentemente li um livro de um filósofo político, Francisco Razzo, intitulado, Imaginação Totalitária: os perigos da política como esperança, e ele dá uma definição simples e direta sobre a mente totalitária: “não basta ser verdade para mim, precisa ser verdade para todos”. Ou seja, "acredito na minha certeza e preciso que a minha convicção verdadeira seja transportada para outras mentes, e, claro, para as instituições políticas". Na mesma medida, acreditamos nas convicções de nosso candidato e rechaçamos as convicções alheias. Tal definição perpetua uma infantilidade narcisista sobre a inquestionável concepção de que, quem se contrapõe a minha visão esclarecida e verdadeira das coisas não merece ser escutado.


Todos nós carregamos algum traço narcisista, uns mais do que outros, cabendo refletirmos seriamente sobre isso, pois o excesso é perigoso a si e aos outros. O narcisista não se resume à política, está também no campo religioso, estético, moral. A utilização do termo remonta ao Mito de Narciso, e não propriamente à toda discussão da psicanálise. Mas vamos ao político. Na minha definição há dois tipos de narcisista político: o pacífico e o radical. A definição do primeiro é simples: vai ao debate (previamente com visões irredutíveis sobre a politica) tentando convencer a todo custo que a visão do outro é equivocada. Já o segundo, o radical, vai para o confronto, às vias de fato, não só fisicamente, mas verbalmente, como no caso de algumas manifestações nas redes sociais ou nas ruas, no qual xingar ou rebaixar o outro é prática cotidiana. Mas em ambos os casos há um sentimento primitivo, infantil, de que o mundo é o espelho do que vejo. E só do que eu vejo! Logo, não consigo enxergar outros universos, outras cosmovisões além da minha. Ouço, mas não escuto! Isso quando ouço.


A passagem de uma sociedade no qual o rei acreditava ser superior aos outros, para uma sociedade no qual todos são iguais e livres, ou seja, com direitos e não obrigações de súditos, não dizimou o narcisismo político. O narcisismo na Democracia veio acompanhada de uma sociedade cada vez mais individualista e egoísta, e tomou proporções ubíquas, pois, encontrou em vários lugares, formas de expressar suas cosmovisões irredutíveis. Hoje podemos falar de hipernarcisismo contemporâneo.


É fácil encontrar traços narcisistas exacerbados em nossos políticos. Quando vemos na TV discursos inflamados que apontam caminhos como “nós estamos certos, eles estão errados”, ou ainda, “ nós não vamos dialogar com traidores ou conspiradores”, se incute uma impossibilidade de governar mediante ao diálogo, o que pode incorrer, sem dúvida, em atos mais extremados.


Vemos alguns políticos que rechaçam ou diminuem outros colegas de profissão, simpatizantes e militantes, pelo fato de seguirem determinada ideologia, impedindo que seja possível traçar planos comuns para uma vivência política tolerável. Ou seja, respondemos com ódio o ódio dos outros.


O narcisista político tem a visão de que ser antiético é uma prática tolerável no Brasil, pois por aqui não há punição para os que possuem privilégios ou status sociais elevados. Imagina que a lei é morta, e o que vale mesmo é a cultura do jeitinho, da malandragem. O narcisista político também acredita que toda a culpa está fora dele: no Estado, no Mercado, no partido, na ideologia, na sociedade ou nas classes sociais. E por isso se ausenta de culpa.


Porém, jamais o narcisista se torna cético quanto à sua imagem no espelho, quanto as suas atitudes; o narcisista não busca suspender o seu juízo, ou epoché, apenas acredita que o outro está certo ou errado baseado, irredutivelmente, na construção de um mundo inabalável da certeza das suas ideias. A coisa mais difícil para o narcisista é lidar com a pluralidade, com a complexidade da vida e do mundo. Ele tenta diminuir a explicação das coisas englobando tudo a partir do seu reflexo, do seu eixo solar


A sua dificuldade é com a alteridade, pois tende reduzir o outro a um simples objeto de sua convicção inabalável, sobre a melhor forma de viver em sociedade, a melhor forma de governo, o melhor grupo político, daí por diante. Chega, por fim, a cortar laços com quem pensa diferente; despreza, se afasta, e só se junta com seus iguais. Para ele, o inferno são os outros!

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