171 anos do poeta da liberdade

March 15, 2018

 

 

Hoje, a exatos 171 anos, nascia Antônio Frederico de Castro Alves, poeta nacionalmente conhecido e "patrono" do nosso site. Embora tenha tido uma vida curta (morreu com 24 anos por tuberculose), Castro Alves teve uma vida intensa, tanto do ponto de vista artístico, político e afetivo. Não por acaso, ontem se comemororou o dia da poesia.

 

O "Poeta dos escravos", conforme o chamou José de Alencar em correspondência para Machado de Assis, nos legou poemas que punham o dedo na ferida no recém emancipado Brasil: a escravidão. Seus versos, embora duros, conseguem a façanha de tocar em um assunto tão polêmico na época, mas, ainda sim, com uma leveza que só mesmo a pura arte consegue ser capaz de fazer. E é com esse espírito de compromisso com temas relevantes, mas ao mesmo tempo tomados pela leveza, que o Soteroprosa busca abordar diversas questões em pauta, aqui, no Brasil e no mundo, sempre com o intuito de compartilhar o conhecimento e promover o debate. Estamos abertos a qualquer corrente de pensamento.

 

Como singela homenagem, escolhemos dois poemas de Castro Alves. O primeiro é Canção de Africano, seu primeiro poema denunciando a escravidão, de 1863. O segundo é A Eugênia Câmara, dedicado ao maior dos seus amores.

 

 

 

A canção do africano

 

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

"0 sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...

"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

 

 

 

A Eugênia Câmara

 


AINDA UMA VEZ tu brilhas sobre o palco,
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...

Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...

Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.

Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.

O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.

Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.

Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.

  

Link da imagem:

 

 https://www.google.com.br/searchq=castro+alves&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjJ0q-Gwe7ZAhUIf5AKHTnoCN8Q_AUICygC&biw=1366&bih=662#imgrc=-Srn5b9B3jl-tM:

 

 

 

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