QUANDO BRECHT ENCONTRA DEADPOOL



O cinema e o teatro são referências no universo performático, duas artes que aprenderam a conviver lado a lado, apesar das rivalidades. Ninguém pode negar que as duas operam linguagens diferentes, seguindo um ritmo próprio e irredutível. No teatro, a plateia está ali, viva, interagindo simultaneamente, o que torna o espetáculo algo único, jamais replicável. Como no rio hieraclitiano, não é possível colocar os pés numa peça pela segunda vez, já que a configuração sempre muda, a cada encontro, mesmo que essas mudanças sejam pequenas, imperceptíveis aos olhos do espectador comum. Cada peça é única e sempre se refaz, não podendo ser reproduzida como acontece no cinema ou na tv. Nessas duas últimas modalidades, o ator encena com uma câmera, tendo um objeto frio regulando seus movimentos. A plateia, nesse modelo, é algo meio que virtual, distante, e até mesmo reificada.


Apesar das diferenças de configuração, algumas técnicas são compartilhadas pelos dois universos, o cinematográfico e o teatral. Uma delas, a que nos interessa agora, é a quebra da quarta parede como um recurso performático, uma estratégia dentro de certa narrativa. Claro que essa técnica é ressignificada, embora seja a mesma no cinema e no teatro, oscilando conforme a configuração do espaço, seja ele um palco ou um estúdio.


No teatro épico brechtiano, a quarta parede é sempre um problema, já que cria um tipo de vínculo estranho entre público e palco, além das consequencias dessa mesma estranheza. Se o palco carrega traços da própria realidade, se o palco é a própria realidade, ao menos em certo nível, a quarta parede é um grande obstáculo, principalmente quando o compromisso é refletir sobre o que existe, assim como pensar em novas possibilidades de existência. Para Brecht, quando essa parede quebra, ou explode, o público perde sua imersão, sua neurose provisória, o que sempre vem com um custo, claro; nesse caso, um puro desconforto, um incômodo muitas vezes difícil de definir. Angústia e reflexão, para Brecht, andam lado a lado, como duas faces de uma mesma moeda.


Em Deadpool, a quebra da quarta parede ganha um efeito inédito, um contorno jamais imaginado pelo próprio Brecht, chegando a ser até mesmo o oposto da proposta original. Primeiro, ela passa a ser um recurso de entretenimento, de prazer, sendo que era um recurso de angústia, de incômodo. Segundo, em Deadpool, a quebra da quarta parede é uma estratégia para absorver o espectador na história, dissolvendo sua presença curiosa na narrativa, sendo que, em Brecht, ela era usada justamente como um impedimento dessa absorção. Era preciso que o