Ninguém Sabe Que Estou Aqui (prisioneiro de si mesmo)

August 1, 2020

Imagine ter um talento e este ser utilizado por outra pessoa, o reconhecimento do seu dom e esforço, paixão, nunca chegar até você. Essa é a história por trás do enredo da dica de filme que trago na coluna hoje.

 

Nadie Sabe Que Estoy Aquí (Niguém Sabe Que Estou Aqui) é o primeiro filme chileno original da Netflix e se mostra uma grata surpresa, com muitas reflexões, durante seus noventa minutos.

 

O longa é dirigido por Gaspar Antillo (marca sua estreia como diretor) e estrelado por Jorge Garcia (ator que compunha o cast da série Lost), Nelson Brodt, Juan Falcón e Julio Fuentes.

 

À princípio, o que percebemos do protagonista, Memo, é um homem amargurado e isolado de tudo e todos, que somente interage com seu tio.

 

O isolamento é inclusive geográfico, pois os dois vivem numa fazenda de ovelhas, à beira de um rio no sul do Chile,  na qual o único acesso é através de barcos. E já que toquei nesse aspecto, é interessante mencionar que as locações e a fotografia também são pontos fortes na película.                                                                                                               

 

Mas vamos voltar ao script. Memo, contando por volta de 40 anos, foi cantor mirim no passado, no entanto nunca chegou a ser conhecido pelo público (apesar de sua linda voz). O motivo: suas músicas eram dubladas por um outro jovem, com uma imagem mais “adequada" para o sucesso, de acordo com o produtor.

 

Ou seja, ele vendeu milhares de discos nos anos 90, mas ninguém sabia de quem era a voz melodiosa por trás da aparência ideal do ídolo teen Ângelo.

 

O roteiro explora de forma belíssima como os traumas carregados por Memo, diante do que aconteceu, se acumulam em seu íntimo - como ele se enxerga de forma defeituosa - e provocam um mecanismo de repelir as pessoas, propositalmente, com sua imagem e vestimentas, para não se magoar.

 

Por vezes, o diretor traz à tona, o desejo do personagem (encoberto por muitas camadas de vergonha, tristeza e raiva) de ter recebido esse olhar do outro, do qual ele tanto se esconde. Esses momentos são marcados por cores quentes, contrastando com as cinzentas nos outros períodos. É como se ali ele desse voz ao verdadeiro Memo, que está aprisionado na própria carcaça mental.

 

A música principal de seu repertório passado, e que faz parte da trilha sonora, leva o mesmo título do longa e é extremamente simbólica, além de emocionante.

 

Estou escutando-a enquanto escrevo e penso que esta captura totalmente o sentimento do protagonista: uma sensação de não pertencimento, que lhe causa deveras sofrimento. Vou incluir um trecho para que vocês tenham uma amostra do que escrevo.

 

"Aqui vou eu, não vou demorar

Só pra perguntar o que você deve saber

Há esta terra abaixo

Sem esperança na minha alma

Não há sentimento, este mundo está muito frio

 

Aqui eu minto e assisto as estrelas

Sinto que estou sonhando toda a minha vida

Aqui está o amor que esqueci

Meus corações dançando brilho

Algo errado, eu não pertenço

Oh, no

 

Ninguém sabe que eu estou aqui

Sim Sim Sim

Ninguém está falando comigo e

Ninguém pode me libertar

Ninguém sabe que estou aqui

Sim Sim Sim

Algum dia as estrelas sobre mim

Encherá o que eu preciso sentir"

 

Não vou dar spoilers sobre o desfecho. mas posso adiantar que, aos poucos, e com bastante dificuldade, Memo se deixa enxergar por alguém como realmente é, se abre, é acolhido, o que o ajuda a perceber que sua visão sobre si é muito distorcida e que esta pode ser alterada, entre outras coisas, com atitudes diferentes.

 

Mas até lá, o percurso é tão lindo quanto angustiante para o espectador, que sofre junto.

 

Quantas vezes na sua vida você se deixou limitar, foi prisioneiro de si mesmo? Até que ponto não deixa os outros e, mesmo você, saibam "quem está aí", com receio das críticas que se impõe dentro da sua cabeça? Esse é um dos questionamentos que a história de Memo nos traz.

 

Espero ter feito você se interessar em clicar nesse drama no catálogo, na próxima sessão de cinema em casa.

 

Não é á toa que o mesmo foi premiado no Festival de Tribeca deste ano.

 

É um filme alternativo, sem cenas movimentadas, que se passa em um cenário melancólico, com diálogos profundos, silêncios inquietantes (como os que passamos na nossa vida), e, principalmente, repleto de emoção. Confesso que chorei no final.

 

 

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