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5 MOTIVOS PARA SER CONTRA O “RESPEITO”






Parece óbvio que o respeito é algo positivo, certo? Não importa se assistimos uma propaganda de hambúrguer, um filme da Marvel, uma série da Netflix ou um desenho animado da Nickelodeon... no fundo, o respeito é sempre aquela mensagem especial, doce, apenas aguardando a presença de um sujeito “do bem”, “mente aberta”, “acolhedor”. Tudo seria mais simples se as pessoas respeitassem umas às outras, não acha? O mundo, com certeza, seria um lugar melhor, certo? Errado!!! O objetivo desse ensaio é compreender o “respeito” como uma estratégia neoliberal, uma manobra reducionista que retira até mesmo nossa capacidade de resolver problemas sérios, complexos, como o racismo, o machismo, crises ambientais e outras formas de exploração. Embora o tom do texto seja crítico, o seu propósito não é o abandono do respeito como prática, já que é algo básico e até inevitável, mas apenas questionar sua face ideológica, como um tipo de discurso universal e conveniente. Aqui seguem cinco grandes problemas com o RESPEITO e sua face ideologizada:


O PROBLEMA ÉTICO: O respeito, enquanto matriz explicativa, é uma tática contemporânea que simplifica temas complexos. Ao invés de compreender um fenômeno como um problema mais profundo, estrutural, tudo se resume ao indivíduo e à sua capacidade de acolher o outro. Como, por exemplo, ao ouvir alguém comentando que se surpreendeu por ver um negro em uma Ferrari, nossa reação imediata é simples: “o problema com aquela pessoa é sua falta de respeito, empatia, acolhimento”. Mas, nesse caso, o problema é com a própria realidade material ao redor, com o fato dela não trazer consigo mais negros em Ferraris. O problema, portanto, não é idealista, não está nas representações mentais e desrespeitosas criadas por mim, mas em um mundo materialmente desigual. O racismo acaba sendo muito mais um efeito (um sintoma), do que uma causa explicativa. O indivíduo não age no mundo porque é racista; ele é racista porque age no mundo. Se o racismo manifesta seus contornos em palavras, ou entra em um registro escancarado, bombástico, não é esse o ponto aqui. No exemplo do carro, o racismo não está simplesmente no comentário de uma pessoa desrespeitosa, mas na própria realidade material que nega aos negros mais acessos a carros luxuosos. O comentário racista apenas reflete uma desigualdade material, objetiva, e não simplesmente uma falta de empatia.


O PROBLEMA PRÁTICO: Como consequência da moralização dos debates, políticas públicas e outras medidas não-governamentais ganham um contorno completamente idealista, voltadas a campanhas de conscientização, por exemplo. Tudo é feito como se o problema envolvesse o caráter de certos indivíduos, como se a causa explicativa fossem “representações mentais” que podem ser redefinidas com alguma tomada de consciência. Ao invés de modificar a realidade, ao invés de permitir mais acesso a recursos, educação e uma vida digna ao povo negro, acreditamos que tudo depende dos conteúdos psicológicos do observador, da sua força de vontade ou de estratégias de acolhimento. Se ele “fizer um esforço”, “se ele tiver mente aberta”, “ou se estudar um pouco mais”, o racismo pode ser superado, certo? Errado!! Na verdade, mais conhecimento ou respeito apenas mascara o racismo, impedindo que eu manifeste de forma grosseira ou evidente, embora ele continue atuando como sempre atuou.


O PROBLEMA METODOLÓGICO: Nesse cenário, até mesmo estudos científicos, dentro das ciências sociais, são contaminados por essa alternativa liberal, simplificando ao extremo debates, mesas redondas e artigos. A causa explicativa de certos fenômenos ganha muitas vezes um recorte ético, identificado em alguns grupos específicos. No lugar de um problema disperso, e complexo, o racismo se torna um desvio de caráter, um sinal de pessoas insensíveis, não empáticas, cruéis. Como o próprio Silvio Almeida descreve em seu “racismo estrutural”, esse é o risco de concentrar as energias em sua face individualizada, esquecendo o quanto suas raízes são profundas, o que demandaria muito mais rigor investigativo. No processo, confundimos causa com efeito, ao acreditar que desvios de caráter são elementos explicativos, quando, na verdade, são apenas efeitos de fatores mais profundos. Frases como “fulana agiu por racismo” não é uma causa explicativa, da mesma maneira quando afirmo que “fulana agiu por ódio” ou “fulana agiu por autoritarismo”, ou seja, conteúdos mentais ou emoções não explicam fenômenos, como normalmente o senso comum acredita, mas, pelo contrário, devem ser explicadas.


O PROBLEMA ALGORÍTMICO: A obsessão pelo respeito, em uma moldura ética qualquer, cria também um novo circuito de entretenimento na indústria cultural contemporânea. Nesse novo horizonte, indivíduos podem permanecer cada vez mais engajados em plataformas como Twitter e Instagram, caçando por aí pessoas “desrespeitosas” e “monstros insensíveis”. Na verdade, esse gesto traz consigo um certo tipo de prazer implícito e até mesmo um sentimento de autorrealização, quase como se uma energia revolucionária estivesse na ponta do meu dedo, em um simples tweet indignado contra os comentários malignos de alguém desrespeitoso. A cultura do cancelamento, amparada pela conveniência dos algoritmos, por exemplo, segue muito por esse caminho.


O PROBLEMA RETÓRICO: Ao pensar no respeito como um vestígio liberal, debates inteiros são reduzidos a simples acusações morais, ao invés de concentrarem suas energias em níveis mais complexos de reflexão. Na maior parte das vezes, debates se tornam espaços de argumentos ad hominem, com o simples propósito de desmoralizar o oponente, sem com isso oferecer nada de construtivo no processo. Ao substituir decisões complexas, e seus vários níveis de possibilidade e implicação, tudo se resume ao caráter, ao respeito. Essa insistência em desvios morais, por pessoas desrespeitosas, perde de vista a complexidade dos debates, reduzindo toda sua cadeia imensa de pressupostos teóricos, epistêmicos e ontológicos a simples motivações individuais de pessoas éticas ou não.


Como deve ter ficado claro, o objetivo desse ensaio não foi descartar o respeito como prática, mas apenas como um horizonte ideológico que oferece respostas fáceis, simples e convenientes. Nesse sentido, o respeito enquanto ideologia é um fenômeno neoliberal, na medida em que concentra a responsabilidade no sujeito e na sua suposta autossuficiência. Da mesma maneira, temas como meio ambiente seguem pelo mesmo caminho, quando colocamos a responsabilidade em certos sujeitos éticos capazes de reciclar o lixo, comer uma comida vegana ou realizar alguma prática sustentável. Embora essas medidas a longo prazo, e em uma escala planetária, não alterem os problemas do mundo, pelo menos produzem no sujeito um conforto psicológico, além de inimigos palpáveis e de fácil digestão, assim como ganha no processo uma certa identidade, reforçada por uma nova camisa chique e progressista que comprou no shopping mais próximo. Como mudanças estruturais são complexas, e nem um pouco hollywoodianas em suas narrativas, é muito mais conveniente acreditar que o problema existe em simples desvios de caráter de pessoas lá fora, reproduzindo uma batalha épica entre forças do bem contra forças do mal. Ao recusar compreender o capitalismo como uma força destrutiva ao meio ambiente, um conjunto de relações seculares que atravessa e sustenta cada detalhe do nosso cotidiano, até mesmo as minhas próprias conveniências, acreditamos, por outro lado, que o problema é muito menor, envolvendo pessoas malvadas e desprezíveis. Ao invés de algo estrutural, ao invés de repensar todo um modo de produção e novas alternativas de futuro, tudo despenca em um debate de caráter, aparentemente fácil de ser resolvido... basta uma nota de repúdio ou 280 caracteres de intensa indignação!!!


Referência da imagem:


https://www.revistacircuito.com/cinco-beneficios-do-abraco-para-o-seu-cerebro/


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