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6 MOTIVOS PARA FUGIR DA ASTROLOGIA




Ei, psiu... Já olhou as estrelas hoje? E a lua logo acima da sua cabeça? Tudo parece tão lindo, tão mágico, como numa dança cósmica nos bastidores do céu. Na verdade, Saturno tem algo importante a dizer. Coloque o seu ouvido no telescópio mais próximo e um som vai brotar das profundezas do universo: “você é especial. Isso, você mesmo aí... humano aleatório, nessa galáxia aleatória, nesse sistema solar aleatório, nesse pequeno planeta azul aleatório, nesse país aleatório, nesse estado aleatório, nessa cidade aleatória, nessa rua aleatória... você é tão especial”. Se não acredita, pergunte à lua, ela vai confirmar as palavras de Saturno, mas não fale nada com Jupiter, porque ele odeia sentimentalismo.  


Em um mundo secular como o nosso, rasgado por uma acidez crítica e reflexiva, onde um simples espirro carrega infinitas camadas de significação e malabarismos pós-estruturais, a astrologia sempre foi uma incógnita na minha cabeça. Pense comigo... ela não é uma crença religiosa, não é uma ciência, mas uma mistura estranha de elementos mágicos com um aroma de tempos antigos, tudo isso envolto de uma carcaça de métodos pseudocientíficos. Se fosse um animal, com certeza seria o ornitorrinco, uma bricolagem divertida, mas estranha. Muitos colegas meus, bem ali na esquina ateísta, céticos de tudo e todos, além de encharcados de um construcionismo social ácido, passam dezenas de minutos em reuniões falando dos astros e suas preciosas influências. No começo, pensei comigo mesmo: “provavelmente, eles falam na ironia ou só como um pretexto divertido, uma simples forma de puxar conversa ou algo assim”. Mas não sei... a expressão dos seus rostos, o tom de voz, o investimento de energia em jogo, indica o contrário. Eles parecem levar muito a sério a dança de Júpiter e as intrigas da Lua.


Como um astrologofóbico, um preconceituoso com astrólogos, eu tenho suspeitas profundas com a astrologia. Sem dúvida, a culpa da minha resistência pode não ser um problema com eles, mas comigo mesmo. Talvez seja reflexo do dia em que minha mãe, uma astróloga, me abandonou no meio de uma floresta escura, completamente sozinho no frio e na chuva. Desde aquele momento guardo rancores terríveis, apenas suavizados pelo carinho dos meus novos pais, os lobos. De qualquer forma, eu quero compartilhar alguns dos meus incômodos com você, meu leitor aleatório favorito. E não se preocupe... sua estrutura epistêmica está segura, nenhuma dissonância vai corromper seu precioso mundo. Na prática, como não sou um liberal, nem nos meus sonhos mais insanos, eu não acredito em mudanças de ideia, pelo menos não com palavras, mas apenas com choques de realidade, o que Espinosa chamaria de “afetos”. Ou seja, nenhum dos meus argumentos vai interferir nessa sua breve vida, nesse breve planeta, nessa breve existência. Se o campo astrológico é parte da construção da sua identidade, e alimenta cada fibra desse seu corpo, nenhum golpe retórico afetaria você, nem mesmo uma voadora simbólica na cabeça. Independente de qualquer coisa, espero que essas linhas sejam interessantes, criativas e, até mesmo, cheirosas.


O MOTIVO NIETZSCHIANO: Depois da religião ter sido banida ao terreno do privado, pessoas começaram a preencher essa lacuna com alguma outra coisa, um tipo de substituto urgente, imediato. Como disse o próprio Nietzsche em seu clássico “crepúsculo dos ídolos”: “deus morreu, mas sua sombra permanece”. A fuga da religião não é uma garantia da fuga de transcendências, já que parece uma busca inevitável, uma jornada orgânica, própria da nossa espécie, como Kant revelou no capítulo “dialética transcendental” em sua Crítica da Razão Pura. Por isso colegas acadêmicos, laicos, na fronteira do ateísmo, falam da astrologia com empolgação, mesmo que em outros lugares defendam ideias ácidas sobre valores, conhecimento e verdade. Por trás do veneno pós-estrutural, ou da máscara vendida como venenosa, existe um interior fofo, macio e quentinho, como se fosse um acarajé no tabuleiro da baiana. Seria o campo astrológico uma muleta metafísica em uma época de intensa privatização, talvez o resto de tempos místicos e mágicos, como destroços de um navio que ainda nos ajudam a flutuar em um oceano gelado e turbulento?


O MOTIVO ANTROPOLÓGICO: Eu sei que é difícil de digerir, principalmente nesse mundo neoliberal, mas o universo não gira em torno de vossa excelentíssima, de você... indivíduo todo poderoso. O Planeta Terra não é o centro das bilhões de galáxias lá fora, muito menos a sua vida como homo sapiens sapiens, mas apenas uma poeira aleatória em um mar de infinitas ondas. A astrologia parece trazer à tona traços de um modelo geocêntrico, aristotélico, de um universo finito, ordenado e com o nosso planeta coroando o teatro cósmico. Além disso, nas brechas da existência, nos furúnculos da galáxia, existiria uma moldura metafísica onde cada detalhe tem seu propósito, desde uma simples flauta até a sua vizinha fofoqueira. Esse antropocentrismo é confortável, talvez até necessário, mas não deixa de me incomodar.


“Mas, Thiago”, diria o leitor inquieto, “se tudo isso me ajuda, se oferece um suporte psicológico importante, se organiza minha existência dentro de um horizonte significativo, por que te incomoda tanto? Deixe as pessoas em paz, deixe que elas vivam como gostam de viver, seguindo seus corpos e histórias. Cada um fica na sua, acreditando no que acha certo, no conforto de sua própria privacidade, sem nenhum parâmetro sufocante e verticalizado”. Lamento, mas não me confunda com algum neoliberal de esquerda, não sou assim. Quer conforto? Tudo bem... essa é uma demanda válida, previsível, afinal você é só uma criatura orgânica querendo existir na superfície desse planeta, mas não posso te ajudar, não hoje, não amanhã. Procure um psicólogo, livros de autoajuda, algoritmos do Instagram e Twitter, igrejas, sindicatos, partidos, porque eu, um cientista social, infelizmente não tenho condições de preencher esse vazio no seu peito, por mais que você precise, por mais que você mereça.


O MOTIVO CIENTÍFICO: Entre na primeira livraria do seu bairro, pegue qualquer livro astrológico na prateleira, abra com cuidado as páginas... o que você percebe logo nas primeiras linhas? Simples... uma coletânea de previsões vagas, abstratas, o que torna cada uma delas um encaixe fácil em qualquer tipo de caso concreto. Eu sou um pisciano, como é evidente pelos meus padrões de comportamento. Por exemplo: “sempre durmo de noite, não gosto quando me beliscam, fezes saem de um dos meus buracos, odeio espancar velhinhas no semáforo, detesto beber soda cáustica, não ando pelado na rua”. Enfim, coisas de pisciano. Nas palavras de especialistas:


Netuno acorda de ovo virado aí no seu signo e se estranha com a Lua, revelando que tensões e confusões podem marcar presença no início da manhã

Que tipo de “tensão” ou “confusão” é essa, qual ou quem é a causa delas, onde, como, por que, quando?  Nada tem uma resposta clara e nem pode ter. Da mesma forma que um provérbio, quanto mais vago, mais útil. As palavras se tornam reservatórios de expectativas, projeções oscilantes dependendo do indivíduo em jogo, o que Laclau chamaria de significante vazio. Por esse exato motivo, elas são impossíveis de contestar, como acontece em especulações sobre os bastidores inconscientes de alguém ou alguma coisa. Sem dúvida, é divertido, até eu faço, mas é um campo além de debates ou certezas... é pura especulação esquizofrênica.


O MOTIVO POLÍTICO: Em tempos onde a ciência é colocada contra a parede, pela primeira vez por todas as vertentes políticas nesse planeta, a defesa da astrologia é perigosa, reproduzindo uma atmosfera ácida e relativizante. Apesar das diferenças, a direita e a esquerda (liberal) chegaram a um consenso nos últimos tempos: a ciência é só um discurso como outro qualquer, um campo atravessado por interesses políticos e manobras ideológicas. Pela primeira vez, Foucault e Olavo de Carvalho transaram no banheirão epistêmico, mas de forma discreta... hipócrita. Sem dúvida, você pode defender uma multiplicidade de modelos epistemológicos, afirmando outros pacotinhos de conhecimento, mas tenha muito cuidado, não seja ingênuo. O mundo mudou de uma forma impressionante, a arena política não é mais a mesma, ficou de cabeça para baixo, implodiu suas entranhas. Até os reaças mudaram muito, por isso antes de sair por aí falando da lua e das energias das flores, pense um pouco, seja prudente.


O MOTIVO PSICOLÓGICO: Se você é um indivíduo de humanas e sociais, manter a consistência de nossas ideias, ao lado de pensamentos astrológicos, envolve um gasto de energia enorme, um constante malabarismo retórico que não faz muito bem à saúde. Pense comigo... se na minha cabeça o mundo lá fora é uma extensão de arranjos históricos, ideológicos, culturais, discursivos, sistêmicos, ou seja, contingentes, como é que Jupiter e sua magia entra no meio disso tudo? Quanto mais contraditórios os pacotes epistêmicos na minha cabeça, mais custo existe na manutenção do nosso aparato cognitivo. A ansiedade pode ser uma parceira indesejada nesse campo, por isso cautela... muita cautela.


O MOTIVO ECONÔMICO: Existe todo um mercado lá fora sedento por corpos angustiados, como o meu e o seu. Empresas e pessoas lucram com isso, da mesma forma que coaches fazem o mesmo, seguindo o cheiro de feridas metafóricas. A astrologia se transforma em um esquema de autoajuda em um mundo complexo e tenso, alimentando demandas de criaturas desesperadas por alguma migalha metafísica, por algum traço de propósito, de sentido. O mundo não é visto como um espaço caótico rasgado por contradições e contingências, mas uma rede ordenada de práticas, tudo inscrito nos bastidores do universo.


Meu leitor aleatório favorito, esse foi um ensaio bem humorado, por isso não se importe comigo. Nem sei se as palavras escritas aqui são verdade, provavelmente não. O que interessa é o seguinte: eu me diverti escrevendo e talvez você acompanhando. Fique em paz, fique bem e aproveite sua breve existência nesse planeta azul minúsculo na periferia do universo.

 

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