A AMÉRICA LATINA SEGUE SOB O JUGO DOS IDEÓLOGOS DE GÊNERO

Com 50,13% dos votos válidos, a filha do ex-ditador, Alberto Fujimori (1938-2024), foi eleita presidenta do Peru, em junho de 2026. Keiko Fujimori é herdeira de uma política reacionária e truculenta, que levou à condenação de seu pai por corrupção, suborno e massacres nos Barrios Altos (1991) e Cantuta (1992), além de inúmeras condenações pela Corte IDH pelas mais diversas violações de direitos humanos. Na mesma linha de Argentina, Equador, Paraguai, El Salvador e Colômbia, Peru segue o receituário neoliberal do século XXI sob a batuta do ainda presidente dos EUA.
Em 13 de outubro de 2026, foi noticiado que o governo eleito editou novas regras para a educação por meio de código de conduta, que mais parece um código penal. Sob o pretexto de sanar o problema de ocorrências inadequadas de estudantes que afetam a integridade de integrantes da comunidade escolar, almeja restituir a disciplina em seu entorno e evitar que a indisciplina de alguns afete, negativamente, o desempenho dos demais.
Trata-se de um documento ambíguo que faz uso de conceitos como desenvolvimento integral da pessoa humana, respeito à liberdade, autonomia, identidade, criatividade e participação, mas estabelece rígidas rotinas e obriga os estudantes a determinados comportamentos, declarando que as diretrizes reduzem a discricionariedade, uniformiza o regramento e exige procedimentos que reforçam a segurança jurídica do estudante.
A redução da discricionariedade e a uniformização dos procedimentos estão ainda mais evidentes nas exigências de asseio e definição sobre higiene, pois vedam o uso de maquiagem, acessórios como brincos, piercings, anéis, correntes, pulseiras, ou similar, bem como tatuagens, saias acima do joelho e cabelo pintado. O descumprimento, a princípio, é considerado falta leve e sua reiteração aumenta a classificação para falta grave.
O respeito à identidade, à criatividade, à liberdade e à participação bem como a promoção do desenvolvimento integral da pessoa caem por terra e desembocam naquilo que pessoas do mesmo espectro político nomeiam de “ideologia de gênero.”
Sobre esse conceito, é preciso rememorar que quem o pariu foi a “Conferência Episcopal Peruana” preparada pela “Comissão ad hoc da Mulher” e a “Comissão Episcopal do Apostolado Leigo”, em 1998. Sob a regência do bispo auxiliar de Lima, Peru, o Monsenhor Óscar Alzamora Revoredo, nesta Conferência foi lançado o documento “La ideología de género: sus peligros y alcances”, que atribui aos defensores da construção histórica das relações sociais de gênero a pecha de que são ideológicos a serviço da destruição da vida.
Pois, eles são os que insistem, de forma cada vez mais agressiva, na conformação de corpos e subjetividades, reduzindo os seres humanos a sua condição de macho ou fêmea, mamíferos da espécie homo sapiens. São eles que, orientados ideologicamente por uma matriz cristã e moderna do que significa ser macho e fêmea, tolhem a criatividade e a identidade de meninos e meninas. Os ideólogos de gênero acusam grupos progressistas de agirem em detrimento das crianças e dos adolescentes, mas são eles que lutam pela conservação da ordem social de gênero hierarquizada e causadora de forte vulnerabilidade de diversos grupos sociais.
O projeto educacional recém-lançado deste governo peruano está perfeitamente alinhado ao adestramento de corpos neoliberal e, portanto, reacionário. Quanto menos proteção social, maior a privatização da vida privada com condições materiais significativamente precárias. Esse projeto tem aderência de grande parte da população, exatamente, porque compõe a ideologia dominante do capitalismo e, ao contrário do que vociferam, são os grupos chamados dissidentes que buscam a liberdade, o respeito à identidade e à criatividade. Seguimos em cruzada, numa disputa entre civilização e barbárie, esterilidade e criação, liberdade e repressão.
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