A BELEZA DA VIDA REAL VERSUS A ESTÉTICA INSTAGRAMÁVEL
- Karla Fontoura

- há 23 horas
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Ao caminhar pelas ruas do meu bairro de infância com seus pequenos prédios de fachadas coloridas e cobogós diversos, ou os casarões antigos com suas portas de madeira esculpida e azulejos de santas na entrada, fico estarrecida quando percebo que as novas construções de casas, prédios e condomínios estão cada vez mais quadradas, acinzentadas, cheias de vidros e com modernas portas retilíneas, sem detalhes minuciosos. São caixas e caixas de espaços construídos, um ao lado do outro, especialmente nos bairros mais abastados que só desejam comunicar que ali não entra ladrão ou qualquer outro tipo de intruso e a beleza virou um assunto de segunda instância.
Essa observação minha tem explicação, segundo especialistas em arquitetura e design. Na medida em que as tecnologias se aperfeiçoaram e tornaram-se parte do nosso dia a dia, a beleza do externo foi perdendo lugar para as telas de TV até chegarmos às telas de bolso dos nossos celulares. No século passado, até os postes de rua tinham um desenho que entregavam beleza além do funcionamento. As casas adotavam suas cores e seus detalhes na fachada e os carros que circulavam chamavam atenção com suas cores vibrantes e únicas, com rodas bem polidas. Mesmo dentro dos lares, os objetos carregavam grande beleza nas madeiras das mesas ou nas cadeiras trançadas.
O mais interessante é que quem me chamou a atenção sobre isso foi meu filho de 11 anos. Ele ama coisas antigas e me questionou porque o Mc Donalds antes era uma casinha colorida, com seu teto baixo e detalhes nas janelas e portas e agora é uma casa preta, sem graça, com portas retilíneas, muito vidro e luz baixa. Além do fato dessa mudança fazer parte de uma estratégia de transformação da marca para sair do mundo infantil e entrar para o mundo adulto e mostrar seu compromisso com a alimentação saudável para todos, a marca também seguiu essa linha de sobriedade externa e muita tecnologia. Tanto que, internamente, as casas “sóbrias” ainda possuem luzes e decorações que servem muito bem para fotos bonitas e instagramáveis.
Ai que entra o espaço a qual a beleza ficou reservado: às telas de celulares. Com isso, a relação que temos com o externo ganhou um caráter funcional e prático, sem necessidade de andarmos para contemplar ou explorar sua beleza - dificilmente ela estará lá. O que temos agora é o “cantinho” decorado, o canto reservado para caber na tela de um aparelho e registrar a estética de um lugar, um evento, uma celebração. Caminhar na rua possui um propósito: ir de um lugar a outro para cumprir uma função - e não para respirar a vida e contemplar as camadas de beleza da expressão humana. Quando achamos um grande espaço com essa abordagem estética mais aprimorada, ele possui começo, meio e fim e provavelmente terá uma placa avisando sua característica histórica e turística. Ou seja, ele cumpre apenas sua função e não existe como parte da configuração urbana daquela cidade.
Uma polêmica na internet também me inspirou para falar desse assunto. O cantor João Gomes desabafou em uma entrevista sobre sua frustração ao tentar construir uma casa de alpendre em um condomínio de luxo. Ele buscava um casarão grande, no estilo do sertão, mas sofreu grande resistência dos profissionais de arquitetura que ora não sabiam como fazer esse estilo de casa, ora diziam que era melhor os formatos mais modernos, quadrados com vidros e muita iluminação. Essa situação escancara como essa mudança estética chega ao ponto de inviabilizar talentos que reproduzam casas com a beleza dos tempos antigos, dos detalhes de barro, das janelas de madeira e do teto de telhado. O mais simples se tornou o mais improvável de ser obtido, mesmo que haja pessoas dispostas a pagarem muito por isso. Virou um artigo excêntrico, de luxo.
Aí entra a questão mais difícil: quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Será que fomos para as tecnologias e os espaços deixaram de ser interessantes ou os espaços perderam sua cor e vida e nos refugiamos nas tecnologias para sentir um respiro de arte, beleza e senso estético? Particularmente sinto que a segunda opção é mais provável quando passo por ruas de Salvador, como certas regiões da Pituba, da Avenida Tancredo Neves e certos pedaços do Caminho das Árvores. O comum desses lugares é a clareza de que não foram feitos para caminhar e viver a cidade. Certas regiões não possuem qualquer indício de calçada ou espaço para pedestres. Ficamos entre passarelas ou andamos muitos metros para conseguir atravessar a pista. A mensagem é clara: é um lugar de carros e automotivos com destino exato. É uma passagem para o trabalho, um lazer e um restaurante. Sem possibilidade de caminhadas aleatórias e o sossego de observar a vida no espaço urbano.
Felizmente, temos respiros. Um brasileiro ganhou um dos maiores prêmios internacionais de arquitetura após apresentar o projeto de reforma da casa de sua mãe na cidade de Feira Nova, no Agreste. O pernambucano Zé Vagner reformou a casa que foi construída na década de 1980 e usou de muita criatividade e inteligência arquitetônica regional para construir um lar bonito e funcional, feito para o clima da região e com materiais condizentes ao espaço da casa. Fugindo das tendências das casas quadradas, cheias de vidro, que se assemelham a clínicas médicas, Zé Vagner explorou o entendimento local com sua capacidade técnica para dar vida ao projeto “Casa de Mainha”. Algumas características da casa que se destacaram foram:
O uso de placas de concreto acima das janelas, para proteger e permitir que fiquem abertas até mesmo quando chover.
A aplicação de cobogós permite a entrada e circulação do ar e complementam a estética da casa.
A instalação de aberturas na base do muro para ajudar na ventilação.
Com essa boa notícia, fica a esperança de que não estamos totalmente perdidos em nossa capacidade de expressão artística para além das tecnologias. Porém, fica o debate sobre o quanto o nosso mundo está sendo definido pelas linhas de um iphone. Por exemplo, eu, que sempre amei dançar, nunca gostei das ondas de dancinhas que explodiram durante a pandemia pelo simples fato de que esse estilo de dança foi feito para caber no retângulo de uma tela de celular e não permite com que o dançarino explore todo o potencial do movimento humano. Logo, a nossa condição de seres humanos atados à estética do mundo virtual se pulveriza em muitas outras áreas. Não sei para onde vamos, mas considero assumir meu papel de apontar essa decadência da experiência humana para que fiquemos sempre despertos sobre o caminho que estamos traçando como sociedade. Você está de olho nisso?
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