A CASA QUE REVELA O PAÍS: O BBB Como Campo de Batalha Racial e Político
- Manuel Sousa Junior
- há 1 dia
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O BBB é um microcosmo, um resumo da nossa sociedade. Em cada nova edição, recebemos em nossas redes sociais cerca de 25 brothers e sisters na casa mais vigiada do Brasil e, com eles e elas, vem representada toda a sociedade brasileira. Cristãos, adeptos de religiões de matriz africana, pessoas LGBTQIAPN+, heterotops, agroboys, pessoas com deficiências aparentes ou não, homens, mulheres, jovens, idosos, progressistas, conservadores, esquerdistas, extremistas de direita, loiras, brancos, pretos, pardos, indígenas, amarelos são alguns dos exemplos de grupos que temos na sociedade e que representam ou já representaram o país no programa da emissora.
Existem ex-BBBs que já foram presos, um foi condenado por estupro, preso por pedofilia, alguns foram morar no exterior, alguns perderam tudo o que ganharam, outros viraram políticos e atrizes globais em diferentes emissoras, e a maioria voltou ao anonimato em suas respectivas profissões. Até falecidos já existem entre os mais de 400 ex-BBBs.
Questões raciais e comentários conservadores são frequentes no programa, assim como estão presentes em cada esquina do Brasil. O Big Brother Brasil nunca foi apenas entretenimento: ao longo das edições, o programa se tornou também um espaço de disputa simbólica, onde temas políticos, raciais e sociais atravessam as conversas e geram repercussão nacional. O racismo estrutural, por exemplo, já apareceu em debates sobre colorismo, estereótipos, violência simbólica e desigualdade de oportunidades, como nas falas e conflitos envolvendo participantes negros e negras em diferentes edições, que escancararam privilégios, silenciamentos e a lógica da branquitude dentro e fora da casa.
Questões como violência policial, genocídio da juventude negra, feminismo, machismo, homofobia, transfobia, intolerância religiosa e até a própria polarização política também já atravessaram o reality, muitas vezes revelando discursos conservadores, moralistas e autoritários que reproduzem opressões históricas da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, participantes e situações que trouxeram falas antirracistas, feministas e progressistas provocaram debates públicos, mobilizações nas redes e disputas de narrativa na mídia.
Para citar alguns exemplos dos últimos anos, temos que:
No BBB 21, Karol Conká protagonizou episódios de violência psicológica, práticas de racismo simbólico e humilhação contra Lucas Penteado, com discursos de exclusão, deslegitimação social e isolamento, gerando amplo debate sobre abuso, poder simbólico e opressão dentro do reality. Karol também fez comentários ofensivos sobre o sotaque e a origem paraibana de Juliette, o que pode ser considerado como crime de xenofobia.
Ainda no BBB 21, Rodolffo e Caio proferiram falas e atitudes associadas ao machismo, LGBTfobia e discurso conservador, especialmente no caso da fantasia “homem das cavernas” comparada ao cabelo do professor João Luiz, episódio que gerou debate nacional sobre racismo estrutural e estereótipos raciais.
No BBB 22, Douglas Silva, Linn da Quebrada e Natália tiveram discussões explícitas sobre racismo, branquitude, desigualdade social e privilégios, com embates diretos entre participantes negros e brancos sobre experiências de exclusão e opressão. Natália, inclusive, fez discursos polêmicos romantizando a escravidão. Ela afirmou que os negros foram escravizados no Brasil porque são fortes e trabalhadores. Esse tipo de discurso é academicamente superficial e enfraquece a militância e os estudos acadêmicos.
No BBB 23 houve o caso Dania Mendez: uma mexicana que, em visita à casa mais vigiada do Brasil, foi vítima de um episódio envolvendo assédio sexual, que gerou comoção pública e debate sobre cultura do estupro, responsabilização masculina e violência de gênero. Os participantes Antônio Cara de Sapato e MC Guimê importunaram sexualmente a estrangeira e foram expulsos do reality.
No BBB 24, Davi Brito foi alvo de discursos recorrentes de racismo, elitismo, preconceito de classe e exclusão social, além da forma como foi tratado por outros participantes, evidenciando dinâmicas de estigmatização e marginalização. Davi caiu no gosto do público e foi o vencedor da edição.
O BBB 26, apenas nos primeiros dias, já apresentou briga entre mulheres negras, falta de letramento racial de pessoas negras, racismo estrutural de Paulo Augusto ao perguntar se Milena era mesmo participante ao encontrá-la na sala logo ao entrar na casa (ela seria o quê? Uma moça da limpeza perdida?), racismo religioso contra Ana Paula, machismo explícito do participante Pedro ao afirmar que traiu a esposa, mas não admitiria que ela o traísse. Ele ainda tentou beijar à força uma participante, além da presença de um pobre de direita e negro conservador.
Nesse sentido, o BBB funciona como um espelho da sociedade e também como um campo de batalha ideológico, onde projetos de mundo se enfrentam: de um lado, o conservadorismo que naturaliza desigualdades, hierarquias e exclusões; de outro, perspectivas progressistas que defendem direitos humanos, justiça social, diversidade e igualdade racial. A casa vira, assim, um espaço onde o Brasil se olha e, muitas vezes, se revela em suas contradições mais profundas.
Esses episódios mostram que o BBB não é neutro: ele reproduz estruturas sociais, conflitos ideológicos e disputas de poder que atravessam o Brasil real. As polêmicas escancaram como o conservadorismo opera na naturalização da desigualdade, do racismo e das violências simbólicas, enquanto também revelam a emergência de discursos antirracistas, feministas e progressistas que tensionam essas estruturas e deslocam o debate público. O reality, assim, se torna não só espetáculo, mas um campo de disputa política, racial e ideológica em escala nacional.
Quando o BBB expõe o racismo estrutural, ele está denunciando a sociedade brasileira ou apenas lucrando com a violência simbólica que ela produz? Por que discursos conservadores dentro da casa costumam ser tratados como “opinião”, enquanto falas antirracistas são vistas como “militância” ou “exagero”? Será que todos têm o direito de errar no BBB, tanto pessoas negras e periféricas quanto participantes brancos, ricos e escolarizados? Por que o sofrimento negro vira entretenimento, enquanto o desconforto da branquitude vira escândalo? O programa forma consciência crítica ou apenas reembala desigualdades estruturais como produto de consumo? A visibilidade de pautas raciais no BBB transforma estruturas ou apenas produz engajamento digital sem mudança real? O Brasil que o BBB mostra é um espelho fiel da sociedade ou apenas uma versão editada para preservar privilégios? Muita coisa para refletir, concorda? Deixe sua opinião nos comentários.


