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A CRÍTICA DA CRÍTICA DO TEXTO “JÁ CONSIGO VER FLÁVIO PRESIDENTE”

*Por Thiago Pinho


Depois de mergulhar no texto de Nery, aquele onde critica o ensaio de Carlos Henrique Cardoso (“Já Consigo Ver Flávio Presidente”), membro do site Soteroprosa, alguns problemas surgiram pelo caminho. Vamos com calma, sem pressa, vamos dissecar um pouco os argumentos lançados na mesa por Nery. Vou manter o tom do ensaio em primeira e terceira pessoas, numa tentativa de seguir o ritmo dos debates já feitos..


1) Nery, você reivindica autores de peso como estratégias de autoridade intelectual. Esse policiamento do autor não é justamente o que seus hermeneutas da suspeita discordam? Nietzsche e Barthes, por exemplo, não ficariam um pouco decepcionados com toda essa obsessão autoral, como se fosse um tipo de “abracadabra” acadêmico? Você realmente acredita que o seu argumento é mais verdadeiro por receber a insígnia de legitimidade nietzschiana? Não... por trás de tantos autores e conceitos, de todo um esforço de embelezamento típico da nossa área (acontece comigo também), sua linha argumentativa é simples, como deixei claro nessas páginas. Depois de tirar o casaco francês, a calça e camisa alemãs, o que sobra é apenas um corpo nu, Nery... nu.


2)"falar de dados significa fatalismo". Esse argumento não é apenas questionável, é arriscado, bem ali na fronteira do caótico. Lamento, mas nem tudo é uma construção social ou um jogo hermenêutico suspeitoso. Dados existem, fatos existem. Hoje, mais do que nunca, esse reconhecimento define a esquerda contemporânea. Talvez na década de 60, 70, 80 e 90 fazia sentido criticar a neutralidade, defender um construcionismo social ácido, acolhendo um campo infinito de análises no subsolo das coisas. Fazia sentido concluir que o universal, NO FUNDO, era particular, que o sagrado era, NO FUNDO, profano, o necessário era, NO FUNDO, contingente e a essência era, NO FUNDO, relacional. Mas precisamos lembrar de uma coisa importante, um detalhe esquecido por você: O nosso ano é 2026, não 1968. O nosso mundo é uma época pós pandemia, pós Trump, pós Bolsonaro... Por incrível que pareça, o seu texto é muito perigoso, reforçando um construcionismo social praticamente reacionário. Giorgio Agamben, filósofo italiano, em plena pandemia disse que as medidas sanitárias dos governos, como o lockdown e a própria vacina, eram estratégias ocultas, manobras traiçoeiras de um estado com sua biopolítica. Esse pós-estruturalismo todo era coerente com o clima intelectual da década de 80, mas as coisas mudaram com o tempo. Agamben foi lembrado pelos intelectuais na época dos riscos dessa análise em pleno século XXI, do custo de pós-estruturar demais as coisas. Ao dizer que não existem fatos, ao dizer que dados escondem interesses desprezíveis, ao sugerir que tudo é um jogo de poder e linguagem oculto nas profundezas da inconsciencia social, você escorrega em um espaço perigoso, reacionário.


Nery, nem tudo é uma brincadeira de poder e linguagem, nem tudo é um jogo de significantes, por mais divertido que isso pareça. Eu sei que é difícil de acreditar, mas dados existem e servem como um guia importante dentro da nossa prática, nas ciências sociais. É preciso clareza sobre o que acontece no mundo, um mínimo razoável de consistência, e os dados tem justamente esse propósito. Em um universo de fake news, onde todos interpretam tudo o tempo todo, o texto de Cardoso é um respiro importante, um lembrete de que prudência ainda existe no campo das ciências humanas e sociais.


3) "não existe neutralidade". Sem dúvida, você tem razão, mas não significa dizer que não exista objetividade. Confundir as duas coisas é um deslize grave. O texto de Cardoso é explícito em suas críticas à direita, assim como sua frustração com o atual governo. Isso significa que Cardoso é neutro ou reivindica neutralidade? Não. Ele continua sendo um escritor de esquerda, como sempre foi, embora com um compromisso com a objetividade, ou seja, trazendo informações complexas e até contraditórias, já que o mundo, Nery, é complexo e contraditório. Se o texto de Cardoso não cria um sistema fechado de ideias, um direcionamento óbvio, uma resposta simples, isso não faz do ensaio algo “neutro”, apenas algo de objetivo. Se ele expõe falhas no governo Lula, ao mesmo tempo que problemas no bolsonarismo, se ele evita uma defesa simples e panfletária, em nome de um mapeamento profundo do jogo político, isso não significa neutralidade, Nery... isso é complexidade. Repito... o neutro não é o objetivo. O primeiro é uma ilusão, mas o segundo é uma demanda urgente.


4) Muitos autores da hermenêutica da suspeita passeiam pela sua crítica à Cardoso, de Nietzsche a Barthes, deixando muito claro a sua filiação epistêmica. Eu concordo que existem sempre coisas por trás, detalhes nas entrelinhas, realidades no subsolo, seja lá a metáfora psicanalítica de sua preferência. Não é isso basicamente o fundamento das ciências humanas e sociais? Essa quebra do paradigma cartesiano e a chegada da inconsciência como metáfora? O que discordo é sobre a suposta chave explicativa que você carrega nas mãos. Ou seja, sem dúvida existem sombras nos bastidores, mas quem deu a você o acesso direto, privilegiado, à essa zona inconsciente que o próprio Cardoso desconheceria? O campo das humanas não tem paradigma, Nery, e você sabe disso... Não é novidade nenhuma a inexistência de um consenso mínimo sobre as coisas. Por esse motivo, eu não sei de onde exatamente você tira tanta certeza na sua busca pela inconsciência de Cardoso e de suas palavras. Não somos químicos, não somos físicos, e quando o assunto é a inconsciência alheia, o jogo aqui é mais literário do que científico. Como diria Weber, quanto mais arriscamos nas profundezas da realidade, mais nebulosos são nossos argumentos. E o cientista social precisa de cautela nesse tipo de arqueologia do saber, por mais divertido que pareça aos ouvidos do filósofo.


5) Você criou uma caricatura no texto chamado “Cardoso”, personagem que não corresponde ao autor de carne e osso. Frases como “eu apenas observo”, “eu sou neutro” são construções literárias suas, Nery, não de Cardoso. Esse espantalho criado no seu ensaio é uma tática retórica previsível, mas um pouco injusta. Em nenhum momento da sua resposta os argumentos de Cardoso são considerados... preste atenção. Existem apenas dois níveis em sua crítica: 1) O primeiro andar, onde encontramos um espantalho literário chamado Cardoso, com direito a frases de efeito e narrativas bombásticas. Cardoso, nessa sua brincadeira hermenêutica, é o positivista neutro, provavelmente um reacionário enrustido 2) No segundo andar, encontramos especulações sobre os bastidores ocultos das palavras de Cardoso. Você nega, você afirma que o objetivo “não se trata de julgar a intenção do autor”, mas tem certeza? Se isso fosse verdade, então por que os argumentos de Cardoso não são considerados, por que não vejo nenhum deles em seu ensaio? Por que a única coisa ali é um dinossauro chamado análise do discurso, uma arqueologia ácida em busca de terras inconscientes? Lamento, Nery, mas isso não configura uma crítica séria, pelo menos não nas ciências sociais. Como você é filósofo, vou deixar passar. Como a filosofia não segue um compromisso metodológico mínimo, e facilmente se perde em especulações sem corpo e sem substância, eu não posso pedir muito de você. Apenas entenda que Cardoso é um cientista social, não um filósofo. Quando ele usa palavras como “dados”, “estatísticas”, todas elas fazem parte de um circuito acadêmico longo e profundo, envolvendo revisões por pares, bancas, congressos, grupos de pesquisa e publicações. Descaracterizar esses significantes, como se fossem nada mais do que brincadeiras hermenêuticas, significa descaracterizar a universidade pública e o campo científico. Filósofos podem ter o luxo de críticas desencarnadas, e piruetas hermenêuticas, mas nós, infelizmente, não. Precisamos, sim, de dados, estatísticas, relatos, comparações, relatórios, documentos, planilhas. E repito... isso não faz do cientista social uma criatura neutra, como você imagina, mas um pesquisador sério, complexo e com um compromisso declarado com a

objetividade.


6) Resumindo, eu não vi nada grave no texto de Cardoso, o que não significa necessariamente concordância. Usando a hermenêutica da suspeita contra você mesmo, diria que o seu problema foi, no fundo, a crítica de Cardoso à lula e ao governo do PT, o que revelaria um ressentimento oculto nos bastidores das suas palavras (Perceba, Nery, o quão divertido e fácil é especular sobre motivações sombrias nos bastidores da linguagem alheia. Se você pós-estrutura as palavras de Cardoso, eu também posso pós- estruturar as suas!!). Mas existe uma diferença aqui... somos cientistas sociais, Nery, não filósofos, ainda que a filosofia seja parte do nosso horizonte de leituras. A prudência com certas críticas, o receio em abandonar completamente a objetividade, evitando a celebração absoluta dos jogos de poder e linguagem, é algo possível na filosofia, mas uma regra inescapável nas ciências sociais.


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*Professor do CIMATEC e UFBA, Doutor em Ciências Sociais

e Pós-doutorado em Filosofia.


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