A DANCINHA DA VAMPIRINHA: Crianças Devem Curtir Músicas de Duplo Sentido?
- Carlos Henrique Cardoso

- há 12 minutos
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Algumas pessoas já estão sabendo a essa altura que Ivete Sangalo foi denunciada ao Ministério Público por supostamente convidar uma criança para coreografar um trecho da canção “Vampirinha”, durante apresentação no Terminal Náutico de Salvador. A queixa foi registrada por um cidadão, não foi uma ação dos promotores, achando que a menina estava num antro. Ainda é cedo pra falar se o órgão vai levar a acusação à frente e torná-la ré por exposição infantil, até porque nem chegou a se tornar uma polêmica, viralizada, com amplas discussões pelas redes sociais, nem mesmo no noticiário da TV. Até mesmo o Conselho Tutelar nem tchum pra isso. No entanto, outras coisas estão sendo levadas em questão por conseguinte, como a letra inapropriada para esse público, por se tratar de música e dança sugestivas demais. Será mesmo?
Fui assistir o vídeo e não achei nada revoltante, embora fosse totalmente evitável a presença da menor ali no palco. Ivete até o momento não deu um pio, não se sabe quem é a criança, a idade, o que ela estava fazendo ali, se os pais ou responsáveis por ela apoiaram a tal dancinha, muitas questões. Claro que o que importa para uma possível ação judicial é apenas a exposição indevida, mas essas perguntas pra mim fazem sentido. Foi um espetáculo comercial pra um grande público? Tava liberada a presença de menores? A menina é conhecida de Ivete? Foram os responsáveis por ela que fizeram um pedido à cantora? Tudo muito nebuloso e carente de informações sobre o show, o horário, a censura, o grau de relação com a cantora... Mas não estou aqui apenas pra supor e sim tentar opinar sobre a temática: crianças devem apreciar músicas de duplo sentido?
“Vampirinha” é sim uma canção sugestiva, que fala de um grupo de vampiras que saem à noite pra curtir, chupando pescoços e outras coisas mais... em determinado momento fala em whisky e nargilé, um combo pra adultos degustarem. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) deve ser a base de uma provável acusação, prevendo a proteção integral da criança e seu resguardo moral. Sob o ponto de vista jurídico, existe sim uma possibilidade de agravo para Ivete, nem que seja uma multa, indenização, ou algo do tipo e o silêncio da cantora até o momento pode ser interpretado como uma pisada na bola mesmo. Mas isso aí no campo do direito. Agora é que vai começar o parangolé, pois vou tentar trazer isso pro terreno de uma sociologia da infância.
Vampiros fazem parte do imaginário juvenil desde sempre com fábulas e personagens conhecidos. Uma música que contém essa figura na letra remete a tudo que o caracteriza - gostar de sangue, sair à noite, chupar pescoço, virar morcego, tudo constando na composição. E aí que mora a subjetividade: o que é explicitamente sugestivo na letra pra um adulto, pode não estar sendo pra uma criança. Pra ela, o imaginário da caricatura de um vampiro está formado, sem uma ligação necessária com o teor sedutor contido na letra.
Outro exemplo: A música “Maria Chiquinha”. O que uma criança acha que Maria Chiquinha foi fazer no mato?? Acompanhada de uma “mulher de bigode”??? Acham que a criançada tem noção do “duplo sentido” contido aí? No máximo, devem achar que Chiquinha foi dar uma defecada e levou alguém pra garantir a privacidade do ato e não deixar outras se aproximarem. Pior: essa música termina com um suposto feminicídio! E é uma canção voltada para a molecada. E aí? Vai rolar Ministério Público???
Retornando ao tema vampiresco... “ah, mas a dança é sensual, inapropiada, pepepê, caixa de fósforo...”. Sob esse quesito, a ação sobre a participação de Ivete é discutível sim, afinal, é uma adulta convidando uma criança (tudo leva a crer), mas sob o ponto de vista do bailado, as meninas da Bahia sempre dançaram em brincadeiras com cantigas de roda, provenientes de lundus antigos, como “Sai ô Piaba”, dando umbigadas, chamando a outra pra roda. Rebolados e outros agitos sempre pertenceram à nossa formação rítmica desde que éramos pequenos, nas esbórnias nos quintais, espaços de lazer, festividades, e outras praças, e muitas vezes com duplo sentido nas letras. E a criançada sempre acompanhando os passos de seus parentes, mostrando que a dança como ato recreativo está presente em nossa formação. E é isso que tento argumentar: uma coisa é a dança, outra é a malícia do gingado que pode não estar presente na percepção infantil. E se a percepção se faz presente, não se deve apenas a audição de uma música, mas a outros comportamentos: o olhar cobiçoso do homem, exposição precoce a atividade sexual (coitos no quarto ao lado, conversas inapropriadas, vídeos no celular), e outros atos obscenos. Já cheguei a ouvir, muitos anos atrás, que meninas que dançassem como Carla Perez poderiam menstruar mais cedo! Não sei que experiência científica pode detectar isso!!!
Recentemente, uma plataforma digital de jogos chamada Roblox foi acusada de exploração infantil. Como é uma rede social utilizada por crianças e adolescentes, adultos se passando por jovens podem aliciar esses guris, e aí sim se tornar um problema sério. Esses ambientes virtuais podem trazer muito mais malefícios a longo prazo do que uma dança de alguns segundos com uma artista que a criançada adora e ainda proposta de desafios mirabolantes e repugnantes. Acredito que a maioria das pessoas não vai considerar inadequado a garotada se divertir ao som de “Cria da Ivete”, “Energia de gostosa”, ou “Macetando”. Porque isso é música; é dança; vai fazer parte do universo dela desde sempre e isso apenas não vai transformar nenhuma menina numa “vampiriguetinha”.
Nem tinha lugar de fala pra tanto, não tenho filhos, não convivo com crianças, nenhum fator empírico pra descrever relações sobre música maliciosa e infância, no entanto, tentei puxar pra uma discussão mais sociológica do assunto. Agora é aguardar pra ver se o Ministério Público deixa as vampiras chuparem em paz ou se se vão deixar a luz do sol bater nessa celeuma.
FONTE:
https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/01/29/o-que-a-lei-preve-sobre-exposicao-de-criancas.ghtml
IMAGEM: Política por Dentro



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