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A DERROCADA DO ICL E A LUTA CONTRA O MODELO LIBERAL DE COMUNICAÇÃO




O Instituto Conhecimento Liberta é um projeto que associa educação, jornalismo e cultura numa mesma configuração estrutural, oferecendo cursos diversos, programação variada e noticiário de qualidade, abrigados em um site e canal no Youtube. Fundado em 2020 pelo ex-banqueiro Eduardo Moreira e pelo especialista em marketing digital Rafael Donatiello, tem como reitor da plataforma de cursos de pós-graduação e extensão o sociólogo Jessé Souza. Isso mostra como o ICL nasceu grande, ousado, e com perfil diferenciado dos demais veículos de comunicação. Um dos seus grandes trunfos é o autofinanciamento através da matrícula dos seus cursos, lecionados por intelectuais respeitados em sua área de atuação. O ICL se orgulha de ser um portal/canal que não monetiza seus vídeos, não possui anunciantes, nem aceita reproduzir propaganda ou comercial para qualquer marca. É sustentado pelos alunos e só. Estreou seu principal jornal - o N1 - em maio de 2022 e conta com um time de jornalistas bastante experiente.

 

No entanto, todo esse sucesso vem enfrentando dificuldades após a demissão do diretor de jornalismo do canal Leandro Demori, por conta de um vultoso corte no orçamento do departamento de jornalismo (30%!), motivado por dificuldades financeiras. Demori afirmou que não tinha sido convidado para participar de qualquer decisão sobre políticas de contenção de gastos, o que gerou uma reação em cadeia que desembocou em pedidos de demissão de outros componentes da equipe, como César Caleijon e Vivian Mesquita - principal âncora da emissora/canal - e também desconfianças sobre desavenças internas que não estão completamente esclarecidas. Além de Demori, outros profissionais foram desligados, causando um rebuliço que culminou numa tentativa do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo de reverter os desligamentos, gerando debates sobre pejotização do trabalho jornalístico e colocando a assessoria jurídica à disposição dos demitidos para acompanhamento dos cumprimentos de direitos dos funcionários afastados.

 

Todo esse imbróglio nos leva a pensar sobre a “pureza” do ICL em não aceitar anunciantes, o que supõe que a política de autofinanciamento possa não ser sustentável por muito tempo, e é essa minha preocupação nesse ensaio. Muito se fala da tal “crise no jornalismo” que esfacelou redações, causando baixa nos salários, diminuição de vagas, dificuldades na produção de grandes reportagens e queda do número de leitores, espectadores, e ouvintes. Isso em veículos que possuem patrocínios e monetizações diversas. Imagine o ICL que recusa tudo isso?

 

Vi um vídeo do professor/doutor André Jacobina, em seu canal “A Nova Máquina do Tempo”, criticando o modus operandi do ICL na contratação de professores para ministrar aulas na plataforma deles. Diz ele no vídeo que o Instituto paga a hora/ aula por valor maior que os aplicados no mercado, no entanto, toda a produção intelectual do professor fica retido na plataforma, não podendo ser utilizada por quem a produziu. Com isso, o docente contratado fica sem qualquer repasse posterior, à medida que as aulas vão ganhando repercussão e número de novos estudantes. Jacobina defende a distribuição dos recursos oriundos da divulgação dos cursos. Essa retenção também ajuda a financiar as atividades do ICL. Mas está sendo criticada também por outras pessoas.


Não digo que isso abala a credibilidade do projeto, mas nas últimas semanas os pedidos de demissões vem sendo mais noticiados que os documentários que lançam e as notícias exclusivas. Há indicativos que os cortes de gastos venham a prejudicar em curto prazo reportagens investigativas que demandem pesquisas mais aprofundadas. Sem contar que os profissionais ficam a mercê de novos cortes, caso os recursos continuem apertados. Não sei como está o clima lá, mas trabalhar permeado por desintegrações de uma equipe robusta, que estava realizando um trabalho de excelência, não é fácil.

 

E tem mais… O ICL está em litígio com o Partido Liberal por conta de um documentário sobre Flávio Bolsonaro, o que está sendo tratado como intimidação por parte do Instituto; alegam “censura algorítmica”, por parte das big techs, na divulgação de outro documentário ,“Cararra”, que aborda a crise econômica na Argentina; já teve vídeo do programa “Desperta ICL” retirado do ar após mostrarem vídeos do Hamas devolvendo reféns; em 2023, sofreram ação judicial do então presidente da Câmara Arthur Lira, por diversas matérias sobre o chamado “kit robótica”, um esquema de desvios de recursos públicos. Tudo isso é custo judicial, reverberando em gastos inesperados pelo exercício da liberdade de imprensa, minando as contas do Instituto.

 

O modelo de marketing do ICL enfrenta o padrão de outros canais, que não medem esforços para adquirir o máximo em divulgação de produtos, vide a CazéTV, um fenômeno de sucesso, único canal brasileiro a transmitir a integridade da Copa 2026 com propagandas de bets a granel, conquistando 19 milhões de seguidores ao longo do torneio. Nos últimos anos, desde o advento da “onda liberal” com o crescimento exorbitante de canais da chamada “nova direita”, apareceram youtubers e influenciadores do nada, amealhando seguidores, e recebendo recursos de entidades internacionais. O ICL possui 278 mil inscritos, e outros canais progressistas mais antigos conseguem cerca de um milhão e meio de seguidores - com anunciantes, mas independentes. Pois então… há canais de uma pessoa só que tem quase 3 milhões de inscritos! Quase todos defensores de uma agenda liberal, com ideias extremistas, defensores da “liberdade de expressão”, já foram eleitos a cargos legislativos ou pretendem se candidatar, defenderam a Lava Jato strictu senso, ou seja, pertencem a um combo que não mede esforços para receberem financiamento de big techs, Thik Thanks, ou quem quer que seja.

 

Dito isso, podemos intuir como é difícil exercer uma prática que fuja da financeirização da informação, manutenção de ideais, e confrontação com modelos capitalistas arraigados. Cada desligamento do ICL é uma facada dada pelos projetos mais robustos de ramificação financeirizada e mercadológica da informação. Em um ano eleitoral que promete campanhas sujas e desonestas - como o próprio ICL vem noticiando - com possíveis utilizações de IA’s, mesmo proibidas, mas com um STJ que não consegue transmitir confiança na fiscalização e combate ao uso desses meios escusos, canais como o ICL são fundamentais. Só nos resta saber o quanto seu procedimento funcional pode durar.



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