A FALTA QUE FAZ O RITUAL: ENTRE O REMOTO E O REAL



Para quem ler meus textos sabe que em geral escrevo reflexões sobre fatos e filmes, me atenho mais aos fatores externos, porém hoje quis trazer uma outra dicção, pensando em um formato de crônicas do cotidiano, ou texto desabafo. Acredito que a temática que abordarei diz respeito ao que muitos vem sentido nesse momento de pandemia: a falta dos rituais, sejam os coletivos ou os particulares.


Essa semana foi São João, a tradicional festa nordestina que engloba: dançar forró agarradinho, quadrilha com os amigos, beber licor e quentão, comer bolo de aipim, pamonha, milho, amendoim, juntar a família em frente a fogueira, queimar fogos de artificio com as crianças e adolescentes da casa. Para quem é de Salvador, ir ao pelourinho ou viajar para o interior. Aproveitar as festas nas praças das cidades, ou, nos sítios e fazendas com boa parte da família. Infelizmente, com a pandemia (e a falta de vacinas), não foi possível experienciar esse momento delicioso e coletivo, por mais um ano.


A falta da festa típica do Nordeste me fez lembrar dos rituais de passagem que ocorrem no cotidiano e na vida. O São João marca a metade do ano, o inverno, as férias de meio do ano, a passagem do semestre, um gozo coletivo para o estresse do dia a dia e rememora a importância das festas populares no cotidiano brasileiro e, em especial, nordestino. Não o ter, ou tê-lo de forma remota parece um fosso no calendário, assim como outras formas de comemoração.


Esse mês defendi o TCC de forma remota em um aplicativo de computador. Me vi sozinha no meu quarto, algumas pessoas numa sala virtual e fiquei me perguntando, é real? Ou o quão real isso é? Comecei a duvidar desse ritual de passagem em minha vida. Eu sei que foi real, até porque está gravado e assinado. Mas a não materialidade, o não estar em uma sala com a banca, com colegas, com amigos e com parentes próximos, me fez sentir saudades do que nunca tive e do que não vou ter.


Passei no mestrado, uma seleção que fiz de forma remota e até de certo modo mais complexa. Tivemos uma hora e trinta minutos para fazer uma prova que no presencial dura quatro horas, isso para evitar plágios ou outros tipos de fraude que podem ser facilitadas com o formato remoto. Apesar de estar feliz com o resultado, mais uma vez pensei no fragmento da materialidade da coisa. Ainda não acredito que ela aconteceu pela falta da matéria viva.


Outro dia li uma postagem no twitter em que dizia mais ou menos isso: “deve ser difícil para quem está fazendo a passagem dos 16 para os 18 de maneira remota”. Imagina ter que escolher uma carreira nesse formato online, através de janelas não táteis? Um dia a pessoa estava na escola, cursando o E.M de modo presencial e quando as coisas se normalizarem a pessoa estará em uma cadeira de faculdade com completos desconhecidos e assumindo responsabilidades de adulto.


Fico um pouco chocada quando penso no mestrado, penso; quando eu voltar não serei mais uma aluna de graduação e estarei com pessoas que nunca vi na vida. Esse ritual de passagem aconteceu sem uma materialidade ou com uma materialidade não humana, porque não vi pessoas numa sala de prova, não toquei as mãos de ninguém para depositar documentos em órgãos credenciados. E bem... senti falta disso. Tudo o que fiz foi intermediado por uma máquina.


Muitos colegas que se formaram nesse formato têm contratado fotógrafos para tirar fotos com roupa de formando, tenho pensado em fazer isso, mas também titubeio: até que ponto esse gesto de fato me trará a sensação do real, já que minha colação de grau não será em uma sala de reitoria com todas aquelas pompas (e chatices) que um ritual de formatura permite? Não terei um convite de formatura, nem uma festa para dar ou nem uma viagem para fazer.

Em verdade, não sou muito de ligar para festas, mas sinto a necessidade dos rituais de passagem, sejam os do ano ou os da vida. Gosto de aniversários, de encontrar os amigos. O formato remoto não permite cheiros, abraços e carinhos. Não quero aqui condenar o formato digital, afinal, sem ele nem essas mínimas experiencias eu teria conseguido ter e, provavelmente, estaria estagnada no meu curso, o que vem acontecendo com algumas profissões. Então não pretendo ser ingrata.


Graças ao formato remoto consegui fazer cursos que não seriam possíveis no presencial, por serem de São Paulo, então, vivi a hiper conectividade e as não fronteiras que a internet permite. Também apresentei em um congresso remoto em Salamanca, na Espanha, o que dificilmente eu iria conseguir custear se fosse no formato presencial. Assisti festivas de cinema de outros estado e países e por aí vai. Então, sei que consegui transformar água e vinho e me aproveitei do momento atual. Porém, tenho a consciência de que o momento atual também me retirou outras experiências importantes na vida.


Não pretendo com o texto ser inconsequente e criminosa ao dizer: “saiam as ruas”, afinal, não temos ainda condições de aglomerações. Então, por enquanto, façam os rituais da maneira como der e que sejam da forma mais segura possível. Ainda que não sejam iguais e não serão. Afinal, viver remotamente é viver a ponta do iceberg que a vida nos permite.


Nesse momento, vivemos mais tempo na imaginação das telas de computador e da própria mente, o que não é ruim, mas até que ponto é real? O que é o real e o imaginado nesses quase dois anos de pandemia e rituais remotos? Não conseguirei responder a essas perguntas agora, mas deixo essas questões para pensarmos.


Registro nesse texto o meu sentimento de saudade, impotência e tristeza. Quando pudermos voltar para os nossos rituais, pretendo relê-lo e lembrarei desse sentimento de angústia que será passado. Quero poder voltar aqui e quem sabe fazer uma resposta a essas palavras. Talvez dizer sobre o que mudou nos rituais e a importância dos rituais na retomada da vida presencial, da vida humana em movimento, com suas passagens táteis.


Imagem de capa: <https://image.freepik.com/vetores-gratis/festa-on-line-encontro-com-amigos-pessoas-fazem-festa-on-line-em-quarentena-videoconferencia-festa-on-line-com-camera-web_24877-64801.jpg>