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A GENTE NÃO NASCE HOMEM, TORNA-SE HOMEM. – PARTE II OU... SOBRE COMO DESCONSTRUIR O HOMEM.




Em texto anterior nesta coluna[1], abordei como os estudos de gênero surgiram do feminismo, inicialmente focando apenas na figura da mulher. Com o tempo, esses estudos se expandiram e aprofundaram, incorporando a ideia de que "não se nasce homem, torna-se homem". Isso abriu novos horizontes para examinar os papéis da masculinidade, ou melhor, das masculinidades, reconhecendo suas múltiplas formas e explorando as possibilidades de desconstruir o modelo masculino tradicional.


Assim, à medida que desvendamos as complexidades da construção social de gênero, tornou-se crucial estender nossa análise para além da desconstrução da feminilidade, explorando a construção social do homem e suas implicações – necessário, pois por muito tempo, de maneira implícita, foi se compreendendo o homem como o polo da natureza e a mulher a da cultura. A reflexão sobre a masculinidade como uma construção social é um passo vital em direção à igualdade de gênero e à promoção de sociedades mais justas e inclusivas.


Ao compreendermos a masculinidade como uma construção social, percebemos que os homens também são moldados por normas e expectativas que, muitas vezes, são prejudiciais tanto para eles mesmos quanto para outros membros da sociedade. A masculinidade tradicional está frequentemente associada a características como agressividade (sobretudo contra a mulher, mas também entre eles), domínio e repressão emocional, perpetuando um ciclo prejudicial que pode levar a atitudes e comportamentos violentos.


A pergunta que fica é: como se constrói e se desconstrói um homem? A primeira pergunta é mais fácil de responder e de se visualizar, a segunda pergunta tem respostas possíveis, mas se apresenta como um desafio político muito distante de ser concretizado. O homem se constrói desde o momento que se identifica o pênis no ultrassom (bem como é assim que se constrói também a menina a partir da identificação da vagina) e se prepara todo um universo na cor azul e junto a ele símbolos ligados a masculinidade através das roupas, dos brinquedos, das brincadeiras, das censuras aos comportamentos entendidos como inadequados para os meninos.


O menino se forma quando percebe, pelas "piadas" (violências) que ouve ao seu redor, que o feminino, a homossexualidade e a transexualidade são associadas a coisas negativas. Ele se constrói ao encontrar imperativamente representações de famílias cis-heteronormativas nos livros didáticos, na TV, na igreja, nos livros, revistas, propagandas, entre outros. E se as piadas, censuras e representações limitadas não forem suficientes, frequentemente recorre-se às surras e, se ainda assim não "resolver", não é raro que se chegue ao assassinato.


A urgência de desmantelar o paradigma masculino tradicional é evidente quando consideramos a necessidade de reduzir a violência contra as mulheres e outros sujeitos marginalizados, inclusive quanto ao próprio homem heterossexual – vide as inúmeras matérias de jornais que relatam violências físicas brutais contra irmãos, pai e filho, amigos, entre outros, que foram confundidos com casal homossexual.


Desde a infância precisamos buscar caminhos para fazer os homens compreenderem que é possível expressar suas emoções, é necessário compreender que essas crianças precisam participar de jogos vinculados ao cuidado, que esses jovens meninos precisam ser inseridos no cuidado do lar e é preciso ensinar valores que reverberem a ideia de respeito para com as mulheres e outros sujeitos que não possuem uma performance masculina padrão, entre outras possibilidades.


De uma forma mais simples: é preciso incentivar que os meninos brinquem de boneca. Sim, de boneca. Jogos e brinquedos na infância não são pura distração, eles têm a importante função de treinar cognitivamente a criança para despertar nela certas inteligências e o cuidado, a sensibilidade podem e devem ser despertadas por meio dessas brincadeiras – do mesmo modo que é preciso permitir que meninas brinquem com carrinhos para que consigam desenvolver melhor habilidades que lhes são negadas. O único risco de permitir que homens brinquem de boneca quando crianças é o de os tornar pais melhores, que sabem trocar fraudas e conseguem se conectar melhor com o bebê.


Os homens precisam aprender a construir relações mais verdadeiras entre eles próprios, onde o diálogo real é possível. Duas pesquisas internacionais confirmam essa tendência. Em 2019, um estudo realizado pelo site britânico YouGov revelou que 32% dos homens não tinham ninguém a quem chamassem de "melhor amigo". Já em 2021, uma pesquisa conduzida pelo The Survey Center on American Life, que estuda os hábitos e o estilo de vida dos americanos, mostrou que os homens são menos propensos a confiar ou depender de amigos para suporte emocional ou para compartilhar sentimentos, em comparação com as mulheres. A educação dos homens, que os incentiva a serem competitivos, fortes e inabaláveis, contribui para a solidão e o sofrimento silencioso.


Os homens precisam também se desvincular do pacto masculino de autoproteção, que muitas vezes perpetua a cultura do silêncio em torno de problemas como a violência doméstica e o abuso. Romper com esse pacto significa não apenas assumir a responsabilidade por suas próprias ações, mas também desafiar ativamente as normas prejudiciais entre seus pares masculinos. A disputa por modelos alternativos de masculinidade deve ocorrer nos espaços onde os homens interagem, como grupos de amigos, ambientes de trabalho e até mesmo na educação dos filhos. Os homens têm um papel vital na desconstrução das narrativas tóxicas de gênero, tornando-se aliados na luta pela igualdade e influenciando positivamente as gerações futuras.


Os homens precisam se permitir explorar mais sexualmente. O sexo pode ir muito além da penetração, e há muitas possibilidades a serem descobertas com o próprio corpo. Permita que seu corpo seja explorado por suas parceiras e por você mesmo, inclusive o ânus, que é naturalmente (já que os conservadores adoram falar sobre natureza e biologia) uma zona erógena com inúmeras terminações nervosas. Uma vida sexual mais livre e plena, uma revolução sexual masculina, poderia nos fazer gozar (rs) de uma sociedade menos violenta. 😉


Ao abrir espaço para a diversidade de expressões de gênero e sexual masculina, contribuímos para a construção de uma sociedade mais inclusiva e menos permeada pela violência de gênero. A desconstrução da masculinidade tradicional não apenas beneficia as mulheres, mas também liberta os homens das limitações impostas por padrões ultrapassados, possibilitando-lhes abraçar uma identidade mais autêntica e plena. Essa jornada, rumo a uma masculinidade mais empática e justa, é um passo fundamental no caminho em direção a um futuro em que todos possam viver livremente, independentemente de sua identidade de gênero.


É preciso que, nós homens,  falemos e atuemos fortemente no sentido de disputar as masculinidades para que nos tornemos homens outros, homens melhores.


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2件のコメント

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Grande texto! Lembrei das pesquisas de Valeska Zanello sobre gênero, onde ela argumenta que a construção discursiva sobre ser feminina é vinculada a "natureza" e, portanto, a pessoa deve ser naturalmente uma mulher por ter uma vagina. Para o homem, o caminho é outro. Nasce-se homem pelo genital, mas é necessário ao longo da vida "provar-se homem". O comportamento masculino é uma constante validação grupal sobre não ser mulher. Ele precisa estar atento a trejeitos, roupas, comportamentos, hábitos que não o tirem da zona do homem.

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Um exercício sem fim, totalmente

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