A GOURMETIZAÇÃO DA (TRANS)MISOGINIA: Corpos em conflito
- Armando Januário

- há 1 dia
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A bolsonarista Cássia Kiss, mais uma vez foi responsável por uma onda de revolta nas redes. Desta feita, ela proferiu ofensas transfóbicas contra Roberta Santana, funcionária do Barra Shopping, pelo uso do banheiro feminino. Roberta é uma travesti e Cássia chegou a dizer “[...] que era um absurdo um homem estar usando o banheiro das mulheres”. A denúncia já foi encaminhada ao Ministério Público para a abertura das investigações.
Apesar do apelo de 80 entidades defensoras dos direitos humanos junto ao Comitê Olímpico (COI) para não reduzir as mulheres a um diagnóstico de testes genéticos e após quase três décadas de ter deixado tal prática de lado, o COI anunciou a retomada dos testes para os Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles. Afirmando que as competições femininas ‘estarão reservadas a pessoas do sexo biológico feminino’, o comitê deixou claro que vai barrar mulheres trans, intersexo e qualquer pessoa não-portadora do gene SRY.
Mesmo sem haver fundamentação científica definitiva para determinar se mulheres trans e intersexo teriam vantagens físicas, o COI utiliza a ciência para determinar quem pode ser considerada mulher. Esse regresso a 30 anos ocorre exatamente quando a primeira mulher cisgênera, Kirsty Coventry, está à frente da instituição. Essa tomada de decisão se alinha a ordem de Donald Trump, que já havia retirado as mulheres trans de qualquer participação esportiva feminina, do Comitê Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos (USOPC, em inglês).
As medidas restritivas e segregatórias implementadas no âmbito internacional, tanto pelo governo Trump, quanto pelo COI, incentivam a proliferação de discursos transfóbicos no cenário nacional. Ainda que em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha equiparado transfobia a racismo, continuamos observando a reprodução de falas e práticas contra as travestis e mulheres trans. Em um período histórico marcado por ataques frequentes às instituições, zombar dos marcos civilizatórios se tornou uma das maneiras mais bem- sucedidas de atacar a democracia. Na verdade, o pensamento democrático tem sido desgastado, ao sabor de tentativas constantes de asfixiar os direitos civis.
O ataque de Cássia Kiss contra Roberta Santana é mais um ato para retirar dos corpos de travestis e mulheres trans a possibilidade de satisfação de necessidades fisiológicas. Ainda que tenha um espaço privativo, no qual as portas são fechadas e o uso é íntimo e pessoal, o banheiro possui também outro espaço, para lavar as mãos e espelhos, nos quais as interações ocorrem e as diferenças surgem. Foi exatamente neste local que Cássia desferiu ofensas transfóbicas contra Roberta. Não suportando viver entre as diferenças, a atriz se viu diante de uma nova – e, para ela, insuportável – realidade: após décadas de lutas, a população T começa a acessar espaços de poder. Nas eleições desse ano, a formação da Bancada Trans é um dos objetivos das pleiteantes ao Congresso Nacional. Esse movimento de reparação histórica é uma inspiração para seguir contribuindo com as vitórias de um grupo social resiliente, mas, ainda hostilizado, no país líder em assassinatos motivados por transfobia. Todavia, na contramão desse crescimento, se encontram formas inovadoras e sofisticadas de minar suas ações.
O patriarcado, compulsoriamente cisgênero e heterossexual, encontrou um caminho para investir contra as travestis e mulheres trans. Compreendendo que reduzir a categoria mulher à dimensão biológica expõe seu ponto fraco, haja vista desconsiderar a dimensão sociocultural da construção dos corpos, o sistema patriarcal voltou a sua perversidade criativa para colocar as mulheres cis contra as travestis e mulheres trans. Se por um lado, sua fraqueza persiste, posto que ser mulher não se resume a ter um conjunto de órgãos ditos reprodutivos, conforme discutido em nosso artigo A Gourmetização da Transmisoginia: o que é ser mulher?, por outro, apontar para um padrão genético específico torna a discussão mais complexa, evocando a biologia em um nível ainda inacessível para diversas camadas da sociedade. Tal movimento está longe de ser aleatório. Sua meta continua ser a satisfação perversa daqueles que se sentem ameaçados pelas brechas deixadas pelas próprias ciências biomédicas, ao longo da história, na definição das categorias homem e mulher.
Deixar a população ignorante quanto as complexidades genéticas e ao mesmo tempo estabelecer normas estritamente baseadas em genes como único parâmetro para disputar modalidades olímpicas pode ser o primeiro passo para justificar outras segregações. Acessar o banheiro feminino, direito conquistado através de décadas de militância, também é parte desse mesmo movimento para legitimar retiradas de direito. Contudo, o maior interesse no momento, é promover conflitos entre as mulheres cis, travestis e trans. O patriarcado viu na eleição da deputada federal Erika Hilton à presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, uma ameaça aos seus interesses. Por isso, colocou os seus agentes, entre eles, mulheres cis que são deputadas, para atuar como tropa de choque, se opondo a qualquer projeto que seja levado à votação naquela comissão, ainda que seja em benefício das próprias mulheres cis. Utilizando o argumento de que travestis e mulheres trans não são mulheres, capilariza o ódio enquanto instrumento de violência política, colocando mulheres cis contra mulheres trans e travestis. Nesse instante, o objetivo torna-se evidente: utilizar as diferenças como trilha para provocar divisão entre as mulheres e dominar os seus corpos, viabilizando retrocessos. As travestis e mulheres trans seriam as inimigas das mulheres cis, aquelas que tomam o seu lugar e constituem um perigo aos seus direitos. Tão perigosa estratégia serve para produzir desencontros na construção de pautas importantes, como a criminalização da (trans)misoginia. Certamente, esse é o maior pavor do patriarcado: ver homens, parlamentares, inclusive, sendo punidos por crimes de ódio contra as mulheres.
A História comprova que todos os direitos conquistados pelas mulheres vieram com esforço e superação das diferenças internas. Mais uma vez, essa parece ser a tarefa: compreender a estratégia do inimigo e se unir, reconhecendo multiplicidades e divergências. Não será fácil. Em uma sociedade pensada para machos e em tempos de ascensão do fascismo nas suas versões masculinistas, os desafios estão diante de nós, que desejamos um Estado verdadeiramente democrático. Devemos compreender, em pleno ano eleitoral, que a luta contra a transfobia e (trans)misoginia é uma das frentes para defender a democracia e bússola para alinhar a rota, congregando as mulheres no enfrentamento das desigualdades históricas das quais são vítimas. Mais ainda: promover uma neodemocracia, habilitada a desbaratar a tecnoguerra patriarcal, machista e (trans)misógina que nos ameaça.
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