A GOURMETIZAÇÃO DA (TRANS)MISOGINIA: Daniela Mercury, Edson Gomes e o sanduíche da realidade
- Armando Januário

- há 1 dia
- 8 min de leitura

Os últimos dias de abril de 2026 foram marcados por um acontecimento ímpar, envolvendo Daniela Mercury e Edson Gomes. No palco do troféu Armandinho & Irmãos Macedo, a cantora foi premiada com o hit do carnaval, a canção “É Terreiro (Laroyê)”. Em seguida, ela se dirigiu ao expoente histórico do reggae nacional: “Edson, eu peço aqui pra você ser carinhoso com sua esposa, viu, bicho? Porque a gente não aceita nenhuma violência contra nenhuma mulher. Então, eu te amo, mas, quero, quero também pedir que todos os artistas brasileiros se juntem a nós nessa luta contra todo o tipo de violência contra as mulheres. E se as mulheres pretas são as que sofrem mais, que a gente cuide delas, que a gente respeite essas mulheres”. Logo depois, Edson respondeu, indignado: “boa noite a todos, em primeiro lugar só quero saber, perguntar a Daniela, de onde foi que ela tirou e tentou me envergonhar aqui no meio de todo mundo... eu quero que ela prove quem é que eu espanco! Quero que ela prove! Tentar me lacrar, tentar me envergonhar, por que isso? Não tô entendendo, por que isso? E você não tem como provar isso! Você não tem como provar isso!” Daniela pediu desculpas, alegando ser apenas uma preocupação com as mulheres, ao que Edson retrucou, entre risos: “eu também me preocupo com as mulheres. Eu tenho filha mulher, entendeu? Eu me preocupo com as mulheres!” “Então, você é super carinhoso com as pessoas que você ama?”, perguntou Daniela. “Não importa se eu sou super carinhoso ou carinhoso. Eu só quero dizer que você não prova que eu sou agressor! Ser carinhoso ou não ser carinhoso é problema de cada um!” A tensão evoluiu a tal ponto que Carlinhos Brown tentou amenizar, convidando ambos para cantar, ao que Edson retrucou: “mas, ela [Daniela] não pode fazer uma coisa que ela fez aqui. Ela não pode! Sem ter prova cabal, ela não pode fazer isso!” Brown convidou novamente Daniela e Edson para cantarem juntos e a resposta do astro do reggae foi taxativa: “cantar uma zorra! Toma aqui!”, disse, entregando o microfone e deixando o palco.
Um dia após a desavença, Daniela se manifestou através de sua assessoria: “Daniela Mercury lamenta que sua manifestação tenha gerado interpretação diferente da pretendida e pede desculpas a Edson Gomes por qualquer constrangimento causado. Reitera, ainda, o desejo de conversar pessoalmente com o artista em momento oportuno”.
Há pouco mais de dois meses, Laurinha Arantes, ex-vocalista do grupo Pimenta de Cheiro, mais tarde, Cheiro de Amor, comentou em uma publicação da deputada estadual Olívia Santana, sobre a ex-esposa de Edson Gomes: “a ex, que o diga...”. Olívia respondeu: “@laurinha_arantes Conheço de perto. Minha amiga chegava no trabalho machucada. Tivemos que encorajá la a se separar dele. Isso em 1999”. Laurinha ainda respondeu, se referindo ao cantor como “agressor de mulheres”. No post, Olívia qualificou Edson como “reacionário” e “contraditório”, haja vista o cantor compor e cantar letras com protestos históricos contra as injustiças sociais, contudo, dizer que crianças são “caçadas pelos comunistas”. Com efeito, em março desse ano, se apresentando em São José do Itaporã, Muritiba, Gomes chamou de escravos, aqueles que recebem o programa social Bolsa Família: “quem recebe Bolsa-Família é escravo. Agora nas eleições, eles vão chamar vocês pra fazer a revisão, pra você votar neles. Ou vota ou tira o Bolsa-Família. Nós não somos mais escravos, não. Nós não vivemos só de comida”. E acrescentou, com xingamentos: “o que porra é R$ 600?! Vai viver com R$ 600… Vamos trabalhar. Porra de Bolsa Família, para viver como escravos. Eles são opressores. Eles nos oprimem”. No mesmo mês, antes de se apresentar no Lolapalooza, ele chamou sindicalistas de “canalhas”, por usarem sua música em protestos, mas, nunca o convidarem para festas. Também se referiu ao Dia da Consciência Negra como uma ‘distração que não vai levar a nada’.
De fato, março foi um mês peculiar na vida de Edson Gomes. Reservado e com mais de 50 anos de carreira construída à margem de entrevistas e com letras de ácido protesto às estruturas dominantes, o ex-rastafari e agora evangélico trouxe uma versão de si até então desconhecida para uma parcela considerável do público. Ele denunciou o racismo e agora desconsidera o Dia da Consciência Negra. Ele denunciou todas as formas de opressão e agora pode ser laureado com a Comenda Dois de Julho, a partir de uma proposta do bolsonarista deputado Leandro de Jesus (PL). Afinal, o que teria ocorrido com o Bob Marley baiano? E qual a relação disso com as acusações de violação doméstica?
Quem acompanha a carreira de Edson Gomes, sentiu uma mudança no seu estilo em meados dos anos 1990. O cantor foi modificando a proposta da sua música: se antes, ele protestava contra as estruturas de poder, a partir do disco “Resgate Fatal”, lançado em 1995, tais protestos se uniram a uma visão cristã de sociedade. Esse álbum marca a aproximação entre Edson Gomes e as Testemunhas de Jeová. Passando a consumir as revistas e livros desta organização religiosa, sobretudo, a revista Despertai!, conhecida por discutir questões históricas e sociais, o cantor trouxe na música que dá nome ao álbum exatamente uma das bases doutrinárias desta religião: o resgate da humanidade, através de Jesus Cristo. Não sabemos se Edson estudou a Bíblia com as Testemunhas de Jeová, contudo, os temas de suas composições desde 1995 tomaram um caminho mais conectado com as ideias difundidas por essa organização. Mesmo tendo implementado mudanças históricas em sua própria doutrina e apesar de refutar o cristianismo tradicional, as Testemunhas de Jeová pregam a submissão feminina como mandamento divino. Ademais, elas já responderam processos judiciais por acusação de acobertamento de crimes sexuais e violência doméstica, inclusive no mesmo período em que Edson teve contato com essa comunidade religiosa. Teria isso influenciado a visão dele sobre as mulheres?
A partir dos anos 2000, o cantor passou a inserir de maneira sistemática e consistente, mensagens gospel em suas músicas. Vemos isso na canção “Inquilino das Prisões”, no álbum “Acorde, Levante e Lute”, de 2001. As duas décadas seguintes aprofundaram essa relação entre os protestos e a fé em Jesus, até a sua participação com o filho, Isaque Gomes, na música “Um amor pra mudar (Jesus)”, em 2022. Estamos falando de um cantor que se comporta como um profeta do reggae, anunciando o retorno de Cristo e a suposta necessidade da população se libertar da escravidão ao sistema que teria táticas como o sindicalismo, o Bolsa Família e o Dia da Consciência Negra.
Por outro lado, Daniela Mercury traz consigo a força do Axé Music. Iniciada no candomblé, a filha de Oxalá também se identifica com a religião católica. “Oyá por nós”, “Senhora do Terreiro”, “A Rainha do Axé (Rainha Má) / Bat Macumba” e o premiado hit carnavalesco “É Terreiro (Laroyê)” louvam as divindades de matriz africana. Temos, portanto, dois trabalhos artísticos em contraposição: Edson Gomes canta Jesus Cristo como o único caminho possível para a salvação e Daniela Mercury louva o panteão de deuses africanos. Em tempos de fundamentalismo cristão escancarado, sabemos qual o olhar da fé difundida por Edson sobre os seguidores das crenças cantadas por Daniela: Babilônia. Talvez seja nesse ponto que o embate entre os dois tenha início. Carlinhos Brown e outros homens estavam presentes no evento. Por que Daniela teria feito essa abordagem a Edson? Parece haver um choque entre visões diferentes sobre a espiritualidade, no qual fica evidente o
quanto os dois são antípodas.
Uma primeira leitura do discurso de Daniela não demonstra um ataque direto a Edson.Ela pede ao cantor que “[...] seja c arinhoso com sua esposa [...]”. No entanto, logo em seguida, ela completa: “porque a gente não aceita nenhuma violência contra nenhuma mulher”. Aqui, Mercury discursou sem palavras, pelo menos, sem palavras de acusação direta contra Gomes. Mas, parece ter sido aí que ela provocou a indignação dele: “[...] eu quero que ela prove quem é que eu espanco!” Ora, quem acusou ele de fazer isso? A frase pareceu clara: “porque a gente não aceita nenhuma violência contra nenhuma mulher”. O conteúdo oculto, porém, parece ter provocado o inconsciente de Edson Gomes: “porque a gente não aceita nenhuma violência contra nenhuma mulher”. Ela repetiu a palavra nenhuma duas vezes e isso pode ter aberto caminho para o ato falho cometido por Gomes... “nenhuma”, duas vezes, na mesma frase. Indicativo de algo escondido, aquilo que não se deve falar, haja vista não haver “prova cabal”, conforme disse o maior nome do reggae brasileiro.
Sigmund Freud (1856-1939) nos ensinou sobre o ato falho em “A Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto de 1901. Em sua visão, o ato falho é uma manifestação do id, essa dimensão selvagem da nossa psique. Se libertando da repressão, o ato falho traz à tona o que estava escondido. Ele se manifesta no lapso da linguagem, ao se trocar uma palavra por outra, retirando o véu do pensamento escondido. Nesse ínterim, Daniela parece ter falado sem dizer. “Porque a gente não aceita nenhuma violência contra nenhuma mulher [inclusive a sua esposa]”. Um olhar psicanalítico sobre a frase abre espaço para compreender o oculto. Por isso, algumas matérias trouxeram em seus títulos o ato de Daniela como uma ‘insinuação’ contra Edson Gomes: “Daniela Mercury se manifesta após insinuar que cantor bate na esposa”; “Daniela Mercury insinua que Edson Gomes agride mulher e cantor reage”; “Daniela Mercury se pronuncia após insinuar que Edson Gomes agride a esposa”. Pelo visto, o conteúdo não falado por ela ativou o conteúdo reprimido nele. Uma vez ativado o material reprimido, ocorreu a defesa em três frentes: primeiro, exigir provas, depois apontar para a filha como maneira de se defender, e, por último recorrer a um palavrão. A primeira ação foi a mais efetiva: de acordo com o artigo 156 do Código de Processo Penal (CPP) e suas alterações, através da Lei 11.690/2008, quem acusa, tem a responsabilidade de provar. O problema no argumento de Gomes é que, de modo direto, não houve acusação, exceto na compreensão dele. Novamente, o inconsciente parece ter assumido o controle, ao menos por um instante: ele sentiu na inexistência de uma acusação direta, a existência de um ataque a sua conduta. Apelar para a sua “filha mulher”, enfatizando o gênero, de maneira análoga àqueles que frisam ter amigos negros, para se justificar ante uma acusação de racismo, pode ter sido um recurso defensivo para livrá-lo de uma suposta acusação, que não foi feita formalmente. Por último, ouvimos o chiste no palavrão: “cantar uma zorra!” À primeira vista, soou engraçado; na verdade, porém, serviu como mecanismo de defesa para o cantor sair do palco.
O fato repercutiu nas redes. Muitas pessoas defenderam Edson Gomes e Daniela Mercury. Em seu perfil no Instagram, com Inteligência Artificial, Gomes canta uma versão da O fato repercutiu nas redes. Muitas pessoas defenderam Edson Gomes e Daniela Mercury. Em seu perfil no Instagram, com Inteligência Artificial, Gomes canta uma versão da música “Camelô”, usando roupa verde e amarela, para uma plateia com bandeiras brasileiras. Pelo vídeo, está claro o lado dele nas eleições e na própria vida. Enquanto muitos dos seus fãs são beneficiados pelo Bolsa Família, programa reconhecido e premiado, ele preparou o seu próprio sanduíche da realidade: ataca esse mecanismo de distribuição de renda, mas, seguramente, se delicia com o dinheiro daqueles que pagam o ingresso dos seus shows, mesmo sendo beneficiários. O homem com mais de cinco décadas de carreira, se dizendo perseguido pelo sistema, aceitou ser cooptado pelo mesmo sistema e aceita se alimentar dos sandubas da realidade moldada pelo próprio ordenamento alvo das suas letras progressistas. Apenas as letras!
Longe de pensar Daniela Mercury como parâmetro de boas maneiras, mas, para quem, em 1988, fez clipe nas palafitas dos Alagados, certamente é delicioso ganhar dinheiro sem viver a essência da própria obra. O recheio hipocrisia do sanduíche deve ser inigualável!
______________________________________________________________
Link da Imagem:

Comentários