A GUERRA NO ORIENTE MÉDIO E A PAX ROMANA DE TRUMP
- Armando Januário

- há 2 dias
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Quando Sigmund Freud (1856-1939) e Albert Einstein (1879-1955) se encontraram em uma noite na Berlim de 1927, talvez eles não tivessem ideia das consequências daquele momento. Foi um instante amistoso, no qual o fundador da psicanálise brincou com Einsten, afirmando que o físico entendia tanto de psicologia quanto ele de física. Cinco anos mais tarde, a Liga das Nações, através do Instituto Internacional de Cooperação Intelectual, designou Einsten, que havia sido laureado com o Nobel de Física em 1921, para escolher alguém capaz de refletir sobre por que o ser humano recorre ao belicismo e se seria possível evitar as guerras. Freud foi a opção do físico e por meses eles trocaram cartas, posteriormente, reunidas em um texto denominado “Por que a guerra?” (Warum Krieg, em alemão).
À época, com 76 anos, Freud já havia desenvolvido a teoria psicanalítica e sua perspectiva sobre as pulsões em Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade (1905), As Pulsões e Seus Destinos (1915) e Além do Princípio do Prazer (1920). Nos Três Ensaios..., Freud definiu a pulsão (Trieb) como uma noção que demanda trabalho psíquico para satisfazer o corpo; constante, Trieb é uma força que se afasta do puro instinto biológico. Em As Pulsões..., Freud detalhou os componentes da pulsão: fonte (Quelle), pressão (Drang), alvo (Ziel) e objeto (Objekt). Quelle ocorre em qualquer parte do corpo, esse, todo erógeno. Drang é o motor da pulsão, a porção de força para atingir Ziel, a satisfação. Nesses termos, objekt, o meio utilizado pela pulsão para alcançar Ziel, varia, e a própria pulsão também pode variar o seu comportamento. Ela pode realizar: (1) reversão em seu contrário (Wendung gegen das Gegenteil), mudando da atividade para passividade; (2) retorno ao eu (Kehrwendung gegen das eigene Ich), abandonando um objekt externo e voltando-se para o sujeito; (3) recalque (Verdrängung), tentando levar suas representações para o inconsciente, e (4) sublimação (Sublimierung): desviando-se para um alvo diferente, não sexual e culturalmente apreciado.
Em Além do Princípio..., Freud trouxe o conceito de pulsão de morte (Todestrieb) para a psicanálise. Longe de ter como meta apenas a satisfação, a pulsão também busca a extinção de Drang. Todestrieb, por conseguinte, visa distensionar Drang, ainda que seja necessário recorrer a compulsão, repetindo traumas. Quando vemos uma pessoa repetindo experiências dolorosas, estamos, na verdade, testemunhando a pulsão de morte operando para extinguir o trauma. Nessa perspectiva, diferente da pulsão de vida (Eros), que conecta e preserva, Todestrieb desune e destrói. Como resultado, os humanos, inicialmente, buscam satisfação pulsional, para, em seguida, através de comportamentos hostis, destruir a si mesmos.
As guerras são a inevitável manifestação da pulsão de morte e da hostilidade intrínseca a espécie humana. O próprio senso de cultura exige conter a pulsão, contudo, uma vez reprimida, o conteúdo pulsional ressurge com violência e poder. Interessante que Einstein, ao escrever para Freud, utilizou a palavra alemã gewalt, que significa tanto poder, quanto violência. Tomando isso como premissa, Freud aponta para a pulsão de morte exercida através da violência para resolver conflitos desde as primitivas hordas humanas; pancadaria e derramamento de sangue são utilizados para ascensão e continuidade do Homo Sapiens Sapiens no planeta, em confrontos frequentes. Aqueles que dispõem de mais recursos, consideram-se mais fortes e sangram quem eles consideram fracos, desde medidas sutis, como taxas comerciais, até a violência escancarada.
Esse novo episódio de conflitos no Oriente Médio, patrocinados pelos Estados Unidos da América (EUA), sob o governo Trump, em parceria com Israel, é mais uma representação histórica do quanto os detentores de armas avançadas pretendem seguir dominando o mundo. Sob o manto de levar paz, segurança e liberdade ao Oriente Médio, os EUA tem por objetivo real aumentar sua influência na região, rica em petróleo, e, ao mesmo tempo, minar a expansão da China. Nesse ínterim, ainda pretendem desequilibrar a Europa, eventualmente instável ante a chegada de refugiados do Irã. Para Trump, destruir o programa nuclear iraniano e sua capacidade de mísseis balísticos contribui para assegurar a hegemonia estadunidense, além de servir como plataforma da sua gestão ultranacionalista. Vemos aqui o mais forte – ou pelo menos aquele que se julga como tal – utilizar da força para espezinhar quem considera fraco. Basta chamá-lo de antidemocrático, dizendo ser necessário retirá-lo do caminho, para implantar um regime pacífico para todos e qualquer ação violenta torna-se justificável.
A pulsão de morte é um recurso histórico, utilizado pelos povos dominantes para descartar quem sequer é considerado vida. Se por um lado, Freud destacou essa força representada pelo mítico deus grego Thanatos como um agente provocador do mal-estar na cultura, por outro, Achille Mbembe (1957-) encontrou as raízes desse mal-estar nas práticas colonialistas de escravidão e racismo. Com efeito, as tecnologias escravagistas e supremacistas, guiadas pela bandeira do patriarcado, legitimam o terror contra os povos do Oriente. Há, inclusive, o uso da palavra terror para utilizar contra o outro, esse que deve ser sempre considerado inferior e inimigo a ser aniquilado. Essa tática é amplamente utilizada para criar um contínuo – e histérico – estado de alerta; as tecnologias digitais oferecem suporte adequado para a execução desse plano de vigiar eternamente aquele que precisa ser exterminado.
A única paz almejada por Donald Trump é aquela na qual os EUA sigam ditando os rumos da humanidade, com a Europa fragilizada, enquanto seu governo rouba descaradamente os recursos naturais e humanos da América Latina e do Oriente Médio, em claros ataques a soberania dos países de ambas as regiões. Se o Irã é alvo da sanha estadunidense, o Brasil, em 2019, sob o presidente Jair Bolsonaro, abriu mão do Programa Espacial Brasileiro, devido ao Acordo de Salvaguardas Tecnológicas, permitindo que os EUA ocupem essa importante posição militar. Parece um absurdo sem precedentes, no entanto, a Antiguidade testemunhou uma conjuntura política similar: entre 27 a.C. e 180 d.C., Roma difundiu uma peculiar ideologia de paz, apenas para justificar a brutalidade da qual lançava mão para assegurar soberania e afastar o temor do Império Parta (247 a.C. – 224 d.C.). Nesse período, o argumento da Pax Romana foi utilizado largamente para denominar inimigo quem não fosse submisso e causar intenso sofrimento a quem se recusasse a viver sob a “Gloriosa Mãe Roma”. No entanto, essa perseguição se estendia mesmo àqueles vivendo sob o domínio romano: pessoas escravizadas, mulheres e estrangeiros eram o chão pisado e açoitado pelos romanos para expandir a economia, a cultura e as guerras. Ora, se o governo Trump imprime uma política externa beligerante, no âmbito nacional, o estado de coisas se caracteriza pela perseguição contínua aos imigrantes – tratados de forma análoga a escravizados pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) –, pelo veto aos direitos das mulheres trans de participar em esportes femininos e pelas frequentes ofensas contra as mulheres cis, algo costumeiro desde antes das eleições de 2017, haja vista nos anos 1980 ele ter praticado agressão sexual contra uma mulher, quando ela ainda era menor de idade, com participação direta de Jeffrey Epstein. Curiosamente, os registros da denúncia contra Trump não constam nos arquivos do caso Epstein.
Vivemos uma época distópica. Desumanização e extremismo, autoritarismo e tecnologias normalizadoras da opressão são ferramentas utilizadas em escala exponencial. A síncope ambiental ameaça a humanidade com superpandemias e a naturalização da perda de liberdades individuais leva alguns entre os próprios humilhados clamarem por ainda mais humilhações. Nesse cenário, longe de fazer da Terra um paraíso utópico, é preciso deslocar a agressividade humana para finalidades opostas a guerra. Em paralelo, verifica-se a necessidade de fomentar os laços socioculturais. Ademais, é necessário formar novas lideranças mundiais e reformular o papel da Organização das Nações Unidas (ONU), com poderes efetivos para manter a paz mundial. Como Freud propôs a Einstein, devemos criar o “governo da inteligência”, enquanto caminho para submeter o id ao eu e supereu. A formação desses mecanismos exige esforços intensos, todavia, abre espaço para o controle da razão sobre nossos impulsos primitivos. Sobretudo, enfatizamos a inexistência de outro caminho. Esse é o único caminho para evitar nossa autodestruição.
IMAGEM: Carta Capital

Gratidão, Soteroprosa!