A MULHER DO PADRE

*Juliana Maras
O meu apartamento fica de frente para o playground de um prédio vizinho, e nesse sábado, o barulho começou cedo: havia um aniversário para acontecer. Meu primeiro pensamento foi, provavelmente, o mesmo que o seu: que droga, tomara que não façam tanto barulho. Para a minha sorte o aniversário era de uma criança e a concentração de ruídos aconteceu na quadra de futebol e não na área externa (mais próxima de mim). De qualquer forma, sempre há aquelas pessoas que não gostam tanto assim do futebol e que resolvem brincar de outra coisa. Durante o dia, numa das minhas idas à varanda, escuto: “quem chegar por último é a mulher do padre.” Eu brincava tanto disso quando era criança que de alguma forma essa frase me capturou, havia significado para mim e eu não conseguia mais tirá-la da cabeça. Uma frase que, na minha infância, me foi algo tão natural de dizer e replicar, hoje, me causava estranheza: afinal, quem é essa mulher do padre?
Assim como as crianças brincavam, resolvi entrar numa brincadeira só minha e investigar de onde vinha essa frase e como ela caiu na boca do povo. Spoiler: não consegui chegar à uma conclusão. Comecei lendo um relato muito interessante e técnico sobre como as mulheres dos padres eram barregãs, concubinas e outros muitos nomes pejorativos, e por isso virou um ditado popular porque ninguém gostaria de ocupar essa posição. Sigo lendo e vejo um outro conteúdo respondendo à esse primeiro, falando algo mais ou menos assim: “meu caro, você está analisando demais essa frase, no fim, é só uma brincadeira de criança mesmo, não tente ler nada mais do que isso”. E realmente, às vezes um charuto é apenas um charuto. Porém, resolvi ampliar a minha pesquisa e sair um pouco das informações concretas e me pautar em algo mais abstrato, tentar enxergar essa “mulher do padre” como um símbolo e então, dessa forma, explorar o que as pessoas estavam projetando sobre si ao atrelar significados sobre ele (o símbolo), não precisando haver uma resposta certa, mas sim um maior entendimento social sobre esse fenômeno.
Aí sim a busca ficou mais interessante, vi outros comentários dizendo que o padre é o último a chegar e a sair da missa, portanto, a sua mulher, “logicamente” só chegaria depois dele, sendo a última a entrar na igreja. Me pergunto: o que será que essa mulher estaria fazendo, que só conseguiria chegar depois dele? Provavelmente os trabalhos domésticos: limpar, arrumar, organizar a casa. Não duvido nem um pouco, infelizmente, que essa frase tenha surgido de uma raíz machista e homofóbica, passada de geração em geração dos cuidadores para seus filhos(as). Eventualmente (e provavelmente), sem saber da sua raíz. Um outro comentário dizia que padre não tem mulher, então, esse lugar é inexistente, quem é que quer estar nele?
Enfim, só sei que praticamente em todos os conteúdos que me deparei sobre “a mulher do padre”, ninguém quer estar nesse lugar porque aparentemente, no imaginário social, é um lugar de cunho degradante, solitário e à margem. Felizmente, essa posição social da mulher já mudou muito e, hoje em dia, aparentemente, seguimos usando esse ditado popular, porém, ser mulher é algo muito mais potente e digno de ser, apesar de ainda vivermos em uma sociedade estruturalmente machista. Sobre ser mulher do padre, essa eu vou ficar devendo, não sou religiosa e não tenho interesse em seguir pesquisando sobre isso. Quem souber, me conte! E por fim, qual o problema de chegar em último lugar? Temos que seguir desconstruindo essas métricas sem sentido de que o único vencedor é aquele que chega em primeiro. Há muito valor em ocupar esse último lugar.
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*Juliana é administradora que vem se tornando psicóloga. Utiliza o esporte como guia para os enfrentamentos da vida e tenta se conscientizar dos processos que são seus para não transbordar nos outros. Acredita que o inconsciente comanda o mundo.

Crédito da imagem: Foto de Library of Congress na Unsplash


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