A MÃE NÃO QUER BRINCAR (EIS AQUI O MOTIVO)
- Karla Fontoura

- 25 de jun.
- 5 min de leitura

Eu queria conseguir brincar com meu filho. Estou com ele todos os dias, mas o que menos faço é brincar com ele. Falo isso mesmo sendo uma pessoa que ama brincar, sempre soube lidar com crianças e é extremamente criativa em atividades lúdicas. Mas aí chegou a minha criança e tudo mudou. Eu não conseguia brincar com ele. Na verdade, eu nem queria me envolver em qualquer brincadeira. Com ele bebê, era fácil me esquivar dessa possibilidade, porém, na medida em que ele cresce e ficamos sozinhos (após a separação minha, do marido, e dele, do pai), o pequeno pedia muitas vezes para brincarmos. E a vontade nunca estava ali. Ele podia pedir qualquer coisa para mim. Um lanche diferente, um passeio novo, um tempo vendo desenho - mas brincar, não. Era impossível eu querer brincar com meu filho.
O motivo para tal está aqui dentro da minha cabeça. Não há espaço para brincadeiras na mente de uma mãe que passa o dia todo se dividindo entre trabalho, tarefas domésticas, rotina do filho e os pequenos e grandes planejamentos da vida - desde a conta de luz, a viagem de final de ano. No acúmulo mental absurdo, entram também as funções. Ora eu sou a coordenadora da rotina, ora a psicóloga, quando a frustração toma conta, ora a enfermeira, quando se espatifa no chão. Diga-me: quando e como eu posso achar tempo para uma atividade livre, leve e criativa como o brincar? Onde estaria a disposição física e mental para criar um novo universo, traçar diálogos entre personagens ou dar boas risadas dos conflitos desastrosos entre os brinquedos do bem e do mal?
Quando as pessoas falam sobre brincar com uma criança, isso soa como algo fácil e simples, especialmente se você for o cuidador principal dela. Mas a verdade é que brincar é um exercício muito grande de imaginação e liberdade, que demanda bastante tempo e energia para acontecer. Uma mente carregada jamais dará conta do desenrolar lúdico e despretensioso do brincar. Quando estudei pedagogia, emergi bastante nessa temática que possui linhas de estudo complexas e profundas, com muitos especialistas apontando a importância da prática na infância e a participação adulta como primordial para a condução e participação ativa de um brincar livre. Só que, qual adulto é esse? O que ele faz ao longo do dia para conseguir ter toda a disposição para brincar quando a criança chama? Até onde esse adulto tem sustentado vários alicerces da vida infantil com tamanha destreza que mal tem espaço para ser criativo e mentalmente livre para a arte de brincar?
Isso pode ser comprovado quando vemos pesquisas como a do Ohio State University Wexner Medical Center, nos Estados Unidos, que entrevistou mais de mil pais em abril de 2024 e identificou que 66% dizem se sentir isolados ou solitários às vezes ou com frequência durante as demandas com os filhos, aproximadamente 62% declararam esgotamento por causa das responsabilidades com os filhos, 38% relataram não ter ninguém para dar suporte no seu papel de pai/mãe e quase 79% gostariam de ter uma forma de se conectar com outros pais fora do trabalho e de casa. Esse cansaço resulta em crianças com pais pouco participativos, como indica a pesquisa internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que aponta como 53% das famílias brasileiras nunca ou raramente leem livros para suas crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola dos estados de Ceará, Pará e São Paulo. Apenas 14% dos responsáveis fazem a leitura compartilhada entre três e sete vezes por semana, dado que a média internacional para essa atividade é de 54%.
O desafio fica ainda maior quando estamos diante de uma geração que nasce rodeada de telas e vêm mais ao mundo através delas do que na vida real. A digitalização chegou em grande massa no campo da brincadeira e do entretenimento. São milhares de jogos, aplicativos, vídeos e outros conteúdos digitais que, ao longo prazo, podem limitar a imaginação e a capacidade de brincar. No estudo feito pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi avaliado que 72% das crianças da pesquisa tiveram o aumento da depressão associado ao uso de telas, além da diminuição do quociente de inteligência (QI). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é recomendado que crianças até 2 anos de idade não tenham nenhuma exposição a telas, as de 2 a 5 anos, usem telas no máximo 1h por dia, as de 6 a 10 anos, de 1h a 2h por dia e de 11 a 18 anos, 3h por dia.
Mas nem tudo está perdido. Tenho buscado alternativas para participar do brincar sem que isso drene minha energia que está sendo amplamente ocupada em outras áreas importantes como trabalho, limpeza, saúde, educação, e muito mais. O caminho que descobri foi de criar o ambiente para o meu pequeno brincar - especialmente sendo filho único e reclamando que gostaria de ter um irmão ou irmã para compartilhar a brincadeira… Faço inúmeros investimentos em livros de histórias ou de atividades, brinquedos manuais, e jogos diversos para brincar comigo ou com a família. Sendo ele de uma geração onde a brincadeira está toda limitada às telas, como comentei antes, tudo é mais desafiador. Diversas vezes ele fala para mim que não tem a menor ideia do que brincar simplesmente porque passou boa parte do dia olhando para uma tela com muitos estímulos e pouco espaço saudável para imaginação e criatividade.
Além de estimular meu filho em casa, preciso fazer todo um trabalho mental e organizacional para ele brincar também fora de casa. Os espaços públicos estão sujos e abandonados, ou tomados pela criminalidade. Em Salvador, só existe uma praça no meu entorno que posso levar meu filho com tranquilidade. Isso porque ela é próxima as áreas turísticas e por isso é bastante segura e sempre limpa. Eu que nunca fui fã de shopping e sempre protestei sobre esse tipo de consumismo, hoje considero como um dos lugares perfeitos para o meu filho brincar. Seja pelos grandes brinquedos que oferecem - e eu preciso desembolsar muito dinheiro pra isso, seja por certos espaços de brincadeira livre onde muitas crianças interagem. Além disso, no shopping, eu encontro segurança, alimento fácil, banheiro disponível e climatização adequada, o que faz toda a diferença para que a brincadeira flua da melhor maneira possível. É desse lugar que vem o desafio de tomarmos questões do privado em um compromisso comunitário e público. O brincar deveria ser prioridade na nossa sociedade. Não apenas por conta das crianças, como também para tirar esse fardo que as mães carregam.
Com esse conteúdo, quero deixar registrada a minha tristeza e dor por saber que muitas mães gostariam de brincar com seus filhos, mas não existe tempo, energia ou criatividade para quem vive o dia inteiro preocupada com tantas demandas do seu filho, especialmente se faz isso sozinha (seja com o pai por perto ou sem o pai…). Se o brincar fosse uma atividade dividida e comunitária, relevante para uma sociedade voltada em amparar as famílias com espaços, recursos e suporte, absolutamente haveria tempo para ela se sentir parte da brincadeira. Mãe não brinca com seu filho, mas adoraria brincar!
Fonte:

Infelizmente, é uma coisa muito diferente do que eu pensava , falo isso pq sou mãe , é muito cansativo muito diferente do que eu pensava , eu até brinco com minha filha , só que não como eu gostaria q fosse por causa da rotina !
Excelente texto, Karla Fontoura! Pelo que compreendi da leitura, o pai da criança age exatamente como a maioria dos homens: não participa da educação do próprio filho. Neste cenário, você está fazendo o melhor do melhor, tanto pelo seu filho quanto por você mesma. Por uma sociedade justa e igualitária, na qual homens sejam cobrados em educar os filhos, e, se necessário, punidos na forma da lei, quando se ausentam de todos os seus compromissos com uma criança da qual eles são também responsáveis pela existência. Educar, amar e respeitar não são favores, são ações básicas para formar o caráter de uma criança.