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A POLÍTICA COMO MENTALIDADE EXIBICIONISTA E DEGRADANTE


Cenas patéticas e vexaminosas nas pré-campanhas às eleições brasileiras de 2026 aumentam o sentimento de que a democracia liberal é um picadeiro sem fim - com todo respeito a profissão dos artistas circenses. Tenho a impressão de que esse sentimento melancólico não é apenas meu, mas também de muitos críticos.


Musiquinhas de candidatos, da direita à esquerda, dancinhas, letras pueris e tolas, performances estúpidas imitando armas, com motosserras e objetos afins, além de promessas superficiais, bizarras e surreais retratam a decadência moral e intelectual da política republicana - antessala de tiranias pós democráticas. A obsessão por aparecer e o espetáculo do exibicionismo barato maculam algo de profundamente valioso na política.


Um segundo problema é que, cada vez mais, a disputa política é apresentada como uma suposta luta do bem contra o mal, de aliados versus inimigos do povo, com apelos cada vez mais apocalípticos. Geralmente, esse mecanismo dualista atua nas dimensões infrarracionais, apelando às emoções e crenças das pessoas,  fortalecendo os vieses, independentemente das classes sociais e do nível educacional. Ou seja, até os mais letrados são envolvidos pela enxurrada de apelos inconscientes e instintivos.


É sabido que quem bate o martelo para confirmar o vencedor desse circo republicano e liberal é a mentalidade medíocre, ou seja, a maioria. O quantitativo, portanto, estabelece quem merece ser eleito. Isso remete à forte reflexão de Jorge Luis Borges: "A democracia é um erro estatístico, porque, na democracia, decide a maioria, e a maioria é formada de imbecis."


Um terceiro ponto, uma situação realmente degradante — e me perdoem se pareço um moralista conservador — é que partidos e candidatos, mesmo bem-intencionados, acabam sendo obrigados a brincar com esse jogo inócuo e indecente do que chamam, por aí, de política democrática. Mesmo no ambiente acadêmico, o que vemos, muitas vezes, é uma enorme falta de interesse pelos conceitos políticos e pelas diversas teorias que podem nos ajudar a pensar o papel da política. Agir sem pensar, sem refletir sobre o significado da práxis, é como entrar em um labirinto sem saber por onde ir.


Eu e você, caro leitor(a), ainda vivemos na ilusão de um mundo democrático, liberal e republicano, no qual os indivíduos são altamente racionais, capazes de eleger candidatos com critérios baseados na eficiência e no respeito às regras do jogo.


Minha reflexão final é de que somente uma nova mentalidade, um novo modo de viver pode alterar, na raiz, a forma de experienciar a democracia, o que exige também, e aqui é um ponto fundamental, o fim da desigualdade social e econômica. Se a política continuar a ser colonizada por fatores que comprometem a seriedade de sua autonomia, continuaremos afundando em pautas superficiais, chovendo sempre no molhado


Se considerarmos a política democrática como o reino da liberdade de pensar e agir em comum, em um espaço público descontaminado, ela não pode existir sem igualdade. E onde não há igualdade reina a luta pela sobrevivência dos mais fortes e hábeis a qualquer custo - algo que precede a própria política.


Fonte: Pixabay

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