top of page

A PRIMEIRA: GISÈLE, EU E MUITAS OUTRAS QUANDO DENUNCIAMOS O ABUSADOR

O livro de um dos maiores casos de abuso do mundo acabou de ser lançado em português.
O livro de um dos maiores casos de abuso do mundo acabou de ser lançado em português.

Dentro da conjuntura social machista e patriarcal que vivemos, não há como negar o quão difícil é para uma mulher reconhecer as violências que sofre e a importância de sair desse lugar, denunciando o comportamento danoso do homem. Uma breve conversa com mulheres mais velhas da nossa família ou do nosso entorno e logo percebemos quantas violências elas sofreram e, apesar de tão dolorosas, foram pouco levadas a sério ao ponto de as fazerem reagirem, assumindo a denúncia como um processo fidedigno para proteger a si e a outras mulheres. 


No entanto, nos últimos anos, a população feminina está mais informada, observando fenômenos semelhantes e percebendo que muitas violências que sofrem são coletivas. Além disso, por pressão popular e cultural, governos de todo mundo têm criado políticas de proteção às mulheres, como canais de denúncia, organização de apoio a casos de violência doméstica e medidas protetivas mais rápidas e práticas. Com isso, as denúncias foram ampliadas e mais mulheres têm se movimentado para sair das situações de opressão física, mental, psicológica, financeira e jurídica. Diante disso, precisamos lembrar que toda denúncia terá sempre a sua primeira. A primeira mulher que denuncia o homem abusador/agressor. 


Uma delas que chamou a atenção do mundo em 2025 foi Gisèle Pelicot ao denunciar o marido depois que descobriu que, por mais de 10 anos, ela foi dopada pelo próprio, que convidava estranhos para estuprá-la. Gisèle renunciou ao anonimato e exigiu tornar o processo público, destacando que

“a vergonha precisa mudar de lugar".

Segundo as investigações, Gisèle foi violentada por mais de 70 homens sendo que 50 deles se tornaram réus junto de Dominique e também foram condenados. Outros ainda não foram identificados ou localizados pelas autoridades. Gisèle fez questão de falar como muitos deles eram pessoas de sua convivência, como o padeiro que ele visitava todas as manhãs, um homem casado e com filhos. 


Recentemente Gisèle lançou o livro "Um Hino à Vida" que já vendeu mais de 60 mil exemplares na França em apenas uma semana. Ela colocou seu rosto e seu depoimento para o mundo ver, enfrentando comentários maldosos e dúvidas sobre sua índole. Mas, antes dela, houve a primeira. A primeira mulher que denunciou o marido de Gisèle Pelicot. De fato, os vídeos dos estupros dela só foram descobertos por conta de uma investigação de importunação sexual de uma mulher contra Dominique. Ele filmava por baixo da sua saia, quando foi descoberto e denunciado. Quando a polícia foi investigar o caso, ao acessar o celular e computador dele, encontraram os milhares de vídeos dos estupros da esposa desacordada. Depois de reunirem e analisarem bem o material, as autoridades entraram em contato com Gisèle para mostrar o que descobriram. Isso desencadeou as denúncias dela e o processo que fez seu marido e mais de 50 homens serem presos. 


Fico pensando nessa primeira mulher que denunciou o Dominique e que não apareceu, até o momento, para falar como foi a situação que viveu ao ser importunada por ele, mesmo estando em uma via pública e com pessoas no seu entorno. Queria saber se foi rápido e fácilr até uma autoridade policial e dizer o que havia acontecido, ou se precisou do incentivo das amigas para chegar nessa decisão. Queria saber se as pessoas em sua volta acharam exagero essa atitude; pensaram que ela iria se expor desnecessariamente; que homem faz isso mesmo e que pelo menos ele não a tocou. Houve um lapso de medo e insegurança nela na hora que completou seu boletim de ocorrência? Depois do ocorrido, ela seguiu com medo de que situações semelhantes se repetissem? Ela foi a primeira vítima a denunciar para um criminoso que não cometia o primeiro crime. Quantas mulheres ele importunou até que a primeira chegasse? Quantas desistiram até que a primeira falasse?


Outra “primeira” que recebeu mais atenção da mídia do que a do caso Gisèle Pelicot foi a cantora e modelo Cassie (Casandra Ventura), ex-namorada de P. Diddy (Sean Combs) que iniciou uma onda pública de denúncias, em novembro de 2023. Cassie entrou com um processo alegando anos de agressão física, abuso psicológico e tráfico sexual, detalhando um ciclo de violência de 10 anos com o rapper. Embora o processo tenha terminado com um acordo civil, ele abriu caminho para que mais de 100 pessoas acusassem o produtor musical de crimes semelhantes. Mais ainda, meses após o processo, o registro de um vídeo da câmera de um hotel, de 2016, mostrou Diddy agredindo Cassie no corredor do lugar, confirmando parte de suas alegações.


Eu acompanhei o desenrolar do julgamento do Diddy e a Cassie foi a figura mais marcante desse processo. Prestes a dar a luz ao terceiro filho, ela dedicou horas de sua vida para responder as perguntas da promotoria, relembrando em vívidos detalhes as cenas de dor e tortura que viveu - e na presença do próprio abusador que a encarava sem qualquer escrúpulo. Pior ainda, precisou ouvir a defesa alegar que ela demorou muito para denunciar o Diddy e por isso sua motivação para o processo criminal era apenas ganhar dinheiro. Que ela sempre o amou, mesmo com as brigas e, quem sabe, estava fazendo aquilo com segundas intenções. Cassie foi mais uma primeira que chorou, sofreu e se sacrificou para que o mundo descobrisse as atrocidades que Sean Combs causou em tantas vítimas. 


Com isso, quero comentar que todo desenrolar de tramas opressoras que envolvem a vida das mulheres pode ter seu primeiro nó desatado com a presença delas: as primeiras. Eu já estive nesse lugar. Fui a primeira a denunciar porque fui a primeira namorada do abusador. Vivi a violência física e psicológica nas mãos de um homem comum e tranquilo que todos admiravam. Não bastou coragem. Foram precisos 3 anos de terapia, muito tempo de reflexão, análise e conversas profundas com boas amigas para chegar nessa decisão. Mais ainda, foi necessário descobrir que a mulher seguinte a mim estava sofrendo a mesma situação. Ela continuou com ele, mas eu não desisti de denunciá-lo e isso me custou muitas noites difíceis de lágrimas no travesseiro. 


Outras mais podem estar aí pelo mundo cogitando ser a primeira a denunciar, a se colocar diante do trauma sofrido e responder a ele para além da vergonha e do medo que se instalam cada vez que o pensamento atravessa a situação de violência. Cabe a nós ouvir a primeira com toda a atenção e cuidado. Sendo a que toma à frente de um rastro de dor que alguém imputou e continuou fazendo, às vezes, por anos, se torna uma pessoa muito difícil de ser acreditada. Se o abusador for um homem influente, que nunca foi pego ou conseguiu abafar todas as evidências da sua violência, tudo é muito pior. É preciso uma atitude de compaixão e acolhimento ao ouvir a primeira. Você estaria disposto a fazer isso? 



Fonte:






Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page