A REALIDADE DAS MULHERES NÃO É SUFICIENTE PARA CHAMAR A ATENÇÃO DA SOCIEDADE
- Autor(a) Convidado

- há 3 dias
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*Cristine Oliveira
Precisamos nos perguntar como brasileiros: até quando continuaremos a normalizar a mortandade escandalosa de mulheres no Brasil? Até quando normalizaremos que meninas sejam estupradas cotidianamente? A barbárie contra meninas e mulheres não dá folga no Brasil e tocamos a vida sem nos apercebermos o quão grave e insuportável tem se tornado o cotidiano de nossas conterrâneas, que passarão o resto de suas trajetórias pessoais tentando recuperar-se do pior momento que passaram quando vitimadas pela violência gritante perpetrada por pais, irmãos, tios, avôs, primos, vizinhos, padrastos, padres e pastores, professores, patrões, etc. Isso sem esquecer as que tiveram suas existências ceifadas e perderam o direito de serem mães, filhas, amigas, tias, primas, colegas. Isso é insustentável e inaceitável e tem se tornado um enorme retrocesso civilizatório que tem ido de encontro aos valores mais dignos dos direitos humanos, uma escandalosa e virulenta espécie de campanha contra a integridade e inviolabilidade das mulheres.
Estamos escutando o desespero de meninas e mulheres? A coletividade ainda não está indignada o suficiente para fazer surgir uma campanha nacional intensa, extensa e efetiva que vise dar uma maior proteção à integridade física e psicológica às mulheres e meninas. Há manifestações de indignação, há postagens críticas nas redes sociais, há discussões em veículos de comunicação. No entanto, são ações pontuais, efêmeras, não significativas o suficiente para impactar a sociedade com o choque necessário de realidade para repercutir nacionalmente com a necessidade que o tema exige. Em época de algoritmos e
extrema direita altamente influenciadora, gera-se muito mais impacto em apagamento de reputações, e revisionismo histórico e distribuição de fake news.

O governo atualizou em 2024 a penalidade àqueles que cometem crimes contra mulheres, o Ministério das Mulheres tem programas ativos e agenda de campanhas nacionais de apoio e prestação de serviços quanto à proteção de mulheres. Ainda assim, tais medidas e protocolos não tomaram a dimensão ideal que esse assunto exige. Podemos, infelizmente, atentar para o fato de que, nas famílias, instituições educacionais e clericais, mercado de trabalho, indústria do entretenimento, universo tecnológico, a vida em grupo em geral ainda não se debruçou com a precaução adequada à urgência exigida para as mulheres e meninas do país. O número de feminicídios e estupros não reduziram, na verdade ou se mantêm ou aumentaram e não vemos a perplexidade devida ao escândalo criminal e extrema violência vigentes.
A própria denominação feminicídio - termo usado para identificar crimes violentos graves praticados contra mulheres por motivo de gênero - surgiu há apenas dez anos (2015) após dezenas de anos de casos ininterruptos de homicídios brutais; dentre os mais recentes e de grande repercussão, estão o caso de Ãngela Diniz, Aída Curi, a menina Araceli, Leila Cravo, Eliane de Gramont, Daniela Perez, Elisa Samudio, Maria do Carmo Alves, Beatriz Helena de Oliveira Rodrigues, Maria da Penha (quem deu nome à lei anti-feminicídio), Sandra Gomide, as vítimas do “médium” João de Deus, as vítimas do médico Roger Abdelmassih, Eloá Cristina, são dos mais repercutidos. Tragicamente, houve centenas de outros casos, menos famosos, provavelmente já esquecidos pelos cidadãos, mas igualmente brutais, como o de Andréa Helena Gomes de Mendes (1999), Luciana Conceição Rosário (2000), Lúcia Cristina Gomes Teixeira (2001), Alessandra Luísa de Carvalho Marques (2002), Jorgelina Chagas de Barros (2003), Patrícia Cordeiro de Macedo (2004), Cristina Ribeiro (2006), Maria Isabel da Conceição (2009), casos do “maníaco do parque”, caso de Leando Lehart, etc, em meio a dezenas de outros igualmente esquecidos e invisibilizados que inundaram as páginas de jornais impressos e televisivos perpassando décadas e décadas, tendo escandalizado momentaneamente a população.
Tal qual o machismo estrutural, fruto e parceiro do patriarcado, a desumanização das mulheres, sua invisibilização como cidadã, com direito a ter direitos igualitários, mas inserida num contexto de salários mais baixos, regras de convivência diferentes, sobrecarga de trabalho ( fora e dentro de casa), ausência de aparelhos emancipatórios ( creches, escolas de tempo integral, lavanderias públicas, etc), trabalho do cuidado não remunerado,
dentre outros fatos e fatores que desfavorecem enormemente as mulheres no âmbito social. Enquanto cultuarmos o mito da superioridade masculina e seu “poder” (abjeto, desproporcional e perigoso) permanecer introjetado no meio social com naturalidade, favorecendo injustamente o universo masculinista, que diuturnamente violenta os corpos das meninas e mulheres ( e suas mentes, direitos, finanças, patrimônio, futuros), não teremos verdadeiramente a vigência de uma coletividade democrática.
O Brasil registra números exorbitantes e alarmantes de feminicídios e estupros. Maridos, pais, amantes, ex-maridos, namorados, tios, irmãos, avôs, primos, vizinhos, colegas de trabalho, violentam, matam, abusam, maltratam meninas e mulheres com requintes de crueldade em cada canto do país. O patriarcado e machismo estrutural, o sexismo, a misoginia, seguem ativos no meio social, naturalizados em variados segmentos de nossa coletividade - familiar, escolar, no labor, no lazer, no ambiente virtual, e são pouco enfrentados, pouco ou mal discutidos, pouco visibilizados, o que promove a a busca individual e não coletiva para a resolução dos problemas envolvidos. Há promoção de “soluções” individuais infrutíferas, como o aprendizado de auto-defesa (lutas marciais), o que desvia o foco da urgência de problematização intensa da questão e busca de condições coletivas mais propícias para estas pessoas. Devemos cobrar uma busca incessante de mais conhecimento sobre os dados e danos sistêmicos e estruturais que essa chaga traz ao conjunto social, para que providenciemos, comunitariamente, respostas adequadas à dramaticidade que o quadro geral demanda.

Como agir e reagir frente ao desafio constante de lidar com homens que agridem e chegam a matar suas companheiras, namoradas, noivas, esposas, ex-esposas, amigas, mães, irmãs, etc? Porque (e até quando) aceitamos o avanço dos casos de feminicídios brasileiros? Recentemente, alguns casos novamente chocaram a todos e mostraram o pior do país em relação ao tratamento dado a estas pessoas. Em Minas Gerais, em São Paulo, Santa Catarina, no Rio de Janeiro, só para citar poucos (porque houve muitos mais). Uma mulher de 41 anos, foi jogada num penhasco pelo marido, ficou 24 horas à espera de socorro, e escapou por não ter morrido. O caso Mariana Ferrer, no qual, durante a audiência virtual os próprios juízes submeteram a vítima à humilhação vexatória. Outra mulher, jovem de 21 anos, foi arremessada (por um tipo de esporte radical) de uma velha ponte desativada, por três homens sem as cordas absolutamente indispensáveis para proteger sua vida.Veio a falecer e ainda no IML, as redes sociais publicaram comentários ordinários e aviltantes de sua integridade como pessoa e como mulher, uma enxurrada de misoginia, machismo e perversidade. Em Petrópolis, recentemente foi divulgado pela jornalista Cristina Fibe, no seio de (suposta e esperada) aulas de coral de igreja, que deveriam proporcionar tranquilidade, segurança, aprendizado e lazer para as meninas, uma rede de abusos físicos e psicológicos por parte do regente e administrador deste evento- encontro, Marco Aurélio Xavier, que, durante décadas, provocou traumas intensos nas frequentadoras-alunas.
A institucionalidade cultural brasileira, continua ainda a naturalizar ene situações estarrecedoras, doentias e criminosas, nos espaços mais diversos de nossas vivências cotidianas. Há uma certa, escandalosa e virulenta, cruzada contra a humanização e humanidade de meninas e mulheres, seus corpos, plenitude física e psicológica, são indefinidamente violados. Podemos dizer, em parte, que a atual onda de fundamentalismo religioso cristão e forças de extrema-direita, orgulhosamente tóxica, machista, sexista e misógina (vide os movimentos red pill, incel, trad-wife, etc) visam impor uma agenda e pauta moral radical de (falsos) costumes “adequados”, que negam e repudiam inúmeras vitórias humanitárias arduamente conquistadas por movimentos e instituições de luta por direitos sociais espalhados pelo mundo, formam um bom componente dessa gigantesca vicissitude.
O reacionarismo vindo desse segmento fundamentalista e extremista - cristão e de direita - promoveram perseguições, abolição de direitos, tendo conquistado algumas vitórias, como recente PDL que impões restrições ao direito ao aborto legal de meninas que engravidam de seus estrupadores, por mais estarrecedor que isso soe (e é) ao revitimizar mais as meninas subemtidas a esse horror - seguir com uma gravidez, extremante imaturas fisica e psicologicamente, de quem as estuprou. Esses conservadores - da “fé” e da política - sustentam o discurso de valores cristãos, quando na verdade os distorcem, pois dentre a complexidade dos ensinamentos cristãos vindo do segundo testamento está o mais básico deles que é o “amai-vos uns aos outros”, alicerçado no amor, acolhimento, compaixão, inclusão, perdão, não julgamento.
Deveríamos ter uma comunidade na qual meninas e mulheres não temam os seus mais próximos e que deveriam proporcionar absoluta confiança a elas. Queremos uma sociedade na qual meninas não sejam ameaçadas, apavoradas, silenciadas, perseguidas e violadas por aqueles que as deveriam proteger e amar. Ansiamos por um grupo socialmente construído no qual meninas e mulheres tenham seus corpos (mente e espírito) resguardados da crueldade infligida por homens dos quais os atos atrozes são frequentemente naturalizados. Sonhamos com uma coletividade na qual o respeito pela integridade do outro não seja um sonho distante, mas uma realidade paupável e factível, meninas e mulheres não passem a vida assombradas, com medo, com pavor, com desespero, com insegurança, com abalo psicológico, com conflitos nos relacionamentos, ou, definitivamente pior (desgraçadamente isso é estranhamente real e surreal) percam
suas vidas.
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*Cientista Social, redatora e revisora de conteúdo e colaboradora da revista Noite e Dia.

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