A SÉRIE "SOULMATES": O Amor Real Pode Competir com o Amor Científico?
- Carlos Henrique Cardoso

- há 2 dias
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Estava eu num domingo entediado procurando algo pra assistir, mas nada encontrava que me chamasse atenção. De repente, vasculhando as catacumbas da Netflix, encontrei a série “Soulmates” e, intuitivamente, achei uma boa alternativa. E era! Fiquei satisfeito ao assistir os 6 episódios, devorados um a um paulatinamente. Não é nenhum clássico não, longe disso, mas tem uma temática que agrada geral: o encontro do verdadeiro amor. Porém, não é aquela paixão a primeira vista que você se bate por aí andando na rua. É através da tecnologia. Trata-se de um revolucionário sistema de informações que, por via de um teste ocular, registra seus dados e compartilha com outros já realizados e difundidos via aplicativo de relacionamentos, fazendo com que automaticamente o individuo encontre enfim sua alma gêmea, aquela que bate perfeitamente com você, e assim garantir a paixão eterna. Mas será que funciona assim mesmo, nessa facilidade?
Os episódios são independentes, ou seja, são únicos, cada um contando a história de um casal, ou casais, uma espécie de Black Mirror do amor. Ao passo que as tramas vão rolando, nos damos conta (eu pelo menos) de que por mais que se fuja da tecnologia, ela vai lhe arrebatar algum dia, senão você vive como eremita. Quando nos damos conta de que as coisas não funcionam mais como na época dos nossos pais - até mesmo de nossa geração, vai - podemos chegar à conclusão de que sucumbir ao que há de mais moderno será uma saída. Chega a um ponto que realizar o teste pra encontrar aquela pessoa cuja atração emocional não terá escapatória, é tão normal quanto ter um whats’App. Senão, fica pra titia mesmo (nossa, que expressão datada...).
Sem dar spoiller, fica claro - ou quase - que não dá pro encontro natural e fortuito competir com amor científico, que será encontrado seja há alguns quilômetros da sua casa, na Sibéria, ou em Saturno. Aí vem o dilema: encontrar esse amor perfeito significa ser feliz? Porque uma coisa é a química incrível que passa a rolar com o tempo (sim, não é assim também tão imediato) e outra é a convivência do dia-a-dia. O cotidiano pode então corroer o amor correto, será? Essas questões aparecem na série que, admito, contém contextos bem explorados. O tema tem potencial para várias temporadas. Como, por exemplo, ficaria um gari que encontra uma alma gêmea socialite? A disparidade de classes falaria mais alto? E quando rola um etarismo, tipo um jovem de 23 anos com uma mulher de 53? Um satanista e uma evangélica fervorosa? E se sua grande companhia for um sociopata? O mesmo amor terno que lhe traz conforto e enfrentamento, pode revelar também o pior de si. Gostar de uma pessoa nesse modelo científico é uma mostra de atração mútua, mas se um deles tiver um caráter deplorável, como esse amor infalível sobrevive?
Esse assunto não é novidade e infelizmente também não traz nenhuma possibilidade de sucesso. Se o tema é relevante, parece que desperta pouco ânimo do espectador. Falo isso porque também acompanhei outras duas séries, nessa mesma pegada, que não foram à frente: "The One" e "Osmosis". A primeira é inglesa e abordava um grupo de amigos cientistas que ficou bilionário realizando uma combinação genética que garantia uma atração irresistível com outro semelhante. Ficou na primeira temporada e tinha até assassinato e investigação policial. A segunda é francesa e se tratava de um experimento produzido em forma de medicamento que fazia com que as pessoas se atraíssem após a ingestão. Também ficou pelo caminho. Uma pena. Espero que “Soulmates” tenha melhor sorte. Produzida pela AMC em 2020, chegou à Netflix no segundo semestre de 2025, mas sem destaque, nem estardalhaço. Chama atenção o intervalo de tempo entre o ano de produção e a chegada na Netflix. Pouco provável que vingue.
Fica a dica e a pergunta: será que teremos daqui há algumas décadas algo parecido? Nosso código genético guarda alguma relação especial com uma pessoa em algum lugar do planeta - ou da galáxia - que iremos sentir uma atração irresistível e vitalícia? Não sei, porém, a solitude vem ganhando força, aquele desejo de estar realizado com sua própria companhia. Bem, na verdade não encontrei nenhum estudo sobre a sensação positiva de estar só, ao contrário, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem se confirmando que a solidão é uma das grandes epidemias de nossa época. Mas isso é outro assunto. Apenas quis estimar o quanto a tecnologia terá poder de nos realizar encontrando o amor puro e verdadeiro - o que não indica que isso nos trará a felicidade.
FONTE:
IMAGEM: Digital Mafia Talkies



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