A TRAVESSIA DE UMA MULHER NEGRA: A Reinvenção de Si e do Mundo
- Autor(a) Convidado

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*Renata Gabriela Rozendo Piedade
Há mulheres que atravessam a vida como quem percorre uma estrada já pavimentada. Outras, porém, precisam construir o próprio caminho enquanto caminham. E ser mulher negra então, historicamente, essa estrada parece ser ainda mais íngreme. Sua trajetória não é feita apenas de passos livres seguindo uma direção; é uma travessia marcada pela existência e resistência, onde cada conquista adquirida nesta travessia carrega o peso de muitas gerações que vieram antes dela e que, por séculos, tiveram seus sonhos interrompidos, suas vozes silenciadas e seus corpos transformados em instrumentos de exploração. Atualmente, ser uma mulher negra no Brasil é habitar uma existência marcada por desafios que não foram escolhidos, mas herdados de uma história profundamente desigual. É nascer em uma sociedade que, muitas vezes, insiste em definir os limites de onde a mulher pode e deve chegar e quais caminhos percorrer. Contudo, é também descobrir, desde cedo, que a resistência pode transformar-se em alento e que a dor, quando ressignificada, pode tornar-se instrumento de luta e transformação.
Nesse caminho surge a minha história que por vezes foi atravessada por essa compreensão. Não fui moldada pela facilidade dos caminhos prontos, se é que esse existe, mas pela necessidade de construir pontes onde antes existiam abismos. Aprendi desde cedo que a educação não é apenas uma possibilidade na travessia, mas uma das poucas formas de atravessar com liberdade. Enquanto muitos avistavam a escola apenas como um espaço de aprendizagem formal, eu a percebia como uma ferramenta capaz de romper cercas e muros invisíveis, abrir portas historicamente fechadas e reposicionar minha existência diante do mundo.
A educação tornou-se e tem sido minha companheira de jornada. Cada livro lido representa hoje um território conquistado. Cada diploma alcançado eu o vejo não apenas como uma certificação acadêmica, mas como uma afirmação da minha dignidade, da minha capacidade e da minha humanidade. É a prova de que os sonhos de uma menina negra que nasceu num lar sem muitas perspectivas, oriunda das margens sociais, possuem o mesmo valor dos sonhos de qualquer outra pessoa.
Mas a educação produz conhecimento e este quando verdadeiramente transformador, não se limita ao benefício individual. Ele produz consciência. E a consciência gera responsabilidade. A filosofia ensina que a existência humana ganha sentido na relação com o outro. Não nos realizamos plenamente de forma isolada. Somos seres de encontro, de partilha e de responsabilidade coletiva. Talvez por isso minha história esteja profundamente conectada ao compromisso com aqueles que ainda enfrentam as barreiras que um dia também enfrentei, mas por vezes ainda enfrento.
Foi nesse encontro entre educação e consciência que compreendi que o sucesso individual, embora importante e necessário, não poderia ser o destino final da travessia de quem conhece as dores produzidas pela desigualdade. Era necessário transformar conquistas pessoais em instrumentos de transformação social.
Por isso, minha caminhada passou a dialogar profundamente com as lutas sociais. Compreendi que nenhuma mudança estrutural acontece apenas pela “boa vontade” de quem governa, seja na esfera municipal, estadual ou federal ou pelo esforço isolado dos indivíduos. As transformações mais significativas da história nasceram da organização coletiva, da mobilização popular e da coragem daqueles que se recusaram a aceitar a injustiça como algo natural e foram adiante. Ao atuar junto aos movimentos sociais, encontrei pessoas que compartilhavam a mesma esperança de construir uma sociedade mais justa, mais humana e mais democrática. Nesse espaço de luta, aprendi que reivindicar políticas públicas não é pedir favores ao Estado, mas exigir direitos e a efetivação deles. É lembrar que dignidade não pode ser privilégio de poucos.
Hoje faço minha travessia acreditando que lutar por políticas públicas significa defender o acesso à educação de qualidade, à saúde, à cultura, ao trabalho digno e à proteção social. Significa reconhecer que existem grupos historicamente excluídos que necessitam de ações concretas para que a igualdade deixe de ser apenas uma promessa escrita nas leis e se transforme em realidade.
E ainda por meio da educação, ao caminhar por entre os livros e autores percebo que essa minha compreensão dialoga profundamente com minhas interpretações sobre o pensamento de Frantz Fanon, filósofo e psiquiatra que nos ensinou que o colonialismo não aprisiona apenas territórios, ele também coloniza consciências. Fanon demonstra como as estruturas racistas produzem mecanismos que tentam convencer os sujeitos negros de sua suposta inferioridade. Trata-se de uma violência que ultrapassa o corpo e alcança a subjetividade. Ao refletir sobre suas obras, percebo que minha trajetória educacional também foi um processo de descolonização. Para muitas mulheres assim como eu, estudar significa questionar narrativas impostas. Significa compreender que a história negra não começa na dita “escravidão”, mas em civilizações, conhecimentos, filosofias e culturas que contribuíram para a construção da humanidade. Fanon nos convida a abandonar as máscaras impostas pela opressão e a construir uma existência autêntica. Essa reflexão encontra eco na experiência das muitas mulheres negras que se recusam a aceitar os lugares previamente determinados para ela e que em sua maioria são lugares que representam inferioridade. Cada vez que mulheres negras ocupam espaços de decisão, que produz conhecimento, que lidera projetos ou participa da formulação de políticas públicas, ela rompe com expectativas históricas, deixando de ocupar apenas os espaços das estatísticas da desigualdade e passando a produzir novas possibilidades de futuro e o principal, encorajam outras mulheres a fazerem suas travessias.
Minha caminhada é, portanto, uma travessia entre a memória e a esperança. Carrego comigo as marcas de uma história coletiva, mas também os sonhos daqueles que acreditaram que um mundo melhor e mais justo é possível. Sou fruto das mulheres que vieram antes de mim: das que trabalharam em silêncio, das que educaram seus filhos em condições adversas, das que resistiram mesmo quando lhes faltavam recursos, reconhecimento e oportunidades, mas que escolhi reinventar meu caminho. Cada conquista alcançada pertence não só a mim, mas também a elas.
Portanto, reafirmo que a educação me ensinou a sonhar e a lutar por direitos, acreditando que nenhuma conquista é verdadeiramente completa enquanto houver pessoas privadas de sua dignidade.
Concluo dizendo que ser uma mulher e sobretudo ser uma mulher negra é carregar cicatrizes, mas também carregar feridas abertas que ainda sangram. É conhecer a dureza dos caminhos, mas continuar caminhando. É transformar a dor em aprendizado, o aprendizado em consciência e a consciência em compromisso social. Como nos inspira Fanon, cada geração tem uma missão histórica e cabe a ela descobri-la e cumpri-la. A minha missão tem sido construir pontes, ampliar vozes, defender direitos e acreditar que a transformação social é possível, sobretudo por meio da educação. E enquanto houver desigualdades a enfrentar, comunidades a fortalecer e vidas a dignificar, a caminhada continuará. Porque a luta da mulher negra não é apenas pela sua própria ascensão. É pela construção de um mundo onde todas as pessoas, sobretudo todas as mulheres, possam existir plenamente, com liberdade, respeito e dignidade estando ela onde quiser.
* Pedagoga, mestranda em Estudos Africanos e Representações da África – PPGEARA UNEB. Professora da Rede Municipal de Presidente Tancredo Neves-Ba, Coordenadora da Educação do Campo da Rede Municipal de Taperoá-Ba
FONTE:
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução de Enilce Albergaria Rocha e Lucy Magalhães. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
FANON, Frantz. Por uma revolução africana: textos políticos. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.

Texto profundo, parabéns!