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ADEUS 2023 E O QUE VOCÊ NÃO FEZ?



[Spoiler do filme "Gosto de Cereja"] Um homem sadio e bem afeiçoado dirige pelas ruas de sua cidade em busca de alguém que lhe ajude. Na verdade, uma outra pessoa que seja bem recompensada financeiramente para fazer algo rápido e improvável: chamá-lo pelo nome três vezes e, caso não acorde, despejar vinte pás de terra sobre seu corpo morto. 


Este é um resumo bem simples e objetivo do filme “Gosto de Cereja” do diretor iraniano  Abbas Kiarostami filmado no Irã em 1997 e que ganhou a Palma de Ouro no mesmo ano. Com uma paisagem seca e de morros tomados por pedras e a exploração delas, o filme acompanha a jornada do personagem Badii, um homem obstinado em dar cabo à própria vida, mas que, por algum motivo inexplorado na película, necessita que alguém o enterre após o feito. Seu plano é ir até um local onde há um buraco para ele e deitar-se ali, após tomar todas suas pílulas de dormir. Como qualquer frágil ser humano, este homem teme ser enterrado vivo e pede veementemente que, a quem couber esse serviço, que o chame três vezes para garantir que ele se foi e que seu desejo seja cumprido. 


Apesar do roteiro denso, a obra escolhe uma caminho poético e magicamente estético para contar essa incomum história. Nela, eu vejo claramente que, mais do que a ideação suicida, a grande protagonista é a angústia humana, a vontade de viver, essa sensação tão intensa e ambígua que é amplamente discutida por filósofos, louvada entre os religiosos e que, durante essa época de festas de fim de ano, parece receber uma atenção especial. O ano será trocado. Apenas um número. Do 3 para o 4. Mas, para a simbologia humana, essa mudança provoca uma revisão particular dos nossos feitos, talvez de 2023, talvez dos últimos anos, e a checagem comparativa com o que houve (do que sabemos) com os outros. Será que estamos mais à frente ou atrás deles? Será que conseguimos cumprir o que nos cabe? Será que fechamos a tabelinha de resoluções que os alheios esperam de nós?


O personagem Badii instiga todas essas sensações sem nem ao menos dizer o motivo que lhe acomete para desistir da vida. Com extrema ansiedade, ele parece apenas motivado pela ideia de acabar com a dor e contar com um mero apoio humano nesse momento, afinal, para cumprir o ato, ele poderia se acomodar em seu belo apartamento e executá-lo. Não, eles quis abrir um buraco diante de um paisagem bela e inebriante e como o próprio diz: “ser pelo menos uma forma de adubo para aquela terra”, e, claro, com a possibilidade de ajudar alguém em dificuldade financeira, tanto que esse é o papo que ele engata com cada tentativa de achar seu ajudante. Saber que aquela pessoa, que incansavelmente luta pela sua sobrevivência, pode ter o alívio de receber uma boa grana por alguns minutos de trabalho o faz feliz. 


Essa contradição de um quase moribundo, perdido e angustiado, tentando achar algum sentido para sua vida (pelo dinheiro deixado) e para sua morte (pelo seu corpo-adubo), demonstra como esse ímpeto pelo viver nos persegue. Muitas vezes, o que nos abala é a implacável rigidez que impusemos sobre como as etapas da jornada deveriam acontecer. Com tal idade, ter o emprego dos sonhos, com tal condição, ter a casa comprada, com tal companhia, ter o casamento marcado, e assim por diante. O personagem da película dá sinais dessa vívida rigidez, seja por não aceitar qualquer argumento sobre seu plano, seja por lembrar de forma gloriosa sobre seus tempos de exército, uma simbologia que perpassa pelo seu olhar em vários momentos no filme. 


Como sair desse lugar tão petrificado sobre a vida? De primeira, poderíamos pensar sobre a importância de sermos flexíveis e entendermos que nem sempre as coisas estão sob nosso controle. Eu amplio essa ideia para a discussão de abraçamos a dor ferina da frustração. Como aponta a psicóloga Letícia Perfeito em um texto sobre os sentimentos do final do ano, temos a infeliz tendência a sermos paralisados pela frustração e angústia de planos que não deram certo, de previsões ruins sobre o futuro ou pela agonia de nem saber por onde recomeçarmos depois de um ciclo finalizado. A psicóloga questiona se não está na hora de sairmos deste lugar egocêntrico de medir o sucesso apenas pelo esforço pessoal, sem levar em consideração os fatores externos que interferem prontamente no resultado de nossas conquistas e que não podemos controlar. 


A rigidez do Badii foi questionada nesse lugar por um homem que, finalmente, aceita sua proposta, não tenta convencê-lo do contrário, ao mesmo tempo em que argumenta sobre sua pretensão. Sem discursos prontos, mas de coração aberto, este senhor de idade conta sua própria experiência de dor, ao descrever um momento em que a angústia lhe tomou o peito e ele decidiu finalizar sua existência, levando uma corda para uma árvore próxima a sua casa. Seu plano é frustrado pelo seu mal jeito com a corda, com a árvore, até que ele engata finalmente o melhor nó e suja sua mão com a mais deliciosa e suculenta amora - que é rapidamente lambuzada por ele. O senhor estava em cima de uma árvore cheia de amoras doces e maduras. O sol nascia, crianças iam para a escola e pediram que ele sacudisse os galhos para que os frutos maduros caíssem e elas pudessem desfrutar das amoras. O senhor continua sua história e diz: “Você não quer mais sentir os inúmeros frutos trazidos pelas estações? O gosto da cereja?”.


O filme não deixa claro qual foi a decisão final do personagem, mas, momentos antes da última cena, ele observa seu entorno e percebe um avião militar cortando o céu (tal qual sua rigidez) até descer seu olhar para as crianças correndo e brincando em uma quadra (livres, como aquelas que pediram as amoras ao senhor). Será que ele conseguiu entender sua frustração, sua dor e abraçá-la? Será que ele absorveu o que a Letícia explica e viu a angústia desmedida não como um lugar de falha interminável, mas, como uma pausa para olhar para si e perceber os obstáculos como parte dos passos da vida, cabíveis de serem enfrentados, ultrapassados ou tolerados? Enfim, que possamos dar adeus a 2023 sabendo acolher os nossos feitos e, especialmente, os não feitos, de agora e dos anos vindouros. 


PS.: Angústia, frustração e tristezas contínuas podem ser sinais de depressão. Busque ajuda. Para situações difíceis, entre em contato com o CVV (Centro de Valorização da Vida) através do 184, disponível 24 horas por telefone e no seguinte horário por chat: Dom - 17h à 01h, Seg a Qui - 09h à 01h, Sex - 15h às 23h, Sáb - 16h à 01h. 


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