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AMIGO É MESMO PARA ESSAS COISAS?


Aldir Blanc e João Bosco





De repente me caiu um meteoro de memórias brilhantes, se chocando e explodindo palavras com melódicas potentes capazes de me fazer chorar. Em que planeta dos meus sonhos Marcos Marinho estava quando escreveu “Outros beijos” disparando torpedos como este: ”Não vale a pena julgar, amar não é poder, viver não tem reprise”?


Sempre que penso sobre a vida e a minha existência, faço uma visita, mental, aos amigos que a vida me deu pelos caminhos que trilhei. Muitos deles nem sabem mas são, em alguns personagens deles mesmos, a personificação do que eu desejei ser em algum momento da vida e por isso tenho uma admiração enorme por eles. Falo “personagens deles mesmos” porque acredito que, no fundo, somos seres diversos, controlados pela nossa capacidade ou incapacidade de ler, entender e controlar as emoções.


O período da pandemia revolucionou a forma de nos enxergarmos e de enxergarmos os outros. Mesmo quem não crê que mudou fez alguma reflexão sobre a vida, errônea que seja.


Voltando ao meu delírio, senti realmente foi uma vontade enorme de falar sobre amizades. Em diversos momentos da vida nós fazemos renúncias que, na contra mão do entendimento, são na verdade decisões. Assim é quando resolvemos estudar de verdade, ou quando decidimos trabalhar e pagar as contas, mudar de endereço, mudar de curso na faculdade, mudar de cidade. O fato é que tais decisões acarretam rompimentos e encontros. Quem nunca encontrou amigos ou perdeu, ou mesmo se perdeu deles? Esse é um fato comum a todos, penso eu.


Amizade que veio do latim “amicitia”, provavelmente originado do termo “amicius” (amigo na tradução para o português). Em outros entendimentos teria se desenvolvido do verbo latino “amare” que expressa atualmente o sentido de “amor” ou “amar”.


“O conceito atual de amizade está relacionado com a afetividade que pode se desenvolver entre dois seres humanos.


A amizade é baseada em afeto, atenção, carinho, companheirismo, lealdade e proteção, principalmente” explicação essa, segundo o site Dicionário Etimológico.


Quando eu era criança gostava de admirar as capas dos LPs e ler as letras, saber quem foi que compôs, quem tocou o quê e essas delícias que esse modelo de disco nos proporcionava. Numa dessas viagens eu me deparei com a música “Amigo é pra essas coisas” do álbum homônimo da MPB4 de 1989. Aquela canção foi talvez a primeira vez que eu pensei sobre a importância de se ter um amigo. Ela relata, em resumo, um diálogo entre alguém desesperançoso que encontra, num bar, um amigo mais sereno e, ao falar de suas lamúrias e decepções recebe um lúcido conselho para o ajudar, levantar o seu moral, sem interesses, apenas pelo prazer de estar ajudando um amigo. Não poderia ser ninguém menos que Aldir Blanc, em parceria com Silvio Junior, para criar um retrato tão real, comum e atemporal de um aspecto da nossa sociedade como este.


Então volto para falar de Marcos Marinho, que ainda não é meu amigo, mas como outros amigos me pediu em amizade sem sequer falar comigo. Assim foi quando conheci o santamarense Marcos Paulo, Marcos também como Marinho, mas chamado de Preto Paulo por mim e por todos que lhe tem o mesmo carinho. Por coincidência o conheci onde Marinho hoje vive e todas as conexões se unem pelas ideias, pelas músicas propagando ideias, ou ainda, por essa sinergia de pensamentos comuns. Preto se apresentou a mim dizendo em música: “A mudança sobe a ladeira, em um caixão de línguas estranhas e tudo se faz tão antigo na modernidade dessa poesia démodé”, música dele e do grande poeta Ediney Santana.


Mas só é possível ser amigo das pessoas com as quais temos ideias convergentes? É possível ser amigo e esperar desse amigo posicionamentos e conselhos que possam nos dar a segurança para colocá-lo em tão alta posição em nossas vidas, quando os valores dessa pessoa estão distantes do que entendemos minimamente razoável?


Nos últimos anos quem não experimentou uma certa necessidade de se afastar de pessoas com as quais tinha uma relação de afeto, atenção, carinho, companheirismo, lealdade e proteção? Parecia uma prova de fogo das relações.


A pandemia surgiu no Brasil em meio ao pandemônio que estava instaurado (eleito democraticamente, por sinal) vociferando ódio, desunião, mentiras e toda a espécie de preconceito que encontrávamos antes desse momento triste da nossa história nos esgotos da nossa sociedade. Nessa onda o país fez um pequeno ensaio de uma guerra civil e vimos famílias, amizades, relacionamentos romperem num movimento cheio de agressividades, insanidades e horrores. Foi como se tudo de repente rachasse e muita coisa ruiu.


Como ser amigo de quem desejou sua morte, sua exclusão, sua extinção, sua doença? Como conseguir sentir por estes o que o verbo amare no latim significa, já que a palavra amizade se opõe a tudo aquilo que vivemos?


Em meio a alienação nos campos de concentração “à la Comando Maluco” espalhados pelo país, ouvi muita gente repetindo falas religiosas e uma, que em todos os contextos parecia mais afirmar a alienação e incapacidade de raciocínio minimamente lógico destes que falavam do que iluminar as trevas que se instauraram nas nossas vidas, até hoje ressoa na minha mente com uma preocupação enorme de que a humanidade (ocidental pelo menos) banalize tão precioso e profundo ensinamento que nos ajuda a seguir adiante em meio ao caos que é conviver: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:37–39). Religioso ou não, qualquer um conseguiria entender essa mensagem. Bom, conseguiria não é mesmo?



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Ramon Argolo é poeta, escritor, compositor e cantor baiano. Instagram: poetaramonargolo






Notas



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3 Comments

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carlosobsbahia
carlosobsbahia
Mar 29, 2023

Bela reflexão. Realmente,tenho alguns amigos "do lado de lá da força" cujo contato vem rareando a cada dia. Mas não sei se isso tem a ver com adversidades ideológicas graves ou consequências da vida

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E quando as amizades eram muito boas e ao revê-las parece que a única que a sustenta são as memórias do passado? Fico sempre intrigada se isso é ruim ou apenas uma variação na forma de se relacionar com o outro.

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Replying to

Chega a ser um tanto assustador e em alguns casos doloroso toda essa descoberta do que são as relações sem o brilho das expectativas e dos monstros que cada um guarda dentro de si. Acho que tudo isso é normal, muitos de nós que não vivemos tão imersos na normalidade.

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