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ANTES DE VOTAR, ELAS TIRARAM O BATOM

há 10 horas
7 min de leitura

Imagine uma mulher diante da urna pela primeira vez. Ela espera em uma fila, recebe a cédula, entra em um espaço reservado e, finalmente, pode escolher. Pode participar. Pode dizer, por meio do voto, o que pensa sobre o seu futuro e do seu país. Para nós, acostumados a associar eleições a filas, documentos, números de candidatos e urnas eletrônicas, talvez seja difícil dimensionar o que significa viver o primeiro dia em que esse direito deixa de ser uma promessa e passa a existir concretamente.


Agora acrescente um detalhe à cena: antes de votar, ela precisa tirar o batom.


Foi assim, de maneira quase inusitada, que uma pequena parte da história do sufrágio feminino ficou registrada na Itália. Em 1946, as mulheres italianas receberam orientações para comparecer às urnas sem batom porque a cédula precisava ser fechada e uma marca de maquiagem poderia ser interpretada como um sinal capaz de comprometer a sua validade. O Corriere della Sera registrou a recomendação de que as eleitoras deixassem o batom para depois da votação. O cosmético poderia ir na bolsa. O voto, não.


A história tem algo de curioso, quase engraçado. Mas quanto mais se olha para ela, menos engraçada ela parece. Porque o batom não era o assunto principal. O assunto era que aquelas mulheres estavam entrando em um espaço que, durante muito tempo, não havia sido considerado delas.


É importante fazer uma pequena correção histórica: 1946 não foi exatamente a primeira vez que mulheres italianas votaram. O direito havia sido reconhecido em 1945 e elas participaram das eleições administrativas realizadas em março de 1946. O dia 2 de junho daquele ano, entretanto, marcou a primeira grande eleição política nacional com participação feminina. Na mesma ocasião, a população italiana foi às urnas para decidir, em referendo, entre a monarquia e a república e para eleger a Assembleia Constituinte que participaria da construção institucional da nova Itália.


Era um país tentando se reconstruir depois do fascismo e da Segunda Guerra Mundial. E as mulheres não estavam apenas assistindo à reconstrução. Elas estavam votando nela. Mais de 12 milhões de mulheres participaram daquela votação, número superior ao de homens. Vinte e uma mulheres foram eleitas para a Assembleia Constituinte, entre 556 integrantes. Algumas delas fariam parte dos trabalhos responsáveis pela elaboração da Constituição italiana.


A imagem é poderosa: mulheres que durante tanto tempo estiveram afastadas das decisões políticas agora ajudavam a escrever as regras de um país que estava tentando começar de novo. E, no meio de tudo isso, havia o batom. Talvez seja justamente esse detalhe que torne a história tão interessante. Grandes transformações históricas nem sempre aparecem primeiro em grandes discursos. Às vezes elas aparecem em pequenas cenas do cotidiano. Uma mulher escolhendo o que vestir para votar. Uma mãe contando para a filha que aquele era o primeiro momento em que ela poderia participar. Uma eleitora guardando o batom na bolsa porque não queria correr o risco de perder o direito que acabara de conquistar.


O direito ao voto feminino não surgiu como algo natural. Foi conquistado. E essa talvez seja a parte da história que mais facilmente esquecemos. Quando um direito passa a fazer parte da rotina, ele começa a parecer como se sempre tivesse existido. Crianças crescem vendo mulheres votando. Mulheres crescem votando. Filhas acompanham mães às seções eleitorais. A urna passa a fazer parte da paisagem.



E, quando isso acontece, é fácil esquecer que houve um tempo em que a mulher não era considerada plenamente pertencente ao espaço político. Hoje, 4 de outubro de 2026, milhões de brasileiras vão novamente às urnas. O Tribunal Superior Eleitoral informa que mais de 158 milhões de eleitoras e eleitores estão aptos a participar do primeiro turno das eleições gerais deste ano.


Provavelmente ninguém vai perguntar a uma mulher se ela passou batom antes de votar. Ainda bem. Mas talvez seja justamente em um dia como hoje que valha a pena lembrar por que essa possibilidade existe. E essa lembrança ganha uma camada ainda mais curiosa quando olhamos para o debate contemporâneo.


Uma reportagem publicada pela BBC News Brasil chamou atenção para a circulação, no Brasil e em determinados ambientes digitais e conservadores dos Estados Unidos, de discursos que questionam o próprio voto feminino. A reportagem apresenta mulheres que defendem publicamente a ideia de que o sufrágio feminino teria sido um erro ou afirmam que abririam mão do direito de votar.


Entre os casos apresentados está o de Fernanda Guardian, que declarou em uma publicação que “o voto feminino foi um erro” e que abriria mão facilmente do próprio voto. A reportagem também entrevista Pietra Bertolazzi, que relaciona sua posição à crítica à democracia moderna e à defesa de uma monarquia.


Há uma ironia histórica difícil de ignorar. Em 1946, mulheres italianas estavam chegando às urnas depois de décadas de exclusão política. Oitenta anos depois, algumas mulheres dizem que prefeririam abrir mão desse direito.


É importante não transformar essa constatação em uma caricatura. Criticar a democracia não é, por si só, uma impossibilidade dentro de uma sociedade democrática. Defender a monarquia, questionar o Estado moderno ou discordar do funcionamento das eleições faz parte do campo de ideias que pode ser debatido publicamente.


A questão mais interessante é outra. O que significa abrir mão voluntariamente de um direito que outras mulheres precisaram lutar para conquistar? Talvez essa pergunta não tenha uma resposta simples. Mas ela merece ser feita. Porque o voto feminino não representa apenas a possibilidade de apertar botões em uma urna ou escolher um nome em uma cédula. Ele representa o reconhecimento de que mulheres são sujeitos políticos.


Que podem escolher. Que podem discordar. Que podem participar das decisões coletivas. Que podem ocupar espaços de poder. Que podem ser eleitas. E, sobretudo, que não precisam de um homem para falar politicamente por elas. Isso não significa que toda mulher precise acreditar que votar é maravilhoso. Não significa que toda eleição seja capaz de solucionar os problemas sociais. Não significa sequer que todas as mulheres devam pensar da mesma maneira.


Aliás, seria contraditório defender o voto feminino e, ao mesmo tempo, esperar que todas as mulheres votassem da mesma forma. O direito ao voto não existe para garantir unanimidade. Existe para garantir participação. E talvez seja essa distinção que a história das italianas de 1946 nos ajuda a compreender.


A democracia não é a ausência de conflito. É também o espaço institucional em que conflitos podem ser expressos, disputados e transformados em decisões políticas. As mulheres italianas que chegaram às urnas em 1946 não receberam um mundo pronto. Elas entraram em um país em reconstrução. Tinham opiniões diferentes, trajetórias diferentes, interesses diferentes.


Mas passaram a ter uma coisa em comum: o reconhecimento formal de que suas escolhas políticas também importavam. É curioso pensar que, naquele momento, o batom pudesse ser um problema. Hoje, uma mulher pode entrar em uma seção eleitoral de batom vermelho, rosa, vinho ou de qualquer outra cor. Pode ir sem maquiagem. Pode usar vestido, calça, tênis, salto alto. Pode chegar sozinha ou acompanhada.


A urna não deveria se importar com nada disso. Porque o que importa é que aquela pessoa tem o direito de estar ali. Talvez por isso eu goste tanto dessa história. Não pelo batom. Mas pelo contraste.


Uma pequena regra sobre maquiagem nos lembra de uma grande transformação sobre cidadania. A mulher precisava tomar cuidado para que o batom não deixasse uma marca na cédula. Mas, naquele momento, ela própria estava deixando uma marca na história. E talvez essa seja a imagem que valha carregar para uma eleição. Não a imagem de uma mulher obedecendo à recomendação de tirar o batom.


Mas a imagem de uma mulher entrando em um espaço onde, durante muito tempo, disseram que ela não deveria estar. Hoje, felizmente, ela pode entrar como eleitora. Pode votar ou não votar, conforme as regras e condições previstas pela legislação. Pode escolher qualquer candidatura de sua preferência. Pode discordar de todas as opções. Pode criticar o sistema. Pode discutir a democracia.


Pode, inclusive, dizer que não gosta de votar. Mas pode fazer tudo isso porque, antes dela, outras mulheres lutaram para que sua voz política fosse reconhecida. Talvez esse seja o detalhe que a gente não deveria perder de vista quando o voto se torna rotina. Direitos que parecem óbvios não nasceram óbvios.


Foram construídos por pessoas que, em algum momento, tiveram de perguntar por que não podiam ter aquilo que outros já tinham. Na Itália de 1946, o batom precisava ficar de fora da cabine para que o voto não fosse invalidado. Hoje, não precisamos mais fazer essa escolha.

O batom pode continuar na bolsa. Na boca. Na fotografia. Na vida. Mas o direito de votar carrega uma história que não deveria ficar escondida em nenhuma gaveta. Porque, antes de existir a pergunta “em quem você vai votar?”, existiu uma pergunta muito mais básica:


“Quem tem o direito de votar?”


E, para milhões de mulheres, durante muito tempo, a resposta foi: não você. Por isso, talvez hoje seja um bom dia para lembrar das italianas de 1946. Não para dizer a ninguém em quem votar. Não para transformar a urna em uma obrigação de pensamento. Mas para lembrar que a participação política das mulheres não caiu do céu. Foi conquistada.


E algumas conquistas merecem ser lembradas justamente quando deixam de parecer conquistas e passam a parecer simplesmente parte da vida. O batom era só um detalhe. O voto era a revolução.


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Referências:


BBC NEWS BRASIL. As mulheres que atacam o voto feminino no Brasil. BBC News Brasil, 28 set. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cq2dw67e517jo. Acesso em: 4 out. 2026. 


CÂMARA DOS DEPUTADOS DA ITÁLIA. Assemblea Costituente. Roma: Camera dei Deputati, [s. d.]. Disponível em: https://comunicazione.camera.it/eventi/80-costituente/assemblea-costituente. Acesso em: 4 out. 2026. 


CÂMARA DOS DEPUTADOS DA ITÁLIA. Le 21 donne della Costituente. Roma: Camera dei Deputati, [s. d.]. Disponível em: https://giovani.camera.it/node/534. Acesso em: 4 out. 2026. 


CARIOTI, Antonio. Le donne alle urne con il rischio rossetto. Corriere della Sera, 11 mar. 2011. Disponível em: https://www.corriere.it/unita-italia-150/11_marzo_11/carioti-macrostoria-giugno-1946_273c8604-4bcb-11e0-b2c2-62530996aa7c.shtml. Acesso em: 4 out. 2026. 


SENATO DELLA REPUBBLICA ITALIANA. 2 giugno 1946: l'Italia al voto. Roma: Senato della Repubblica, [s. d.]. Disponível em: https://www.senato.it/CESUS/2giugno/. Acesso em: 4 out. 2026.


Imagens retiradas do banco de imagens gratuito Pexels.com





 
 
 

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