ANÁLISE: Crônicas da Terra Brasílica, Livro I- O Cavaleiro Sertânico
- Eduardo Vago Pereira

- há 11 horas
- 2 min de leitura

A oportunidade de conhecer a trajetória do personagem Ravelino foi uma daquelas oportunidades de ver como a palavra enfeitiça, gera monstros e faz heróis, enquanto nos remete à nossa própria memória ancestral e dá sentido ao nosso estar no mundo, como diria Daniel Munduruku. Posso resumir como uma chance de ver o quanto de compreensão pode nos alimentar a alma, mesmo quando você enfrenta o mundo com uma armadura de couro. Armadura de couro, aliás, que é recorrente nas xilogravuras espalhadas pelo livro.
Publicado pela editora Segundo Selo em 2025 e com autoria de Danilo Cardel (1996-), "Crônicas da Terra Brasílica" se passa num mundo surreal, mas moldado profundamente por um real familiar a muitas gerações. O jovem protagonista, Ravelino, mora num continente conhecido como Terra Brasílica e mais especificamente, na região do Ser-tão-Longe, um território-tampão que o Império Sowar governa, tendo o Ser-tão-Longe como fronteira leste. Enquanto a capital dessa nação e centro populacional é uma península litorânea, os habitantes do Ser-tão-Longe vivem agruras constantes, inclusive conflitos violentos contra os nativos "calangos" (assim conhecidos por preferirem répteis avantajados como montaria, em oposição aos cavalos que os Sertânicos importaram de Sowar). O terreno para o conflito de Ravelino é preparado depois que Argo, seu pai e superior de armas, o envio para um posto da fronteira sertaneja com a Diarquia Mineira, com o jovem mal imaginando que deixou pra trás um barril de pólvora geopolítico, prestes a explodir em tudo que ama e conhece.
Tão importante quanto a história de um único protagonista é a rede de cenários com a qual se conecta, bem como as nuances que você encontra na aventura. Quando eu vi que o palco dessa história é um continente formado por conquistadores que atravessaram oceanos e onde solos de planalto e semiárido são uma fronteira (quase) intransponível para a compreensão, percebi o quanto o potencial da palavra não perde força nenhuma ao partir do país, do pedaço de mundo com o qual nos familiarizamos. Gravitei com força para esse mundo onde o braço forte das nações se manifesta em cavaleiros sertanejos e líderes tropeiros, onde os Encantados não deixam de cumprir suas missões mesmo convivendo com um clero de deuses avassaladores e onde a arbitrariedade entre escolher quem morre e quem vive pode despertar insurreições explosivas com reações ainda mais perigosas.
Enfim, o que me fez sentir a força do primeiro volume de “Crônicas da Terra Brasílica” foi ver que, se tratando de ficção épica, uma língua pode muito bem nascer de sotaques (Guimarães Rosa que o diga), o sobre-humano pode ter forma de assombrações regionais e os personagens podem ser forjados a partir de culturas marcadas pela colonização. Na verdade, ver qualquer cultura sendo referência simbólica é uma chance de entendê-la em sua trajetória, em sua beleza e em suas contradições.
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Imagem do acervo pessoal do colunista.

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