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APOROFOBIA E AS FRONTEIRAS INVISÍVEIS DA DESIGUALDADE EM O GALINHEIRO, DE AMAURÍCIO LOPES.





A literatura frequentemente revela, por meio de cenas aparentemente simples, estruturas profundas da vida social. Em muitas narrativas, gestos cotidianos, diálogos breves ou relações domésticas expõem hierarquias, preconceitos e desigualdades que, no mundo real, tendem a ser naturalizados. É justamente nesse ponto que o livro O Galinheiro, de Amaurício Lopes, pode ser lido não apenas como uma obra de ficção, um suspense nacional, mas também como um retrato crítico das tensões sociais que atravessam a sociedade brasileira.


Um dos conceitos que ajudam a compreender essas tensões é o de aporofobia, termo utilizado para designar a aversão, o desprezo ou a rejeição dirigida às pessoas pobres. A palavra foi difundida pela jurista espanhola Adela Cortina, que chama atenção para um fenômeno recorrente: muitas formas de discriminação social não se dirigem simplesmente ao “diferente”, mas especificamente ao pobre, àquele que ocupa uma posição de vulnerabilidade econômica e social.


Essa forma de rejeição aparece de maneira particularmente reveladora em um dos capítulos de O Galinheiro envolvendo as personagens Luciene, empregada doméstica da família do prefeito Augusto, e Amália, esposa do prefeito. Luciene trabalha diariamente na casa da família e, em algumas ocasiões, precisa levar sua filha pequena ao trabalho por não ter com quem deixá-la. A situação, bastante comum na realidade de muitas trabalhadoras domésticas no Brasil, torna-se motivo de irritação para Amália.


O incômodo da personagem, contudo, vai além de uma simples perturbação da rotina doméstica. O que parece incomodá-la profundamente é o fato de que a filha de Luciene circula pela casa com certa naturalidade e, sobretudo, passa a brincar com Isabel, filha de Amália. Para a esposa do prefeito, aquela convivência ultrapassa uma fronteira simbólica que, em sua percepção, deveria ser rigidamente preservada.


Duas crianças brincando juntas é, em qualquer contexto, uma cena banal. No entanto, dentro da lógica social que organiza as relações entre as personagens, esse gesto adquire um significado muito mais profundo. A interação entre as meninas ameaça a separação social que Amália procura manter entre sua família e aqueles que trabalham para ela.


Esse episódio ilustra com clareza a forma como a aporofobia pode se manifestar no cotidiano. Ela não aparece necessariamente por meio de discursos explícitos de hostilidade, mas frequentemente se expressa através de gestos sutis: olhares de reprovação, irritações aparentemente desproporcionais ou tentativas de limitar a circulação de determinadas pessoas em certos espaços.


No caso da narrativa de Amaurício Lopes, a casa da família do prefeito funciona como uma espécie de microcosmo social, um espaço no qual as hierarquias da sociedade se reproduzem em escala doméstica. Luciene trabalha naquele ambiente, limpa, organiza e contribui para o funcionamento da casa, mas sua presença, e sobretudo a presença de sua filha, é tolerada apenas dentro de limites bem definidos.


Quando esses limites são ultrapassados, ainda que de maneira inocente, surge o incômodo. Essa dinâmica reflete uma característica marcante das relações sociais brasileiras. O trabalho doméstico cria uma proximidade física cotidiana entre classes sociais profundamente desiguais. Empregadas domésticas participam da rotina das famílias, acompanham o crescimento das crianças e conhecem intimamente a vida daqueles para quem trabalham. Ainda assim, essa proximidade raramente se traduz em igualdade simbólica.


O sociólogo Jessé Souza observa que, em sociedades marcadas por profundas desigualdades, as hierarquias sociais tendem a ser constantemente reafirmadas no cotidiano, muitas vezes por meio de práticas aparentemente triviais. Pequenos gestos, olhares e atitudes acabam funcionando como mecanismos de manutenção dessas hierarquias.


Nesse sentido, a reação de Amália não deve ser compreendida apenas como um traço individual de personalidade. Ela representa um modo de pensar socialmente disseminado, no qual a pobreza é vista não apenas como uma condição econômica, mas como um marcador que delimita quem pertence a determinados espaços e quem deve permanecer à margem.


A presença da filha de Luciene dentro da casa do prefeito desafia justamente essa lógica. Ao brincar com Isabel, a menina rompe, ainda que momentaneamente, a barreira simbólica que separa patroas e empregadas, ricos e pobres, “donos da casa” e aqueles que ali trabalham.


Esse rompimento, por menor que seja, torna visível algo que muitas vezes permanece oculto: a artificialidade dessas fronteiras sociais. É nesse ponto que a literatura revela sua potência crítica. Ao transformar uma situação cotidiana em um momento de tensão simbólica, Amaurício Lopes convida o leitor a perceber aquilo que frequentemente passa despercebido na vida real: as formas discretas, mas persistentes, pelas quais a desigualdade se reproduz nas relações sociais.


A aporofobia, nesse contexto, não se manifesta apenas em discursos explícitos de rejeição aos pobres. Ela aparece também nos incômodos silenciosos, nas exclusões veladas e na tentativa constante de reafirmar distâncias sociais. Ao colocar essas dinâmicas em cena, O Galinheiro mostra que a desigualdade não se limita às diferenças econômicas. Ela também se expressa em práticas culturais, percepções sociais e relações afetivas que moldam o cotidiano das pessoas.


Assim, o romance de Amaurício Lopes nos lembra que muitas das fronteiras mais rígidas da sociedade não são necessariamente físicas ou legais. Elas são simbólicas, construídas por meio de crenças, hábitos e atitudes que determinam quem é visto como pertencente e quem é tratado como intruso. E, às vezes, basta o gesto simples de duas crianças brincando juntas para revelar o quanto essas fronteiras ainda permanecem presentes.



REFERÊNCIAS:

 

CORTINA, Adela. Aporofobia: a aversão ao pobre — um desafio para a democracia. São Paulo: Contracorrente, 2020.

 

SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

 

SOUZA, Jessé. Ralé Brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009.

 

LOPES, Amaurício. O Galinheiro. Salvador: Editora Mondrongo, 2023.


IMAGEM: Skoob



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