ARTE EM FOCO: UM JANTAR BRASILEIRO
- Equipe Soteroprosa

- 18 de dez. de 2025
- 6 min de leitura

*Manuel Sousa Júnior e Jacqueline Gama
Um Jantar Brasileiro é uma obra de arte pintada em aquarela sobre papel pelo francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) em 1827. Possui o tamanho de 15,9 x 21,9cm e atualmente se encontra no Museu Castro Maya no Rio de Janeiro/RJ, também conhecido como Museu da Chácara do Céu, onde também estão centenas de trabalhos do artista plástico.
Debret visitou e morou no Rio de Janeiro de 1816 a 1831 e atuou como artista do Brasil Joanino e do Primeiro Reinado. Ele já era reconhecido e premiado na Europa, foi contratado pela Coroa portuguesa e, juntamente com outros artistas, deu origem à chamada Missão Artística Francesa no Brasil. Um dos objetivos desses artistas era fundar a Escola Real de Artes e Ofícios.
Entretanto, como o contexto político estava conturbado, com a morte de D. Maria I (1816), revoluções em Pernambuco (1817), Bahia (1821/1823), Pará (1821), entre outras, além da instabilidade na Europa, o projeto foi sendo adiado, e somente em 1826 foi fundada a Academia Imperial de Belas Artes. Nesse intervalo, os artistas franceses desenvolveram outros trabalhos para a Corte portuguesa. Debret, por exemplo, pintou diversos quadros de Dom João VI e, posteriormente, de Dom Pedro I, além de obras com outras temáticas. Ele atuou como professor nessa instituição até 1831, ano de seu regresso à Europa.
Seu livro intitulado Voyage pittoresque et historique au Brésil (Viagem pitoresca e histórica ao Brasil), publicado em Paris entre 1834 e 1839, foi “o mais famoso de todos os livros ilustrados por estrangeiros a respeito do Brasil” (Bandeira; Lago, 2020, p. 55). Foram oito anos de trabalho até a publicação da obra, que contou com centenas de imagens representativas do país. A litografia do jantar faz parte do segundo tomo e é enumerada como prancha sete. Esse volume do diário de viagem deteve-se especialmente na temática dos negros, em particular daqueles em condição de escravizados. Debret retratou suas vivências na rua, na casa-grande e em outros espaços de trabalho. Inclusive, ele os classifica como Industries, ou seja, “trabalhadores”, confirmando que sustentavam a mão de obra do país.
Um Jantar Brasileiro representa uma típica refeição brasileira sob o olhar de Debret, que, em sua passagem pelo Brasil, produziu diversas obras de arte representativas do cotidiano da maior colônia portuguesa, entre elas quadros a óleo, aquarelas, esboços a lápis, tinta ou aquarela e gravuras em litografia. Apesar de ser denominada jantar, possivelmente a refeição retratada corresponde ao que hoje chamamos de almoço. Naquele período, as refeições possuíam denominações distintas das atuais.
Bandeira e Lago (2020) relatam que, no entendimento de Debret, era costume no Brasil, durante o jantar, que o marido se ocupasse silenciosamente de seus interesses, como comer, enquanto a mulher se distraía com seus negrinhos, como se fossem cães de estimação. Filhos de escravizados, eles desempenhavam essa função até os cinco ou seis anos, quando então eram destinados aos serviços típicos da escravidão. Debret deu atenção especial às três principais classes presentes no Império, os negros, os indígenas e os colonizadores portugueses, bem como aos costumes sociais no Rio de Janeiro, então capital imperial. É por meio desses registros e de outras missões semelhantes que a historiografia obteve e ainda obtém riquíssimas fontes para o entendimento do Brasil daquele período.
Na descrição da prancha, presente no diário, Debret, ao abordar o almoço como um momento sagrado de relaxamento, já que os negociantes, referindo-se aos senhores, repousavam e ficavam à vontade em relação aos trajes, menciona o clima quente como forma de rebaixar o brasileiro. Isso ocorre por meio do descuido com a roupa e do sono após o almoço, momento em que tiravam uma soneca, a sesta.
O texto enfatiza o preconceito do estrangeiro, que se estende até a contemporaneidade. Essa justificativa foi utilizada em correntes positivistas e racistas, especialmente no darwinismo social do século XIX, para legitimar violências e opressões cometidas em contextos de colonização violenta. Além disso, a forma como Debret constrói essa narrativa demonstra certo deboche em relação aos brasileiros, inclusive aqueles que ocupavam posições de poder, como se todo o contexto social fosse uma imitação europeia atrasada e brega.
Ainda na descrição da prancha, Debret animaliza os escravizados. Ao aproximar as crianças dos cachorros, demonstra uma atitude violenta e racista, ao mesmo tempo em que aparenta compaixão em relação a elas. Essa ambiguidade reforça a dualidade presente em seus textos e pranchas, como se, simultaneamente, os escravizados fossem trabalhadores, porém medíocres e tiranos, enquanto os senhores seriam bregas, preguiçosos e humildes, eximindo-os de qualquer culpa pela violência praticada. Ele chega a utilizar o termo “mimado” para se referir às crianças escravizadas.
O que, para ele, seria uma criança escravizada mimada? Ao que aparenta, seriam aquelas que recebiam algum tipo de afeto ao ganhar doces, ressaltado pela expressão “mãos carinhosas de suas donas” (Debret, 2008 [1834], p. 148), como se o uso dessas crianças para entretenimento e prazer criasse ou comprovasse algum tipo de relação afetiva. Essa ideia se desfaz quando elas perdem precocemente qualquer possibilidade de infância e são destinadas ao trabalho pesado.
Debret enfatiza a “revolta” das crianças ao roubar frutas do jardim, sugerindo ao leitor que eram bem alimentadas fora da casa-grande, tratando o ato como mera birra. Reforça essa ideia ao empregar o termo “gulodice”, como se não fosse natural que crianças gostassem de doces. Se os adultos o faziam, como representado na imagem e na descrição da prancha, imagine indivíduos que ainda não haviam desenvolvido discernimento sobre si e sobre o mundo, privados desde cedo de pequenos prazeres e submetidos a múltiplas violências.
Nesse mesmo momento da descrição, Debret utiliza o verbo “domar” para referir-se à necessidade de educá-las. O termo, de cunho racista e geralmente aplicado a animais, aparece três vezes na descrição da prancha. A questão da gulodice também se desfaz pela própria representação visual. Embora as crianças apareçam mais robustas, possivelmente de forma proposital em consonância com a descrição, os homens e mulheres escravizados são representados como magros ou musculosos, diferentemente dos brancos da casa-grande ou da rua, que surgem majoritariamente corpulentos nas gravuras do artista francês.
Debret prossegue descrevendo a alimentação da casa-grande, marcada pela fartura, desde a variedade de verduras, temperos e carnes, até os ingredientes do cozido, como o escaldado de mandioca com camarão ou carne. Além disso, menciona galinha com arroz, pimenta, salada crua com cebola e azeitonas escuras, hábito adquirido dos portugueses, mas que para ele era detestável.
Debret não esconde o nojo que sente pela comida ao afirmar que o cheiro do tempero é “muito forte” e “dá-lhe um gosto marcado bastante desagradável para quem não está acostumado” (Debret, 2008 [1834], p. 149). Ele também classifica a comida como excessivamente apimentada e rançosa. Mais uma vez, evidencia-se o desdém em relação aos portugueses e aos senhores, mesmo diante da riqueza e do luxo. A barreira cultural torna-se explícita na descrição.
O gravurista francês comenta ainda o hábito de consumir laranjas após as refeições para amenizar a pimenta e acalmar o paladar, o que para ele não passava de um “luxo habitual” (Debret, 2008 [1834], p. 149), associado a “paladares estragados” (Debret, 2008 [1834], p. 149). Observa-se, assim, o estranhamento do paladar do viajante. Para beber, mencionam-se vinhos do Porto ou da Madeira, também importados.
Além disso, havia sobre a mesa uma variedade de frutas e queijos, como o minas, além de holandeses e ingleses, estes últimos importados da Europa, prática considerada recente pelo viajante. Debret comenta a necessidade de luxo dessa elite portuguesa ou descendente dela, que engendrou uma cultura de importação mediada por comerciantes ou viajantes alemães e ingleses. Esses signos permeavam a comida, os sapatos e até o “tipo” de escravizado, funcionando como afirmações de ostentação e poder. Ou seja, a cultura da casa-grande resiste até hoje no Brasil, visível na valorização de vinhos e perfumes importados, na presença da empregada doméstica e na exclusividade do consumo.
Os produtos importados continuam ocupando esse lugar de autoridade na cultura brasileira, tanto entre os ricos herdeiros quanto entre os novos ricos. O antropólogo Michel Alcoforado (2025), conhecido como “antropólogo do luxo”, realizou um estudo sobre a cultura dos ricos que resultou no livro Coisa de rico: a vida dos endinheirados brasileiros. O aspecto interessante dessa análise contemporânea, que dialoga com as pranchas de Debret, é a existência de níveis de exclusividade dentro de uma mesma classe social, identificados a partir dos sistemas de exploração de cada época.
Em Um Jantar Brasileiro, Debret exime a culpa da Corte portuguesa e do sistema escravista. Além de descrever o almoço na casa-grande, ele também aborda a situação alimentar dos pequenos comerciantes, da senzala e dos moradores de rua, por vezes ironizando a pobreza e naturalizando o abismo social entre as classes. Assim, exalta seu olhar estrangeiro, que em diversos momentos se mostra preconceituoso diante de um Brasil em transformação, marcado por mudanças políticas e sociais.
Você já tinha visto alguma obra de Debret? Já conhecia essa imagem? Conseguiu imaginar algo a partir dessas informações? Qual foi a sua impressão ao ler sobre essa obra? Conta pra gente nos comentários.
*Colunistas do Soteroprosa que compartilharam um texto juntos. Manuel é doutor em Educação e historiador. Jacqueline é mestre em literatura e cultura e doutoranda do PPGLitCult da UFBA.
REFERÊNCIAS:
ALCOFORADO, Michel. Coisa de rico. São Paulo: Todavia, 2025. 240 p.
BANDEIRA, Júlio; LAGO, Pedro Corrêa do. Debret e o Brasil: obra completa. 6. ed. Rio de Janeiro: Capivara, 2020. 720 p.
DEBRET, Jean-Baptiste. Prancha 7: O jantar no Brasil. In: DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Tradução e notas de Sérgio Millet. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2008. Coleção Reconquista do Brasil, 2ª Série, v. 239, 240 e 241. p. 148-151.
Referência da imagem:
DEBRET, Jean-Baptiste. [Um Jantar Brasileiro]. Rio de Janeiro: Museu Castro Maya, 1827. Aquarela sobre papel, 15,9 x 21,9cm.



Texto excelente!!