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AS DORES E AS FORÇAS DA MÃE DE UTI: ENTREVISTA COM JACQUELINE GAMA

há 11 horas
10 min de leitura
Registro do dia do parto estilizado com IA.
Registro do dia do parto estilizado com IA.

A maternidade uniu ainda mais a relação afetuosa que tenho com minha amiga, sotero, professora de Literatura, pesquisadora e escritora Jacqueline Gama. A conexão sobre ideias e conteúdos divididos entre nossos textos, avançou para outros lugares, culminando nessa entrevista especial sobre sua maternidade, que chegou como uma experiência avassaladora. 


Em um papo detalhado e de coração aberto sobre a sua vivência, Jac, que está em processo de doutoramento em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia  (PPGLitCult /UFBA), e é Mestra pelo mesmo programa, divide conosco suas inseguranças, medos, mas também suas fortalezas e novas percepções que só nasceram após uma intensa conexão com diferentes sentimentos ao receber seu filho no mundo, o Augusto. 


Com esse conteúdo, ela, que já pesquisa literatura, cinema, memória e imaginário, com especial interesse pelas formas de pensar o Brasil e a América Latina, contribui para essa conversa necessária e poderosa entre mulheres sobre as fragilidades como um espaço de cura e transformação social do cuidado e amparo ao ser feminino em toda a sua inteireza e complexidade. Agradeço imensamente a vulnerabilidade dessa recém mãe e convido o leitor a mergulhar nessas palavras de força e aprendizado inigualáveis. 


Registro do momento do nascimento de Augusto estilizado com IA.
Registro do momento do nascimento de Augusto estilizado com IA.

  1. Você mencionou que o sentimento de culpa ainda te ronda, mesmo sabendo que fez toda a prevenção durante o pré-natal. Como foi lidar com o choque entre o parto que você havia planejado e a necessidade de uma cesárea de emergência para salvar a sua vida e a do seu filho?


Primeiramente, obrigada pelo convite, Karla. Penso que esse assunto das mães de UTI deveria ser mais visibilizado pois é algo que mexe demais com a saúde mental de quem passa por essa experiência. 


Acho que sua pergunta se divide em duas partes. Existe o choque do momento, no qual todas as expectativas são quebradas, principalmente a idealização sobre o parto. Como falei no meu texto pessoal, me preparei para esse momento, caso acontecesse, e já tinha a experiência da minha mãe. 


Quando ocorreu, foi muito difícil. Eu tive uma crise emocional no hospital, principalmente com minha mãe, já que foi ela quem me levou para a emergência. Eu cheguei a culpá-la. Porém, depois me veio a consciência e percebi que ela nos salvou.


Na medida em que a ficha foi caindo e com a orientação da minha obstetra e da enfermeira obstetra, que foram bastante humanas no momento, consegui aceitar o internamento. Claro, a pessoa que mais me apoiou foi meu marido. Nesse ponto, é importante ter uma rede de apoio para lidar com a segunda parte, uma vez que existe o choque do pós parto, aquela sensação de "Isso realmente aconteceu?"


Quando recebi alta e meu filho continuou lá no hospital, veio a culpa de que algo poderia ter sido diferente. Realmente, isso se tornou uma espécie de morte do que sonhei. Depois, tive que lidar com esse luto no nosso pós-internamento, porque, enquanto ele estava lá na UTIneo, eu fazia de tudo para me manter firme e chorar o mínimo possível.


  1. Em um momento de muita tensão, você chegou a pensar em evadir do hospital para tentar sentir as contrações e ter o parto como imaginou. O que fez você virar a chave, escutar a razão e aceitar a intervenção médica?


Primeiramente, eu me lembrei de uma das minhas sessões de terapia em que conversei sobre essa possibilidade da cesárea de emergência. Acho que foi meu momento de maior lucidez já que não paravam de vir uma enxurrada de pensamentos contraditórios. Lembro que na triagem eu cheguei a respirar fundo e chorar. Veio uma lágrima e um silêncio profundo.


Recordo-me também do rosto de minha mãe em desespero e da voz dela, já que inicialmente eu recusei a medicação (o sulfato de magnésio) porque queria meu marido perto. Mais ainda, o médico que me atendeu contou casos horríveis que aconteceram com mulheres que passaram por essa situação e fiquei um pouco apavorada. 


Antes de chegar ao hospital, minha mãe tinha auscultado o meu filho no posto de saúde onde ela trabalha. Fui do postinho direto para o hospital. Lá também eu fiz o teste de proteinúria que foi repetido no primeiro atendimento hospitalar. 


Então, na hora que minha mãe auscultou o coração do meu filho e eu senti o batimento dele mais fraco e com o super positivo da proteína na urina, eu percebi que a situação era muito séria. 


Também havia falado com a obstetra pelo telefone, e já no momento do internamento ela viu a gravidade pela pressão da triagem, e pelo resultado do MAPA que havia pego naquele mesmo dia. Foi ela mesma quem pediu para que me atendessem rapidamente no hospital, daí a classificação de risco alto com o uso da pulseira laranja.


Resumidamente, percebi que todo mundo estava muito tenso, além das evidências médicas. Por mais contrariada que estivesse, tomei consciência de que se eu saísse de lá, poderia ter um desfecho negativo para mim e para o meu filho. Também escutei meu sentido interior, uma espécie de pressentimento de que eu deveria ficar, apesar de tudo.

Registro de Jacqueline visitando o Augusto na UTIneo estilizado com IA.
Registro de Jacqueline visitando o Augusto na UTIneo estilizado com IA.

  1. Você passou os primeiros dias separada do seu filho por causa do protocolo do Sulfato de Magnésio. Como foi vivenciar a maternidade à distância nas primeiras horas e qual foi o impacto de saber que ele reconheceu a voz do pai?


Eu fiquei muito ansiosa porque queria muito ver meu filho. Acho que o impacto não foi pior porque fiz a "hora de ouro" com ele quando o bebê fica pele com pele com a mãe no momento do nascimento. Meu filho ficou sobre minha pele por um bom tempo até descer para a observação. Até aquele momento eu ainda não tinha certeza se ele iria para a UTI Neonatal. 


Quando ele foi internado na UTIneo, pedi diversas vezes para meu marido ir vê-lo e assim ele o fez. Detalhe importante: a UTI neonatal fica no prédio ao lado da UTI em que eu estava internada. Então, meu marido ia e voltava por dentro do hospital. Foi bem cansativo. 


Na primeira noite, ele chegou a me mandar uma foto do meu filho e um vídeo. Ainda os tenho guardados. Eu lembro que passei horas olhando a foto e o vídeo. Fiquei emocionada no momento e ainda fico quando me lembro.  

Vê-lo pelo celular me deu um certo conforto. Acho inclusive que isso deveria ser um protocolo para as mulheres que ficam internadas e não podem ver o bebê de imediato. Aquilo me fortaleceu muitíssimo!


Quando ele me contou que nosso filho reconheceu a voz dele também fiquei muito emocionada e grata. Além disso, evidenciou um ponto já provado: que os bebês reconhecem a voz dos pais, quando  conversam com eles  durante a gestação da mãe.


Além disso, tive uma sensação de conforto ao saber que meu filho não se sentiu só, pelo menos, nos momentos em que o pai esteve por perto e eu não pude estar. É um fato que acalma o meu coração.



  1. Você também foi um bebê de UTI e passou por uma situação extremamente delicada ao nascer. Como foi olhar para o seu filho na incubadora sabendo que sua mãe viveu algo semelhante com você anos atrás? Você sente que isso mudou a forma como enxerga a sua própria mãe?


Eu já sabia que minha mãe é uma mulher extremamente forte, resiliente e bastante sensível. Inclusive, puxei isso dela. 


Penso que eu revi alguns conceitos, porque eu tinha uma visão muito pessimista sobre o meu nascimento. Às vezes fazia uma piada ácida de que "fui retirada da barriga dela", mas ela pariu para me salvar, assim como eu também pari para salvar o meu filho. 


A situação também me fez refletir sobre o processo de criação que tive. Meus pais são superprotetores comigo até hoje (risos). Quando a gente passa por uma UTI Neonatal, vivemos o medo de perder a pessoa que mais amamos, um ser tão pequeno e delicado. Então, é impossível não querer tomar todos os cuidados cabíveis — algo que já faz parte da maternidade, mas aumenta nessa situação. 


Quanto ao meu filho, eu me vi nele. Foi como se estivesse voltando no tempo e a palavra que mais pensava era "solidão", principalmente quando voltei pra casa sem ele.


Tentei passar o máximo de tempo na UTI Neonatal para que ele não ficasse sozinho, embora estivesse super bem cuidado pela equipe de saúde do hospital, a qual eu agradeço muito. 

Registro de Augusto na UTIneo estilizado com IA.
Registro de Augusto na UTIneo estilizado com IA.

  1. Você escreveu que a pré-eclâmpsia poderia ter se tornado um trauma, mas o parto virou objeto de alegria e afeto. O que permitiu essa transformação emocional em meio a tanta dor?


Primeiro, o apoio do meu marido e ele ter podido ficar comigo em todo o momento, inclusive na UTI.


Depois, o acolhimento da minha obstetra e da enfermeira obstetra que acompanhou o meu parto. Elas conseguiram trazer um ar leve diante de todo aquele processo tenso e intenso.


Inclusive, teve música durante o meu parto, sendo que eu nem queria porque estava desanimada e com medo. Elas insistiram e pedi para meu marido escolher uma música clássica. Meu filho nasceu ao som de "Quatro estações", de Vivaldi.


Além disso, durante todo o internamento, a equipe do hospital  foi bem competente e contou inclusive com uma psicóloga. Não sofri nenhum tipo de violência e fui bastante acolhida. 


Acho que nessas horas é o tratamento humano que mais conta, não apenas a intervenção médica — embora seja compreensível que em alguns momentos a intervenção precise ser urgente, afinal é a vida de um ser humano ali e, no caso da gravidez, a vida de duas ou mais pessoas.


  1. O papel do seu marido se destaca muito no relato de seu parto. Na prática, que tipo de postura dele, durante o internamento e a UTI, fez a diferença para manter a sua saúde mental e emocional?


Meu marido é um homem extremamente amoroso e cuidadoso. Em casa, ele sempre deixa minha comida pronta, calça minha meia antes de dormir, me cobre e conversa muito comigo.


Além disso, convivo com uma uma doença crônica, que é a fibromialgia, e ele tem todo o cuidado comigo, desde manter o meu descanso até me incentivar a fazer atividade física. Ele cuidou muito de mim durante a gravidez.


Meu marido sempre incentivou muito meu bem estar e na UTI não foi diferente. A primeira coisa que pedi para ele quando estava internada, antes de ir pra UTI, foi para calçar minha meia. Ele trouxe travesseiro, cobertor, perfume, vários objetos de conforto para que eu ficasse bem e não deprimisse ou desencadeasse uma crise de ansiedade. 


Então, ele cuidou muito bem de mim. Quando nosso filho nasceu, ele não tirava os olhos de nós dois. Eu o vi bem abatido e preocupado durante os dias em que ficamos internados, principalmente quando eu também estava, mas ele realmente se entregou para a família e acho que esse é o maior exemplo de força e coragem de um homem que sonha em ser pai.


Percebi na UTI Neonatal que nem todos os pais estavam presentes e isso foi de cortar o coração. Mas, as mulheres que tinham seus parceiros por perto, por mais triste que estivessem, estavam com um ponto de apoio. 


Meu marido é o meu porto seguro, meu lar.

Registro de Guto, pai do Augusto, na UTIneo com o filho estilizado em IA.
Registro de Guto, pai do Augusto, na UTIneo com o filho estilizado em IA.

  1. Você é uma pesquisadora das Letras, do cinema e da cultura, habituada a analisar a memória e a arte como catarse. Como foi sair do papel de teórica/escritora para viver o de personagem da sua própria história em um momento tão vulnerável?


Muito interessante sua pergunta! Eu pensei muito nisso quando eu estava internada. Como você colocou, eu sou crítica de produções culturais e quando estava no hospital, em determinados momentos, ficava pensando: “Meus Deus! Isso poderia ser uma série ou um filme.” Até quando cheguei no hospital para ser atendida pelos médicos, fiz uma piada, dizendo que eles estavam parecendo vilões de filme de terror, “Os açougueiros”. Todos caíram na risada! 


Esse meu jeito de lidar me ajudou no internamento. Até mesmo na hora da anestesia peridural, eu fiz uma piada sobre as pessoas antigamente cheirarem  álcool para se entorperecem, e não “sentir as cirurgias” , o que fez a anestesista brincar junto comigo, e dizer o que esse seria seu novo método com os pacientes. 


Esse contato que eu tenho com a arte me ajudou muito a ficar mais aliviada com todo o processo, a criar uma blindagem. Acho que as sessões de terapia durante toda a gravidez também me ajudaram muito. O tempo todo, eu tentava ver de fora da situação, como um narrador observador e não um narrador personagem, embora eu tenha sido esse último.


Isso foi uma forma lúdica de lidar, para que o parto não se tornasse um trauma. Então, essa perspectiva do encantamento, do literário, da ficção, me ajudou a lidar com a realidade. 


Realmente eu me senti num filme, num livro, com todas aquelas cenas chocantes e reviravoltas. E o que mais ficou muito marcado para mim foi àquela luz branca e forte do hospital, a cama gelada e àquele momento em que o meu corpo estava totalmente vulnerável aos cuidados de  outros. Em vários momentos, eu fiquei tensa. 


Por estar com o meu marido,  as sensações ruins amorteceram um pouco. Mas, foi tudo tão chocante e fantástico, no sentido de fantasia e, ao mesmo tempo, extremamente real. Por isso, estou pensando em escrever um livro, uma auto-ficção. 



  1. Para as mães que estão vivenciando a UTI neonatal hoje e lidando com a impotência e o medo, qual mensagem você deixa a partir da sua vivência?


Primeiro, que é uma experiência que, quando você está vivendo, acha que não vai passar (meu filho está aqui do meu lado enquanto respondo essa pergunta e fico ainda mais emocionada…). A gente fica com muito medo porque o filho está naquele ambiente hostil, muito frio, luzes baixas. A sensação é de estar perecendo num purgatório. Você ouve todos aqueles monitores, aquilo dá uma aflição, seu coração dispara. Teve um dia que um bebê estava passando por um procedimento e o monitor dele começou a apitar. Mesmo os profissionais colocando um biombo para que outras pessoas não vejam, como protocolo de privacidade, aquilo me acendeu um alerta por dias. Eu fiquei pensando se algo aconteceria com o meu filho. 


Eu ia visitá-lo pela manhã e/ou pela tarde, e todas as noites. Quando não estava lá, ficava pensando que ele estava sozinho,  que aquilo não iria passar nunca. Batia aquele medo de que algo ruim acontecesse, uma tensão de pensar que eu poderia receber uma notícia de que não gostaria. 


Aí, quando  chegava na UTI, e via o meu filho, o meu coração se acalmava. Por mais triste que eu estivesse, mesmo com todos os hormônios do puerpério e sem conseguir descansar no pós parto, tentava trazer uma alegria para ele. 


Acho que não devemos nunca deixar o outro dizer que a mãe de UTI não é um maternar verdadeiro e precisamos acreditar que nosso filho vai sair de lá bem. Devemos tentar ser resilientes, mantendo a fé, independentemente de religião. 


É essencial ter uma rede de apoio e, se possível, uma ajuda psicológica. Um dia de cada vez! Não se afaste do seu filho e tenha fé que ele vai sair. Quanto mais você ficar próximo, dando amor e forças, o nenê vai sentir isso. Eu vi isso com meu filho. Quanto mais me aproximava dele, mais ele se recuperava. 



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