AS MÚLTIPLAS REALIDADES DOS ALGORITMOS
- Alan Rangel

- há 24 horas
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Imagine viver em um lugar que abriga múltiplos universos: um mesmo planeta com realidades cognitivas diversas. Esse é o mundo dos algoritmos e das big techs — controlados pelos novos donos do poder, deuses rentistas que modelam desejos e vontades, aproveitando-se de pessoas imersas em vazios existenciais e medos constantes. Além disso, esses novos senhores do poder — o ressurgimento dos senhores feudais, como assinala Yanis Varoufakis — cobram pedágio, em um contrato social voluntário, de usuários, trabalhadores e comerciantes.
Nessa nova realidade, se você deseja viver no mundo ingênuo de Poliana e Cândido, há espaço para você; se prefere ver apenas sangue, tiro e guerra, também há esse espaço; se busca um mundo focado em moda, estética, fitness, longevidade e suplementos, existe esse universo. Enfim, qualquer realidade que você almeje, os algoritmos lhe darão. Eis a elegância e a sofisticação do perspectivismo: os diversos mundos paralelos criados pela realidade digital, em que a verdade está nos olhos de quem vê.
O fato é que não estamos mais inseridos em tribos ou clãs que representavam toda uma comunidade — um pensamento comum compartilhado por tradições e crenças míticas e religiosas —, mas em sociedades complexas, com imensas divisões sociais, estilos de vida, instituições e tecnologias que mudam o tempo todo e possibilitam a criação de diversos mundos.
Essa “liberdade” é o extremo da utópica ética liberal que, supostamente, promete a liberdade individual, mas, paradoxalmente, nos torna cativos e lobotomizados em universos pré-programados. A capitalização da vida sequestra as nossas almas, já cedidas e vendidas desde o nascimento para uma engenharia social com vários softwares gourmetizados, encomendados para cada um de nós.
A forma high-tech mais bem-acabada da submissão voluntária aos donos do poder nos torna conectados a teias digitais, mas com uma sensação subjetiva de liberdade, bem ao estilo de O Show de Truman e Matrix, onde a onisciência, a onipresença e a onipotência estão encarnadas em um deus devorador de almas. É a nova servidão voluntária de Étienne de La Boétie.
Mesmo em uma sociedade em que as mazelas sociais aumentam as desigualdades, a xenofobia e a violência, ainda assim somos submetidos a realidades que maquiam as reais condições materiais, os danos ambientais crônicos, os conflitos culturais e os choques civilizacionais em curso, os quais podem nos levar para o precipício.
Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/images/search/algoritmos/

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