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"AS PESSOAS NA SALA DE JANTAR": O BolsoMaster, O Caso Ypê e a Lei do Boi


Quinze minutos. Esse foi o tempo necessário para Caetano Veloso e Gilberto Gil escreverem a crítica mais sofisticada e aguda à ditadura militar. Era julho de 1968 e em dezembro daquele ano, o Brasil entraria definitivamente nas trevas do autoritarismo, pelas mãos encharcadas de sangue do Ato Institucional 5 (AI-5). Panis et circenses, utilizando a estética do excesso, trouxe os “tigres soltos” e ‘o canto do sol em voz alta’. Contudo, “as pessoas na sala de jantar”, alheias a tudo isso, aproveitavam o cotidiano: comer, nascer e morrer. A canção, imortalizada pela banda Os Mutantes – com Rita Lee nos vocais, Arnaldo Baptista no baixo e Sérgio Dias, na guitarra – criou uma das experiências sensoriais mais profundas da música popular brasileira. Em dado momento, a música é interrompida e ouvimos sons de pratos e talheres, com uma voz masculina ao fundo: “me passa a salada...”. Trata-se do produtor Manoel Barenbein. A partir daí, a música é interrompida, dando a entender que houve um defeito na execução, sendo necessário ajustar o aparelho de som.


Caetano e Gil, do alto de sua genialidade, fizeram a leitura histórica adequada para aquele momento. A Ditadura Militar de 1964, sob o Marechal Humberto Castelo Branco (1897-1967), primeiro presidente eleito – de forma indireta, em um congresso com os partidos de oposição colocados na clandestinidade e seus parlamentares cassados – havia prometido um governo de curta duração, com entrega do cargo em 31 de janeiro de 1966, para eleições diretas e democráticas. O que se viu foi bem diferente: o poder foi centralizado nas mãos do presidente e as eleições estaduais e municipais estavam suspensas. O voto democrático havia sido sequestrado pelos militares e seus asseclas civis. Ao mesmo tempo, os Atos Institucionais foram demolindo, um a um, todos os vestígios de livre expressão do pensamento democrático: jornais foram censurados pela Lei de Imprensa e qualquer manifestação contrária ao regime era esmagada pela Lei de Segurança Nacional, sob os pés da palavra subversão. A Constituição de 1946 havia sido soterrada, por causa da proposital desinformação de defender o país do “perigo comunista”, representado pelo presidente João Goulart. Uma mentira descarada, haja vista tanto Goulart ser latifundiário, quanto os partidos de esquerda sequer terem força militar, tampouco planos detalhados e muito menos qualquer aproximação com a ideia de tomar o poder. João Goulart tinha sim pautas trabalhistas e a história brasileira comprova que todos os presidentes com essas diretrizes são vistos pelas elites econômicas e setores da classe média como “ameaça comunista”.


Getúlio Vargas (1882-1954), Juscelino Kubitschek (1902-1976), Dilma Roussef (1947) e Luiz Inácio Lula da Silva (1945-) até hoje são alvo do mesmo estigma. Em relação a Juscelino, essa associação entre trabalhismo e o pavor comunista é ainda mais mentirosa, dado o seu pertencimento a centro-direita. Através de uma aliança com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), fundado por Vargas, Kubitschek venceu as eleições de 1955. Tampouco os governos de Lula e Dilma são comunistas; na verdade, os programas sociais e a defesa dos direitos trabalhistas implementados por ambos levam a oposição conservadora utilizar as mídias para espalhar a inverdade de que o Brasil seria tomado por uma ditadura comunista. Longe do comunismo ser um problema, o ódio das elites conservadoras mediado pelas vozes de segmentos da classe média sedimenta o caminho para sucessivos golpes contra a democracia brasileira, como o ocorrido em 2016, de acordo com a obra A Radiografia do Golpe. Entenda Como e por que Você Foi Enganado, do sociólogo Jessé Souza.


Na atualidade, parte considerável da classe média permanece “na sala de jantar”, ou talvez na varanda gourmet, acessando a internet, para inundar as redes digitais com a farsa da “ameaça comunista”. Para eles, são os comunistas no poder os grandes responsáveis pela maior fraude financeira da história do Brasil: o escândalo do Banco Master. Eles vibraram ao ver o PowerPoint exibido pela Rede Globo, ligando o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Presidente Lula a Daniel Vorcaro, controlador e principal acionista do Banco Master. Para eles, não importa se a mesma Rede Globo, fez um pronunciamento, através da jornalista Andréa Sadi, admitindo o erro e pedindo desculpas. Necessário mesmo é assegurar os seus interesses e seguir como menino de recado das elites econômicas, sonhando com uma improvável chegada ao andar de cima. Tais setores raivosos da classe média, quando perceberam a aproximação do escândalo com a família Bolsonaro, atenderam a cortina de fumaça proposta pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro: continuar o uso do detergente Ypê, desconsiderando a determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) de recolhimento de um lote contaminado. Mesmo assim, postagens de apoio e vídeos com pessoas bebendo e tomando banho com o produto condenado pela ANVISA, viralizaram. O interessante é que a própria empresa atestou a presença da bactéria Pseudonomas Aeruginosa e reconheceu a necessidade de refazer o seu planejamento industrial, injetando R$ 130 milhões para a execução dos ajustes. Não foi suficiente para mais uma imbecilidade bolsonarista, entretida apenas em “nascer e morrer” e defender os donos da marca que doaram R$ 1,5 milhão para a tentativa frustrada de reeleição de Jair Bolsonaro, em 2022. Essa trama demonstrou como o bolsonarismo, ao se sentir ameaçado, recorreu aos mecanismos de sempre: utilizar o ódio contra um inimigo imaginário comum, para desviar a atenção dos trambiques nos quais vive atolado. A extrema direita conhece profundamente a força do ódio e sabe como utilizá-lo para engajar e manipular milhões. Nada difícil quando lembramos de pessoas orando para pneus e colocando celulares na cabeça para ter supostos contatos com extraterrestres. Menos ainda, voltar a infância para beber leite no seio materno da Ypê!



Contudo, tornou-se inviável atribuir a Lula e ao PT, as fraudes financeiras, o tráfico de influência e os desvios das previdências complementares, quando o áudio da conversa entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, veio a público. Nele, o filho de Jair Bolsonaro pediu US$ 24 milhões, aproximadamente, R$ 134 milhões, a Daniel Vorcaro, referentes ao financiamento do filme Dark Horse, uma cinebiografia da vida do ex-presidente. Esse valor, conforme Flávio Bolsonaro admitiu, não foi encaminhado para financiar o filme, antes, houve transferência para um fundo do advogado de imigração do seu irmão, Eduardo Bolsonaro. Talvez isso explique as condições precárias no set de filmagem: comida estragada, alguns atores sem registro, atraso em pagamentos, cachês com valor abaixo do mercado e até mesmo agressões físicas. Ante o claro envolvimento entre os Bolsonaro e Daniel Vorcaro, a utilização do Caso Ypê de forma a interceptar ou, no mínimo, diminuir a revelação dos impactos da intimidade entre as duas partes – quem pede R$ 134 milhões a um desconhecido? – caiu por terra. O conteúdo do áudio é gravíssimo. Piores ainda as tentativas atrapalhadas do senador de explicá-lo. E desastroso para o candidato ocultar seu relacionamento com Vorcaro do próprio partido, haja vista diversos parlamentares se sentirem desconfortáveis por não terem sido informados. Ora, se um candidato à Presidência da República não informa aos seus colegas de partido sua interlocução com um banqueiro, como confiar nele? Detalhe: tudo isso é resultado de apenas um áudio de um dos celulares de Vorcaro. Nesse ritmo, muito mais pode vir à público, quando da investigação dos outros sete aparelhos e do depoimento do seu pai, Henrique Vorcaro, preso por corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional. Em 2022, ele havia doado R$ 1 milhão para o Novo, partido do candidato Romeu Zema.


A extrema direita brasileira vai perdendo a narrativa contra a corrupção. O resultado do impacto psicológico no bolsonarismo é o constrangimento: Flávio Bolsonaro foi incisivo ao negar qualquer relação com Vorcaro, para poucas horas depois ser desmentido pela minuciosa investigação do Intercept. Em seguida, há uma fragmentação no campo da direita e ultradireita. A escolha do senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro seguiu uma trilha íngreme, até conseguir ganhar força e unificar o bolsonarismo. Porém, nem mesmo ela foi suficiente para congregar todo o campo conservador em redor dos Bolsonaro. Pelo contrário, Ronaldo Caiado e Zema demonstram a heterogeneidade desse grupo e como até aqui não se conseguiu dar uma resposta altiva a um áudio claro, no qual o senador pediu propina a um banqueiro preso por uma série de corrupções com provas iniciais robustas.


O cenário de aquecimento para a corrida eleitoral deixou “as pessoas na sala de jantar” confusas. Talvez elas estejam agora discutindo quem escolher para lutar contra Lula, “a ameaça comunista”. Caiado? Zema? Persistir com Flávio BolsoMaster, mesmo diante do áudio? Fato é que um dos sonhos dessa parcela reacionária da sociedade vai ficando mais distante: o retorno da lei 5465/68, do ditador Costa e Silva. Nela, temos a primeira legislação de cotas nas universidades públicas. Reservando 50% das vagas para agricultores ou seus filhos moradores na zona rural, fossem proprietários de terra ou não, além de 30% para agricultores ou seus filhos moradores em cidades ou vilas, fossem proprietários de terra ou não, a Lei do Boi, como o apelido indica, na prática, contemplou os filhos dos grandes proprietários de terra. Sua vigência durou até 1985. Quase duas décadas loteando vagas nas universidades públicas para as elites!


Enquanto batem cabeça “na sala de jantar” e na varanda gourmet, sempre vociferando ódio na internet em ver pobres, negros, LGBTQIAPN+ e outros grupos ocupando as universidades, as pessoas desse espaço retrógrado ainda não perceberam sua própria derrota. Independente do resultado das eleições de outubro, o mundo desejado por elas acabou. O momento histórico, apesar dos retrocessos, avança nos passos da resiliência e aceitação. A democracia venceu!


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2 comentários

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há 19 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Mais uma honesta análise do momento surreal em que nossa sociedade se encontra.

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há um dia
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Gratidão!

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