"AS PESSOAS NA SALA DE JANTAR": O pastor agressor, "chama a polícia, negra petista"...e a operadora de caixa!
- Armando Januário
- há 1 dia
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O que é verdadeiramente valioso na vida? Títulos acadêmicos, dinheiro, sucesso, poder, avanços científicos... evoluções tecnológicas? Infelizmente, vemos o cotidiano repleto de eventos nos quais a atribuição de valor passa pelo pensamento supremacista branco. Somos um país e um Estado de maioria negra, contudo, a branquitude, todos os dias, impõe múltiplas violências racistas, algumas veladas, outras, diretas e cientes da impunidade. O ocorrido na terça, 14/05/2026, é mais uma demonstração da existência de uma parcela da sociedade brasileira, sempre pronta a repetir nos espaços coletivos aquilo que pratica com seus funcionários na “sala de jantar”: escravidão!
Estamos nos referindo ao ocorrido no município de Luís Eduardo Magalhães. Um homem branco, aparentando 50 anos e se apresentando como pastor, agrediu com uma bofetada uma operadora de caixa, negra. Segundo ele, a jovem de 22 anos, “estava passando as mercadorias de forma rápida, danificando frutas e verduras”. Os colegas retiraram a moça do caixa e encaminharam ela para o escritório do supermercado. Após agredir a funcionária, o homem seguiu no estabelecimento, empacotou as compras e foi embora, como se nada houvesse acontecido. Ante as reclamações dos clientes, ele gritou: “ela [a vítima] tem que ter educação. Chama a polícia, petista”. O gerente do supermercado e a operadora registraram boletim de ocorrência. Embora tenha se apresentado como pastor, a Associação de Ministros Evangélicos de Luís Eduardo Magalhães, declarou que o homem jamais integrou a sua relação de membros.
A agressão foi capturada pelas câmeras do supermercado. A vítima, uma mulher negra, certamente trabalhando na escala 6x1, sequer foi protegida pelos seguranças, tampouco houve alguém para dar voz de prisão ao agressor. Isso mesmo: conforme o Artigo 301 do Código de Processo Penal (CPP) “qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito”. Ainda assim, ninguém fez nada, exceto gritar com o agressor.
O crime ganhou evidência quando da entrevista do presidente Lula ao programa Sem Censura. Nas palavras do mandatário: “hoje, por exemplo, a Janja estava me mostrando no celular dela, um cidadão na Bahia foi no supermercado fazer uma compra e não sei o que aconteceu que ele deu um tapa na cara da caixa, que era uma negra, e chamou de ‘negra petista’”. Lula entrou em contato com o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues. Indignado, o chefe do executivo estadual definiu a atitude do agressor como “repugnante” e afirmou que o homem foi preso pela Polícia Civil. O próprio governador manteve contato direto com o Ministério Público, e, pelo visto, as tratativas tomadas seguem os caminhos legais para a aplicação da justiça. Todavia, por que o caso está sendo investigado como lesão corporal e não como crime motivado por racismo?
O tapa desferido por aquele homem não é apenas à funcionária do supermercado. Antes, serve para os setores da classe média e das elites lembrar as outras camadas da população, sobretudo, mulheres negras, o quanto são percebidas e indesejáveis. Longe de ser coincidência, uma mulher negra foi agredida na presença de várias pessoas e nada de concreto foi feito para conter o agressor naquele momento. Trata-se de um espetáculo de racismo e violência de gênero. Se ele quisesse ter desferido mais tapas e até socos, o clima de passividade e reclamações brandas era propício. Isso demonstra que há certos corpos matáveis, enquanto outros, considerados dignos de viver, atuam na promoção do racismo enquanto uma tecnologia eficaz para promover o genocídio da população negra. Alguns, ao chegarem nesse ponto, talvez argumentem: “mas, ele não matou ela, então, não foi assassinato, tampouco genocídio”. De fato, o corpo dela não foi privado da vida física. No entanto, a subjetividade dela foi agredida. Ela conseguirá retomar o curso da sua vida? Como está o emocional de quem apanha, sob o pretexto de ‘estar passando as mercadorias de forma rápida’?
Por que ninguém fez nada? Talvez porque estejamos falando de Luís Eduardo Magalhães, uma das duas únicas cidades da Bahia na qual Jair Bolsonaro venceu as eleições de 2022. Trata-se da capital de um emblemático reduto bolsonarista, comandado pelo prefeito Ondumar Ferreira Borges Júnior ou Júnior Marabá (PP), como é mais conhecido. O fascismo à brasileira certamente encorajou a atitude do pastor, ainda mais porquanto antes do tapa, ele já havia pegado no rosto da funcionária. Uma atitude típica do fascismo: primeiro, se testa os limites da democracia com violência; quando nada acontece, as ações são ainda mais violentas. Ninguém se importou: a moça é negra, operadora de caixa e possivelmente CLT, sigla transformada em xingamento pela extrema direita.
O que estamos fazendo com a nossa libido? Pessoas como esse homem investem sua energia psíquica na ruptura de vínculos e na destruição de afetos. Destruir a civilização e pulverizar diferenças são algumas das principais metas bolsonaristas. As ações desse senhor – o qual deve se sentir ainda senhor de escravizados – são um misto de ódio que aposta na indiferença ante seu crime. Uma pessoa civilizada, de forma educada, teria solicitado a funcionária mais cuidado. Mas, para bolsonaristas, a violência é a única linguagem viável.
Em contraponto a essa barbárie, Lula nacionalizou a questão. Trouxe o fato para uma entrevista e exigiu medidas duras. Aqui, vemos quais os projetos mais uma vez disputarão o Planalto, em uma corrida eleitoral polarizada, na qual os primeiros sinais de truculência já aparecem. De um lado, o prefeito de Luís Eduardo Magalhães, até o momento, sequer emitiu nota oficial sobre o fato. O Brasil conheceu esse projeto de morte entre 2018 e 2022, quando milhões morreram pela estratégia institucionalizada por Jair Bolsonaro para disseminar o coronavírus e outros tantos foram parar na fila do osso. Em contraposição a essa necropolítica, o Brasil também conhece o projeto com pleno emprego, saída do mapa da fome e aumento da população negra nas universidades. Negra como a operadora de caixa agredida por um homem branco, que, para ele, sequer deveria estar ali, porque ‘não tem educação’, algo em sua visão racista, restrito a ele e seus filhos.
Infelizmente, a polarização é um fenômeno mundial e não deixa muitas opções para o momento histórico atual. Nas urnas, teremos pessoas como o homem agressor: fascistas, bolsonaristas e avessos à democracia. Entretanto, também teremos pessoas de pensamento progressista, lutando pela coletividade, pelo fim da escala 6x1 e contra o (trans)feminicídio. O que você valoriza? Qual o seu lado nessa luta?
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