ATAQUES À TEERÃ PODEM JOGAR A REGIÃO NUMA GUERRA SEM SAÍDA
- Miguel Pereira Filho

- há 2 horas
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"Lá estava ele, incompreensível na vazia imensidade da terra, do céu e da água,
a alvejar um continente. Pof, fazia um dos seis-polegadas; uma pequena chama
saltava e logo se apagava, sumida num fio de fumo branco, e o projéctil silvava
— sem acontecer nada."
— Joseph Conrad, O Coração das Trevas
Há quase um século e meio, Joseph Conrad descreveu, em O Coração das Trevas, uma cena que parecia saída de um pesadelo surrealista: um navio de guerra europeu fundeado ao largo da costa africana disparando suas peças de seis polegadas contra o mato impenetrável. O projétil silvava — sem acontecer nada. Conrad entendia, avant la lettre, que a violência sem propósito não produz ordem; produz apenas a gestação de mais violência. E foi a mesma obra que lhe rendeu, ao final, a imagem mais perturbadora: as cabeças dos chamados 'rebeldes' espetadas em postes ao redor da casa do Kurtz — 'uma cabeça que parecia dormir no alto do poste e ao mesmo tempo sorrir de lábios contraídos, com uma fileira de dentes brancos à mostra'. Não eram troféus de guerra. Eram a prova de que a civilização, quando despida de seus freios, revela algo muito mais antigo e mais sombrio do que qualquer 'missão' que se propôs a cumprir.
Em 20 de janeiro de 2026, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, discursou no Fórum Econômico Mundial de Davos para denunciar, com rara determinação, o fim da ordem internacional baseada em regras. Servindo-se da metáfora do merceeiro de Václav Havel — aquele que mantém na vitrine do estabelecimento uma placa com palavras em que não acredita, apenas para não se indispor com o poder —, Carney admoestou as potências médias que escolhiam o silêncio conveniente diante das intimidações das grandes potências: estamos mantendo a placa na vitrine, disse ele[1].
Não eram passadas seis semanas quando, em 28 de fevereiro, os escombros de uma escola primária feminina em Minab, na província iraniana de Hormozgan, ainda não haviam sido totalmente removidos — e com eles, ao menos 57 estudantes mortas[2] — que o mesmo Mark Carney emitiu nota apoiando a ofensiva militar coordenada dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã[3]. A placa havia mudado de posição. O merceeiro de Havel havia encontrado seu público. Conrad, ao que parece, não era apenas literatura.
Antes de mais nada, é preciso tirar o elefante da sala: minha interpelação ao debate não parte de uma visão antiamericanista, mas de tentar refletir sobre o sentido e as possíveis consequências das ações em curso. Antes de prosseguir, convém dar um pouco de contexto. Partindo do argumento muito bem definido por Alexis de Tocqueville, de que os povos sempre se ressentem de sua origem, a atual ditadura teocrática iraniana pode ter sua origem datada, grosso modo, nos resultados de intervenções estrangeiras em seu território.
O Irã, remanescente do Império Persa, é uma das três grandes civilizações da região que compreende o atual Oriente Médio e o leste asiático, junto com China e Índia. Em 1941, Grã-Bretanha e União Soviética intervieram no outrora Estado Imperial do Irã, derrubando Reza Shah Pahlavi e impondo a ascensão de seu filho, Mohammad Reza Pahlavi. Anos depois, sob a pretensa ameaça de que seria um possível colaborador da União Soviética, o regime parlamentarista sob o comando de Mohammed Mossadeq foi derrubado em 1953 por uma operação conjunta da CIA e do MI6[4], dando início ao período do despotismo nada esclarecido de Reza Pahlavi. A despeito da relativa liberdade dos costumes, o regime era extremamente repressivo com seus opositores, e só teve fim em 1979, com a Revolução Iraniana, sob o comando de Ruhollah Khomeini.
como um passo para a libertação, o vinho engarrafado pela ordem clerical logo se transformou em vinagre, dando os contornos do atual Estado teocrático que, como todo bom Estado autoritário, possui seu braço armado paralelo às forças regulares: a Guarda Nacional Revolucionária Iraniana. A despeito da modernização promovida, o regime recrudesceu e, além do grande aparato repressivo, justifica-se ideologicamente por meio da ameaça sempre tangível do Ocidente — sobretudo de seu principal preposto regional, Israel.
É o Irã que, com seus recursos, financia grupos armados por todo o Oriente Médio, compondo o chamado 'Eixo da Resistência': o Hezbollah, no Líbano; o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina, em Gaza; os Houthis, no Iêmen; e as milícias xiitas no Iraque e na Síria[5]. Teerã coordena, arma e financia essas organizações por meio da Força Quds, divisão de elite da Guarda Revolucionária, projetando influência regional sem o envolvimento direto de suas tropas.
Num contexto mais amplo, o Irã é a principal força de instabilidade da região. E embora o grande alvo sempre seja declaradamente Israel, são os demais países sunitas — sobretudo os do Golfo Árabe — os adversários históricos de Teerã. Não à toa, o atentado de 7 de outubro de 2023, patrocinado pelo Irã[6], vem na esteira da iminência dos Acordos de Abraão entre Israel e países árabes, o que isolaria completamente o Irã em sua retórica dos israelenses como antagonistas da região.
Por outro lado, observa-se que Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro israelense, construiu seu discurso de legitimidade justamente na ameaça concreta que o Irã se tornou. Objetivamente, os atuais governos de Teerã e Tel Aviv se utilizam mutuamente para justificar sua permanência — às custas de sua própria população.
A contextualização feita até aqui, embora longa, é absolutamente necessária para se compreender os caminhos que se desenham. Donald Trump e Netanyahu enfrentam uma crise interna aguda, com perda de popularidade e piora no padrão de vida de seus respectivos países. Assim, acionar a tecnologia da ameaça externa serve como muleta para desviar o foco do que realmente deveria importar. Após a catástrofe da ação do ICE, nem mesmo o asqueroso vídeo compartilhado por Trump foi suficiente para conter a reação institucional e civil ao seu governo. Assim, como quem não havia prometido acabar com as guerras e afirmara ter 'obliterado' a capacidade do Irã de criar armas nucleares[7], os Estados Unidos bombardeiam o território de outro país — quando há poucos dias representantes americanos e iranianos se reuniam em Genebra para negociar uma saída pacífica[8].
Ao falar abertamente em Khamenei, Trump fala abertamente em regime change, como falara ao se referir ao caso da Venezuela. Maquiavel, no capítulo dedicado aos principados mistos d'O Príncipe, analisou com precisão cirúrgica o problema de quem entra num território contando com apoio interno: os poderosos locais que se aliam ao estrangeiro para se livrar do governante carregam consigo expectativas que, se não satisfeitas, convertem o aliado em novo inimigo. A experiência tem demonstrado que, sem eliminar os antigos aliados ou torná-los completamente dependentes, o conquistador cultiva os germens de sua própria ruína. Também ensinava o florentino que o príncipe prudente deve cercar-se de bons conselheiros — e repudiar os aduladores — pois nenhuma virtude pessoal salva aquele que ignora a verdade de seu próprio entorno.
É muito provavelmente por sua hubris ou por não ter seguido esse conselho que Trump pode estar cometendo um erro crasso ao pensar que a morte de Khamenei abrirá espaço para a emergência de uma nova liderança mais afeita a negociar. Como a Hidra de Lerna, o regime iraniano tem demonstrado absoluta resiliência durante esses anos: cada vez que um líder é assassinado, outro assume sem muitos abalos.
Para quem atirava na cabeça de seus próprios cidadãos durante os protestos recentes[9], o regime iraniano possui enraizamento profundo dentro do aparato estatal, sendo quase impossível distinguir onde começa o Estado e onde termina a Guarda Revolucionária — a verdadeira força que manda no país, onde o conselho de aiatolás parece ser apenas uma fachada. Assim, a Guarda não parece que abrirá mão tão facilmente do poder.
A despeito dos protestos, o tal regime change não possui um candidato óbvio de oposição, porque o que une os diversos grupos que se opõem ao governo é bastante heterogêneo: sua unidade está na capacidade agregadora do 'não'. O filho do antigo monarca, Reza Pahlavi, se coloca como possível sucessor, porém não é unanimidade nem mesmo entre os que vivem exilados fora do Irã. Assim, aguarda polidamente como os príncipes descritos por Maquiavel que aguardam ter o controle do Estado pelas armas alheias. Se Pahlavi tiver visto o que aconteceu com María Corina Machado, melhor ir se conformando em ser o rei “Inês de Castro”[10], aquele que foi sem nunca ter sido.
A questão mais aguda é que retoma o paradigma maquiaveliano e está dentro do próprio governo: a chance de haver uma disputa interna pelo poder. Num cenário 'otimista', sem o bombardeio persistente e sem a saída da ameaça americana, o regime permanecerá o mesmo, só que provavelmente muito mais repressor e hostil aos Estados Unidos e seus aliados regionais. Num cenário em que Trump crie para si o seu 'Iraque particular', a possível desagregação do poder da Guarda Iraniana abre espaço para uma disputa interna que tem condições de criar ainda mais instabilidade local.
Numa espécie de moratória do fracasso, Trump e Netanyahu podem ter utilizado a agressão ao Irã atendendo a efeitos imediatos: haverá as midterms no final do ano e algo próximo às eleições para a Knesset, parlamento israelense. Com efeito, a lógica eleitoral se impõe, e na segunda-feira o preço do petróleo certamente subirá, acarretando a disparada de preços e, sobretudo, do dólar — custo real que será distribuído sobre as costas de populações que, em sua maioria, não foram consultadas sobre a conveniência dessa aventura.
O que se propõe, portanto, não é o silêncio cúmplice que Carney, em Davos, prometeu combater. É o seu inverso: a pressão das potências médias — e da sociedade civil global — por um retorno negociado ao enquadramento diplomático. O acordo firmado em 2015, por todas as suas imperfeições, era um mecanismo de contenção promissor. Seu abandono unilateral pelos Estados Unidos em 2018, sob o primeiro governo Trump[11], produziu exatamente o tipo de vácuo que hoje se tenta preencher com bombas. Com efeito, sabemos
A saída não é simples — nunca foi —, mas passa necessariamente pela reconstituição de um quadro diplomático multilateral que envolva não apenas Washington e Teerã, mas os países do Golfo, a União Europeia, a China e a Rússia. Quanto às duas últimas, o tempo parece não ser promissor. Enquanto Putin lamenta a agressão ao Irã, exercita o seu duplipensar ao não citar Kiev. Já a China, olha do litoral para a ilha de Taiwan, esperando pacientemente pela sua vez.
Com efeito, a solução passa, também, por tratar a crise iraniana pelo que ela é em sua essência: uma crise de legitimidade interna, em que o próprio povo iraniano, como demonstraram os protestos de 2023 e 2026, é o agente primário de transformação — não os caças e misseis que cruzam os céus. Intervir militarmente num momento de fratura interna não liberta um povo: paralisa sua capacidade de autodeterminação, converte o opositor em mártir e o regime em vítima. E tanto Conrad quanto Hannah Arendt sabem muitíssimo bem. Assim como a violência nunca pode ser base para a construção de nada duradouro, nem é onde se fundamenta a legitimidade do poder, o navio que alvejava o continente não produzia nada além de um fio de fumo branco e do silvo de um projétil que ia perder-se no mato impenetrável. O problema não era a pontaria. Era a o motivo antes acionar o canhão.
[1] CARNEY, Mark. Principled and Pragmatic: Canada's Path. World Economic Forum, Davos, 20 jan. 2026. Disponível em: https://www.pm.gc.ca/en/news/speeches/2026/01/20/principled-and-pragmatic-canadas-path-prime-minister-carney-addresses
[2] Ataque em escola de meninas mata ao menos 57 alunas, diz Irã. Agência Brasil, 28 fev. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-02/ataque-em-escola-no-ira-mata-57-estudantes
[3]Primeiro-ministro do Canadá apoia ataque dos EUA ao Irã e fala em impedir 'ameaça nuclear'. Jornal do Comércio, 28 fev. 2026. Disponível em: https://www.jornaldocomercio.com/internacional/2026/02/1238798-primeiro-ministro-do-canada-apoia-ataque-dos-eua-ao-ira-e-fala-em-impedir-ameaca-nuclear.html
[4]Da deposição de Mossadegh ao 28 de fevereiro: 73 anos de tensões entre EUA e Irão. Euronews Portugal, 28 fev. 2026. Disponível em: https://pt.euronews.com/2026/02/28/da-deposicao-de-mossadegh-ao-28-de-fevereiro-73-anos-de-tensoes-entre-eua-e-irao
[5]Como o Irã financia e utiliza milícias para atacar Israel e as forças ocidentais no Oriente Médio. Gazeta do Povo, 6 fev. 2024. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/como-o-ira-financia-e-utiliza-milicias-para-atacar-israel-e-as-forcas-ocidentais-no-oriente-medio/
[6]EUA e Israel atacam Irã, atingem complexo de líder supremo e país revida: o que aconteceu até agora. Terra/BBC, 28 fev. 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/mundo/eua-e-israel-atacam-ira-e-trump-fala-em-grandes-operacoes-de-combate-siga,50b85a71c09cae528223a277bfb51e1c5d5samlj.html
[7]EUA e Israel realizam ataque coordenado contra o Irã, que dispara mísseis e ataca bases em resposta.. G1, 28 fev. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/28/explosoes-teera-ira.ghtml
[8]IRÃ pede que EUA evitem "exigências excessivas" para fechamento de acordo nuclear. G1, 27 fev. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/27/ira-pede-eua-evitem-exigencias-excessivas-acordo-nuclear.ghtml
[9]Hospital no Irã registra mais de 400 feridos com tiros nos olhos em meio a repressão a protestos: 'É como um filme de guerra'. O Globo, [s. l.], 14 jan. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/01/14/hospital-no-ira-registra-mais-de-400-feridos-com-tiros-nos-olhos-em-meio-a-repressao-a-protestos-e-como-um-filme-de-guerra.ghtml
[10]Inês de Castro (c. 1320–1355) foi uma nobre galega que se tornou protagonista de um dos episódios mais célebres e trágicos da história de Portugal. Dama de companhia de D. Constança Manuel, esposa do infante D. Pedro (futuro Pedro I de Portugal), Inês viveu um amor proibido com o príncipe que persistiu após a morte de Constança 1.3.1. Devido a pressões políticas e receio da influência castelhana, foi assassinada em 1355 por ordem do rei D. Afonso IV 1.2.2. Segundo a tradição, após assumir o trono, D. Pedro I a declarou sua esposa legítima e rainha póstuma
[11]TRUMP anuncia retirada dos EUA de acordo nuclear com o Irã. G1, [s. l.], 8 maio 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/trump-anuncia-retirada-dos-eua-de-acordo-nuclear-com-o-ira.ghtml.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARNEY, Mark. Principled and Pragmatic: Canada's Path. Discurso proferido no World Economic Forum Annual Meeting 2026, Davos, 20 jan. 2026. Disponível em: https://www.pm.gc.ca
CONRAD, Joseph. O Coração das Trevas. Trad. de Editions Estampa. Lisboa: Biblioteca Visão/Abril Controljornal, 2000. [Título original: Heart of Darkness, 1902.]
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. [1513] São Paulo: Ediouro, 2002.
TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América: leis e costumes. Tradução de Cid Knipel. Porto Alegre: L&PM, 2005. v. 1.
Coluna de fumaça sobre Teerã em 28 de fevereiro de 2026. Crédito: ATTA KENARE/AFP. Disponível em diversas agências. Referência ABNT: KENARE, Atta. Explosão em Teerã após ataques dos EUA e Israel. 28 fev. 2026. 1 fotografia, color. Agência France-Presse (AFP). Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/02/28/
IMAGEM: MOREAU, Gustave. Hercules and the Lernaean Hydra. 1876. 1 óleo sobre tela, 179.3 × 154 cm. Art Institute of Chicago, Chicago. Disponível em: Art Institute of Chicago. Acesso em: 1 mar. 2026

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