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A VOZ QUE INQUIETA




Antes que eu avance na jornada que se desenha adiante, e antes mesmo que o olhar se projete para o futuro que se insinua incerto, detenho-me. Não por fraqueza, mas por reverência a uma presença inominável, paradoxalmente ausente e próxima. Em gesto solitário, ergo as mãos em direção àquele que, embora inalcançável pela linguagem e inapreensível pela razão, insiste em me habitar como um apelo silencioso. A ti, Deus Desconhecido por muitos, consagro o espaço mais íntimo do meu ser, onde, mesmo em meio à fragmentação do mundo moderno, um altar foi erigido não com materiais visíveis, mas com os fragmentos da memória, do desejo e da finitude.


O gesto de consagração não se configura como ato de fé dogmática ou entrega cega; trata-se, antes, de um reconhecimento ético e ontológico da presença do outro absoluto, esse inteiramente Outro, que mesmo velado, constitui um fundamento do existir. Como em Nietzsche, onde a morte de Deus não é o fim da experiência religiosa, mas o início de uma nova relação com o sagrado (trágica, interior, criadora), também aqui o Deus que se revela é aquele que não se deixa conhecer, mas que exige do sujeito um posicionamento. Trata-se de um divino que se aproxima mais do abismo e do silêncio do que do céu, mais da tempestade vigor do que da calmaria, mais da diversidade que da liturgia.


Sou teu, afirmo, mesmo que o mundo me identifique como um dos que negam, como um dos que zombam do mistério. Ainda que o olhar da multidão me situe entre os ímpios, ainda que as vozes da modernidade secularizada recusem a possibilidade do transcendente, sou teu. E essa pertença, longe de ser uma identidade estática, é um chamado constante à transgressão da superficialidade. A figura do Deus Desconhecido, tal como aparece na tradição nietzschiana, representa o símbolo da busca inacabada, do eterno retorno à pergunta sem resposta, da abertura radical ao mistério.


Quero conhecer-te cada vez mais intensamente, digo, não porque espero encontrar uma verdade definitiva, mas porque reconheço, como em Kierkegaard, que a verdade que salva é a verdade para a qual se vive. Não se trata de um saber teórico, mas de um conhecimento existencial, encarnado, vivido. Desejo conhecer aquele que transtorna a minha alma, que me arranca da inércia e da indiferença, que me confronta com a própria precariedade do ser. A tua mão, invisível e incandescente, penetra na profundeza da minha interioridade como uma tormenta que dilacera e purifica. És, ao mesmo tempo, o tremor e a chama, a ausência e o rastro.


Essa relação com Deus, se configura como uma ética da alteridade radical. O divino não mais habita os altares externos, mas se esconde na interioridade inquieta, na angústia silenciosa, no desejo que não cessa. És o Inapreensível, mas paradoxalmente estás próximo. Próximo como a respiração que sustenta a vida e, ainda assim, não pode ser vista. Próximo como o enigma da existência, que me constitui sem jamais se revelar por completo. És um Deus que recusa os contornos da religião institucionalizada, mas que ressurge, como Fênix, na chama da subjetividade insurgente.


Por isso, decido servir-te. Não como servo submisso, mas como sujeito ético que reconhece o mistério como condição do humano. Servir-te é aceitar a tarefa de não possuir o sentido, mas de habitá-lo como um campo em permanente construção. É reconhecer, como aponta Levinas, que o rosto do outro, e aqui, o rosto do outro divino me interpela antes de qualquer escolha. A tua voz, mesmo quando silenciosa, ressoa em mim como um chamado incessante à responsabilidade, ao cuidado, à criação.


Assim, no limiar da jornada, reconheço que não avanço só. Avanço contigo, ó Deus que não se deixa nomear. Que a tua voz continue a me inquietar. Que tua ausência seja sempre presença. Que teu silêncio seja palavra viva. Pois, ao fim, descobrir-te é descobrir-me. E nesta busca interminável, reencontro a mim mesmo, não como quem possui respostas, mas como quem ousa viver entre perguntas.



IMAGEM: Gazeta SP

4 comentários

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Renata
há 4 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Uauuuu amei

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há 6 dias

Muito belo e inspirador!

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Convidado:
há 6 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

👏👏

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Renata
há 4 dias
Respondendo a

Uauuuu amei😍

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