BAIANASYSTEM NA MÁQUINA DE LOUCO DO CAMAROTE SALVADOR: Ninguém vai dar Pitaco?
- Carlos Henrique Cardoso

- há 4 dias
- 4 min de leitura

A notícia não é nova, mas carnaval vem aí e está no âmbito da folia. Na data de 8 de janeiro de 2026, o Camarote Salvador anunciou como uma das atrações musicais do dia 12 de fevereiro, o primeiro da folia, na quinta, o BaianaSystem, que tocará juntamente com Lazzo Matumbi. O comunicado gerou algumas críticas, afinal, a banda que arrasta multidões nas ruas vai se render e se exibir pra um bando de endinheirado em um dos camarotes mais caros - se não o mais. Os preços lá variam entre 2.650 e 4.100 reais o dia! Como é que um grupo que cresceu no ativismo da luta por cidadania e direitos dos mais lascados vai se apresentar a mais de mil decibéis, virados numa goteira de muito luxo e ostentação, longe da pipocada lá de baixo? Estão caindo numa arapuca, arapuca, arapuca?
Bem, pra começar, o camarote é anualmente instalado na praça pública Luiz Sandre, no bairro de Ondina, fundado há 26 anos por Luís Eduardo Magalhães Filho, primo de ACM Neto, e sócio da Premium Entretenimentos, que administra o badalado local (a empresa é jocosamente chamada de “Primo Entretenimentos”). Há tempos o povo reclama da utilização desse espaço para montagem do equipamento carnavalesco que gera muita, muita grana. Os responsáveis pretendem movimentar mais de 200 milhões só esse ano, uma verdadeira máquina de louco. É aí nesse furdunço lucrativo que a Baiana vai acionar seu play som, abandonando seu Navio Pirata e embarcando num confortável transatântico nababesco, agradecendo merci beaucoup.
Apesar do grupo ter uma áurea underground, soube crescer e conquistar prestígio. Não apenas em Salvador, mas sobretudo no Rio de Janeiro e São Paulo possuem um público gigantesco, sempre tocando pra massa. Cada carnaval, cada festival, cada espetáculo, o cachê vai acompanhando a importância do seu ritmo absolutamente original e reconhecido. Programas de TV, campanhas publicitárias, gravações com tudo que é artista. É... A Baianasystem é grande, série A. Então, não vejo com tanta discrepância o fato de tocarem em camarote. Eles criaram fama e agora tão deitando na cama. E não vão se afastar das ruas. Depois do Furdunço - festa que os caras tomaram conta total - serão três dias na Barra e Campo Grande. No mundo cão do dinheiro, vão sem medo de errar!
Alguns conseguem manter uma norma e ficarem longe de aspirações comerciais grandiloquentes, como o Racionais MC’s, que nunca tocaram em Gugu, Faustão, e congêneres, mesmo recebendo uma balaiada de convites. Até mesmo na MTV era difícil darem as caras. Hoje em dia, Mano Brown comanda um dos podcasts mais ouvidos do país. Manteve a integridade artística e colheu frutos depois (no entanto, não sei como andam os outros integrantes...). O Ilê Aiyê também é outro grupo fiel a seus princípios em focar nos lugares propostos. O bloco nunca tocou no Circuito Barra-Ondina, nem aceitou gringo. Quem quiser que vá até eles, no Curuzu ou Campo Grande. É antes de tudo, um movimento de resistência, político, muito mais que um grupo percursivo qualquer. Outros, conseguem um público fiel, nichado, tocando anos em locais de porte médio. Não foi assim com o Baiana... carreiras se prolongam de modos distintos para um e para outros.
O vocalista Russo Passapusso se pronunciou afirmando que a apresentação vai ser “um laboratório, um experimento, um show temático”, porém “com autocrítica”. Bom, apesar das reclamações de alguns fãs, não acho que isso vá afetar a relação com o público. Rompendo essa barreira moral, provam que não há diferença entre o cotista da UFBA e o herdeiro da Guebor Toyota quando se é profissional e na rua ou no camarote, tocar pra um e pra outro são ossos do ofício. É estranho pela representatividade da banda nas suas letras críticas ao “sistema”? É. Tocar num camarote que ocupa um território popular, maximizando os lucros de quem leva vantagem sobre isso, não soa esquisito demais pro Baianasystem? Sim, embora haja regularização da administração municipal pra isso e a banda deixando de se apresentar lá não muda o cenário, e aí só com transformação democrática. Mas convenhamos também: nunca foram uma banda popular, popular, apesar de terem uma estética gueto. O público deles tem variado sim, mas sempre foi mais descolado, universitário. Jamais foram os preferidos do pião, aquele que todo dia acorda cedo pro trabalho, bota seu cordão de alho, e segue firme pra batalha.
E como vai reagir o pessoal do Camarote Salvador? Conhecem o BaianaSystem? Vão groovar suas canções? Vão berrar “invadiram nossas terras, roubaram nossas riquezas”? O saci pererê vai estar por lá pulando de uma perna só? E a pipoca que costuma mostrar o dedo médio pro camarote e pra canal de TV, vai reagir de alguma forma quando os seguirem? Estão traçando vários planos e seguir cantarolando pra poder contra-atacar? Algum plebeu da banda vai se encantar com a filha do rei? Não tenho a mínima idéia, e nem há como prever isso, até porque, minha rosa, o meu coração não é bola de cristal.
FONTE:



Comentários