CADÊ O BUZU?: O Eterno Drama da Falta de Coletivos em Salvador
- Carlos Henrique Cardoso

- 2 de jan.
- 4 min de leitura

2026 se inicia com mais um aumento de transporte. O valor da passagem aumentou mais 20 centavos e o trabalhador vai ter que desembolsar esse novo percentual pra rodar nos coletivos que vem sumindo sistematicamente em Salvador. E o próprio prefeito reconhece isso. Há algumas semanas, ele apontou que esse é o maior desafio de sua gestão. Bruno Reis disse que a redução de passageiros, aumento dos custos municipais para o setor, maior utilização de aplicativos de corrida, e ampliação das estações de metrô teriam ocasionado essa crise. Até concordo, mas isso deixa o cidadão soteropolitano em situação bem complicada. Ainda mais numa cidade com absurdas desigualdades, economicamente deficitária, e com infra-estrutura precária. Esse texto terá muita base empírica e opinativa, tentando corroborar com alguns dados.
Desde a pandemia que linhas de ônibus estão deixando de existir - isso é fato e comprovado pelo próprio prefeito. Pra ser preciso, 134 linhas foram extintas!! Sim, alguns hábitos de locomoção mudaram, porém, o sistema foi se alterando. As linhas que vinham da vizinha Lauro de Freitas pararam de circular e isso foi um baque tremendo em vários roteiros. Empresas oriundas de lá tinham uma quantidade muito maior de coletivos. Com a proibição, as linhas vão até algumas estações e de lá necessário fazer a integração. E aí vem o problema: muita gente precisa ficar subindo e descendo de buzu o tempo todo, num sucessivo embarca-desembarca pra poder chegar ao destino. Pega o buzu, desce, pega o metrô, desce, pega outro, desce... Fora a espera nos pontos! Agora imagine um bando de passageiro já exausto retornando pra casa nesse “pagodão” (“sobe, desce, sobe, sobe, desce, sobe, sobe, desce mainha!”). Cansativo demais. Com o crescente número da população idosa isso é um martírio e tanto. Lembremos também que uma das empresas do consórcio urbano faliu (a dos veículos azuis, lembram?), ocasionando demissões, imbróglios judiciais e - óbvio - menos buzão né?
Reis citou também a utilização de uber, 99, e outros como um fator importante para a diminuição dos passageiros e coletivos. Podemos concordar que sim, mas tem um agravante aí difícil de não observar. Boa parte dos nossos bairros possuem áreas dominadas por facções criminosas. Daí se pode aferir que muitos usuários apresentam dificuldades pra chamar um uber nesses locais, pois não há nenhuma garantia que o motorista vá querer se aventurar por essas regiões. Se for à noite, pior ainda. Primeiro, que reúne uma galera pra isso e o motorista do uber já fica cismado. E adentrar locais periféricos de noite do jeito que a situação está? Convenhamos... Há alguns anos, 4 motoristas de uber foram assassinados em Santo Inácio por um traficante que ficou zangadinho justamente pela recusa de alguns motoristas. Aí ele vai e mata aquele que de bom grado aceitou. Esse é um fato perene pra quem trabalha adentrando os mais perigosos locais. Recentemente, 3 trabalhadores de uma empresa de telecomunicações foram covardemente mortos por desconfiança. Como não fica o psicológico de um motorista por aplicativo adentrando um lugar dominado por gente assim???? Aí pergunto... Com poucos ônibus circulando - principalmente após às 19 horas - quem vai sair pra ver, por exemplo, a decoração de Natal no Pelourinho??? Muitos se aventuram e vão, mas que é arriscado é. E já ouvi depoimentos de pessoas que disseram que não havia tantas linhas assim disponíveis para o Festival da Virada como nos anos anteriores. Efeito da crise? Talvez. Mostra também a razão da cidade dormir mais cedo e ter uma vida noturna insignificante.
Muitas linhas que eu utilizava pra ir à faculdade foram extintas. Havia muitos ônibus que passavam pela avenida centenário que serviam pra mim. Hoje, praticamente inexistem coletivos que façam o roteiro que me servia. Fico pensando como é que a galera que mora aqui na minha área faz pra ir estudar nos campus de Ondina e Federação??? A linha “Campo Grande - Rio das Pedras” NÃO EXISTE MAIS! Lapa via centenário NUNCA MAIS VI! Os pontos por aqui (a saber, Jardim de Alah-Armação-STIEP-Boca do Rio) só andam vazios. Isso porque não tem quase mais linha alguma, como havia antes da pandemia. Piorando o cenário todo, o domingo virou dia qualquer, mas a frota continua reduzida nesse dia específico e aí o caos da escassez se evidencia notoriamente.
E aí vem outro questionamento... O prefeito citou que muitos trabalhadores passaram a trabalhar home-office e isso fez com que diminuísse o número de passageiros. Ok, pode até ser. No entanto, comerciários trabalham de casa? Camelôs? Empregadas domésticas? Diaristas? Garçons? Atendentes? Balconistas? Policiais? Numa cidade que vive de serviços, não dá pro prefeito falar uma coisa dessas! Geralmente quem pode trabalhar de casa é quem exerce atividades burocráticas, terapêuticas, e administrativas - muitos desses possuindo seu próprio automóvel ou pegando uber.
Falando em uber, o transporte por aplicativo aumentou 41% durante o mês de dezembro (aí não é nem preço de bandeira 2, é bandeira 5!!) dificultando ainda mais a locomoção por via desse modal. E quando a nova rodoviária for inaugurada lá na BR, hummmmmmmmmmmmm... aí vai ser problema! A região do Iguatemi é centro comercial, a estação intermunicipal ajuda na movimentação de pessoas e, por conseguinte, no remanejamento de coletivos naquela área. Mas com o deslocamento para outro local mais distante vai ser necessário mais ônibus pra lá, porque o metrô sozinho dará conta? São dúvidas que podem gerar um monte de interrogação sobre onde vão parar os buzus dessa cidade porque nas principais avenidas eles estão deixando de existir. E falando em sistema de transporte, como está a circulação de coletivos na suburbana sem o trem? Na Cidade Baixa, do Comércio até a Ribeira? Falo de regiões que não tem metrô e são muito distantes dos centros comerciais. Assim sendo, continua a pergunta: cadê a porra do buzu que passava por aqui????
FONTE:
https://www.correio24horas.com.br/bahia/corridas-por-aplicativo-estao-41-mais-caras-em-salvador-1225
IMAGEM: Metro1



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