CAZUZA ETERNO
- Armando Januário

- 24 de jul.
- 3 min de leitura

Algumas postagens nas redes expõem a ignorância e o ódio contra figuras inigualáveis. Durante meses, tenho observado o quanto Cazuza vem sendo atacado por emblemáticos desconhecedores da grandeza da poesia e da luta contra a AIDS deste ser humano, verdadeiro capítulo da música popular brasileira. O contato precoce com os trabalhos de Dolores Duran, Noel Rosa, Maysa, Lupicínio Rodrigues e outras grandes estrelas, levou o jovem a desenvolver o gosto pela poesia. Desde cedo, também veio o seu comportamento debochado e hedonista, resposta de uma geração ao autoritarismo e silenciamento da Ditadura Militar de 1964. Cazuza soube se servir da profissão do pai, o produtor musical João Araújo: cresceu ao redor de Elis Regina, Gilberto Gil, João Gilberto, Caetano Veloso e muitas personalidades do meio artístico. Ademais, sua mãe, Lucinha Araújo, era cantora, com três discos gravados.
Na década de 1970, Cazuza teve contato com a voz única de Janis Joplin e o rock ‘n’ roll dos Rolling Stones e Led Zeppelin. Isso viria a contribuir, para, quando do seu retorno ao Brasil, levar uma vida contracultural: rebelde, o futuro astro do rock nacional experimentou a boemia, se concentrando na arte. Fumava, bebia e transava com mulheres e homens. Detalhe: o termo “transava” ultrapassa as limitações do sexo casual. Transar, no contexto vivenciado por Cazuza, inicia pela construção de coisas boas, passa pelo ato de se conectar com alguém em um espírito de comunhão, até chegar ao significado da experiência de estar inserido em um contexto.
Na primeira metade da década de 1980, Cazuza integrou o Barão Vermelho e ao lado de Frejat, formou uma das maiores duplas de compositores do rock brasileiro. Após meia década de êxito, a amizade continuava viável, contudo, a continuidade de Cazuza na banda se tornou impossível. Brigas nos bastidores e desentendimentos sobre os rumos do trabalho desenvolvido levaram Cazuza a romper e seguir carreira solo. Pelos idos de 1985 eles deram um tempo. Pouco depois, Cazuza foi internado no Hospital São Lucas, em Copacabana, para tratar pneumonia. Ele solicitou um teste HIV e o resultado foi negativo.
Dois anos depois, ao estrear o álbum “Só se for a dois”, Cazuza realizou outro teste e o resultado, infelizmente, foi positivo. Naquele mesmo ano, ele seria internado na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, mas, seu quadro clínico continuou piorando. O jeito foi ir para os Estados Unidos e tomar AZT, no Hospital New England, em Boston. A melhora e o posterior retorno trouxeram uma mudança no estilo do cantor. Em 1988, “Ideologia” continha letras mais definitivas e forte apelo político. Sucesso aclamado pela crítica, com músicas como “Brasil” e “Faz parte do meu show” – em minha opinião, a sua canção mais perfeita –, o álbum imortalizou Cazuza.
O ano de 1989 não iniciou bem para Cazuza. Ele precisou retornar ao New England Hospital e seguir em tratamento. De volta ao Brasil, assumiu, de público, ser soropositivo, quando entrevistado pelo jornal Folha de São Paulo. Considero este o momento mais importante da sua vida: Cazuza iniciou uma campanha de conscientização sobre a AIDS. Mesmo com o avanço da doença, ele seguiu o seu trabalho e em 27 de abril de 1989, esteve no Copacabana Palace, para receber o Prêmio Sharp de melhor disco do pop-rock e melhor música do ano. Em suas palavras: “estou vivo por causa do meu trabalho”.
Recuso descrever os pormenores da morte de Cazuza e a reportagem sensacionalista da revista Veja, haja vista o mais importante é focar na grandeza de um artista que teve a coragem de levar aos seus fãs – e à uma sociedade muito preconceituosa – a necessidade do desenvolvimento de políticas públicas voltadas para a prevenção e combate ao HIV/AIDS. Mais ainda: foi ele o responsável em contribuir para humanizar pacientes soropositivos, chamando o Brasil para acolher e não para marginalizar. Após a morte de Cazuza, seus pais criaram a Sociedade Viva Cazuza, que, durante 30 anos, promoveu tratamento, prevenção e educação para crianças e adultos soropositivos. Com o avanço dos tratamentos e a redução da transmissão do vírus de mãe para filho a instituição encerrou suas atividades em 2020.
Aos críticos e caçadores de likes que não viveram aqueles tempos, deixo o conselho de Cazuza: “você não pode levar muito a sério o baixo astral, você não pode levar muito a sério a tristeza, porque a vida já é muito triste, o mundo já tá errado, a gente já sabe de tudo isso. Então, eu acho que a gente tem que... debochar é uma maneira de tá vivo, de não deixar aquele baixo astral tomar conta de você”.
FONTE:

Cazuza chocou o Brasil com sua irreverência e deboche. Ele colocou no rock nacional um tempero diferente.
Sempre fui fã do trabalho dele. E ainda sou.
Parabéns por reacender a chama mágica do poeta do rock.
Adorei!