top of page

"CHEGA DE MIMIMI": O Que é Esse Termo e Como ele Afeta seu Entorno





Mimimi é uma expressão informal e depreciativa que tende a desqualificar o relato de uma pessoa, geralmente diversa sobre suas pautas. É usada para descrever um discurso ou fala que é considerado injustificado ou pouco pertinente, por exemplo: “Ainda vamos ouvir muito mimimi sobre esse assunto” ou quando alguém diz que é tudo mimimi. O termo, que remete ao choro, é normalmente usado na tentativa de diminuir a manifestação de ideias de uma pessoa. O Dicionário online Priberam conceitua mimimi como “fala ou discurso, geralmente em tom de queixa ou reclamação, considerado injustificado ou pouco pertinente”.


Na maioria das vezes, esse termo é utilizado quando a pessoa não concorda com algo e não tem capacidade intelectual para argumentar ou quando o indivíduo é preconceituoso convicto sobre aquela pauta citada, geralmente utilizado por alguma pessoa em posição de poder ou privilégio simbólico e material, como a branquitude, o machismo ou alguém cooptado por estes fenômenos.


Em seu instagram, a atriz Zezé Motta (@zezemotta) disse que mimimi “é o nome dado à dor que dói no outro. É atestar que você ainda não teve capacidade nem empatia para entender. É você fazer uma piada e desqualificar a dor alheia. É maltratar”. A atriz continua com uma provocação “antes de você julgar algo como mimimi, que tal fazer uma análise de si e ver o motivo da dor do outro?”. A publicação foi em crítica ao então presidente da República Jair Bolsonaro (PL) que no auge da pandemia da Covid-19 criticou o isolamento social, de acordo com a ciência, visto como necessário para conter o avanço do vírus. Ele declarou “Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”. A declaração foi feita quando o país apresentava recorde de mortes diárias e figurava como o segundo país com mais óbitos no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O mesmo político no processo de campanha eleitoral em 2022, durante um debate com demais candidatos, ao ser perguntado pela candidata Simone Tebet (Na época no MDB, atualmente no PSB) o motivo de ter tanta raiva das mulheres, haja visto os repetidos ataques ao público feminino ao longo do seu mandato como presidente (2019-2022) e na sua vida pública, ele disse para Tebet parar de fazer “joguinhos de mimimi”.


Outro exemplo sobre o uso de mimimi ocorreu quando uma mulher, vítima de agressão do ex-companheiro, durante uma audiência sobre o processo de guarda do filho de ambos, foi coagida pela juíza que obrigou que a vítima encontrasse o ex-agressor, desrespeitando uma medida protetiva e minimizando a situação. Nas palavras da vítima ”Ela (a juíza) disse para eu crescer, voltar a falar com ele e parar de ‘mimimi’, mesmo tendo medida protetiva”. Observa-se neste exemplo que, embora a algoz seja também uma mulher (juíza), encontra-se em situação de poder, minimizando a dor da mulher agredida. Podemos entender que a juíza, nesse caso, foi cooptada pela lógica dominante, mesmo sendo mulher, ou seja, você pode até encontrar pessoas em posição de diversidade proferindo preconceito, ódio ou dizendo que alguma situação é mimimi. O mesmo caso ocorre com pretos e pardos que cometem atos racistas e são cooptados pela branquitude, pessoas LGBTQIAPN+ que cometem homotransfobia e assim por diante.

Mais uma situação para ilustrar o uso de mimimi foi quando um jogador de futebol declarou: “acho que no futebol tem sim a rivalidade, mas nada que parta para a violência. O futebol hoje tá muito mimimi. [...] Daqui a pouco a gente não tá podendo mais comemorar”. O jogador se refere à situação em que foi expulso de partida de futebol após fazer gestos obscenos com os dedos das mãos para a torcida adversária na comemoração do gol. O atleta foi expulso duas vezes seguidas pela mesma situação em jogos do campeonato pernambucano. Nota-se, claramente, a postura desrespeitosa e violenta, apesar dele achar que esse fato não é violência. Imagine se todos os jogadores passassem a aflorar suas testosteronas com gestos agressivos para as torcidas adversárias. Imagine a reverberação da naturalização disso para as famílias que assistem aos jogos, para as crianças que recebem a paixão futebolística de seus pais. É preciso diminuir a violência no futebol e em todos os esportes e os atletas deveriam ser os primeiros a combatê-la e não a estimulá-la.


Em todos os exemplos aqui citados, percebemos o uso do mimimi como discursos depreciativos e que tentam desqualificar o outro agente envolvido na conversa ou no tema correspondente, além de evidenciar uma falta de empatia com o sentimento alheio. A utilização do termo mostra-se presente como uma tentativa de encerrar a discussão, porém sem argumentos que enriqueçam o debate ou a sua retórica. Existem casos em que o mimimi atua como um deboche, também no sentido depreciativo. Nesse sentido, entendemos que sempre que alguém usar a expressão mimimi, você pode emitir um olhar desconfiado e prestar atenção em suas atitudes. Se você, leitor ou leitora, usa o termo mimimi, será que já é hora de rever seus conceitos? Fica a reflexão.


O termo mimimi, devido à sua utilização na sociedade, também figura no meio acadêmico. As professoras Rubiamara Pasinatto e Lisiane Oliveira apontam que no contexto político brasileiro, “especialmente a partir da eleição de Jair Messias Bolsonaro como presidente da república em 2018, houve um deslocamento de sentidos da expressão, que passou a ser usada sobretudo por simpatizantes e alinhados com a “extrema direita”, como forma de menosprezar as minorias e negar os direitos fundamentais garantidos aos cidadãos pela CF/88”. Já a pesquisadora Joana Pinto relata que a expressão mimimi “tem sido usada  com  frequência  em  espaços  públicos  online  para  relatar  ‘o  que aconteceu’ em um evento determinado identificado como racista”. Para a autora, muitos brasileiros racistas utilizaram e continuam utilizando a expressão mimimi para construir “um novo patamar  de  deslegitimação  das  demandas  antirracistas”. Podemos facilmente promover um deslocamento desse quadro racista também para todas as nuances da diversidade.


O professor Peter Pelbart aponta que o mimimi, além de ser uma forma de desqualificar grupos minoritários ou minoritarizados, como mulheres, negros, indígenas, transexuais e pobres, atua como uma arma neofascista pós-moderna em uma guerra contra tais grupos, que tem uma base supostamente marxista cultural. Entre os elementos desqualificáveis estão os que “costumávamos chamar de cultura, de sensibilidade ao sofrimento e à dor alheia, de acolhimento ao inexprimível e ao desconhecido, de coexistência com as múltiplas esferas do cosmos, de criatividade dissociada dos interesses do Estado, de invenção de novas relações amorosas, de aspiração a certa altura da vida, de anseio de tocar suas notas mais altas e desconhecidas, atingir suas intensidades inéditas, individual e coletivamente, ensejar espaços públicos em que essa abertura pudesse se sustentar”.


Quando alguém chama algo de “mimimi”, está analisando o conteúdo da crítica ou apenas reagindo ao desconforto que ela provoca? Quem ganha quando a dor do outro é desqualificada? Por que determinadas pautas são vistas como “exagero”, enquanto outras são consideradas legítimas? O uso do termo “mimimi” é uma opinião ou uma estratégia de silenciamento? Você concorda que chamar algo de “mimimi” revela mais sobre quem fala do que sobre quem denuncia? Por que discursos antirracistas, feministas, diversos, inclusivos ou de defesa de direitos humanos incomodam tanto alguns grupos? Quando alguém minimiza uma denúncia de violência ou discriminação, que tipo de sociedade está ajudando a construir?


O “mimimi” seria uma forma contemporânea de manter privilégios intactos? Estamos preparados para ouvir dores que não são nossas? Se a dor do outro é “mimimi”, o que seria então uma dor legítima? Muitas reflexões, não é mesmo? Deixe suas impressões nos comentários!



Referências:


PRIBERAM. Mimimi. In: PRIBERAM. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/mimimi. Acesso em: 05 jan. 2025.

Instagram @zezemotta em 05 de março de 2021.

 

PORTAL G1. 'Chega de frescura, de mimimi': frase de Bolsonaro repercute na imprensa internacional. Mundo. 05 mar. 2021. Disponível em:

 

GALVANI, Giovanna; BIMBATI, Ana Paula. Perguntado sobre ataques a mulheres, Bolsonaro fala em ‘joguinho de mimimi’. Uol - eleições 2022. 28 ago. 2022. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2022/08/28/jair-bolsonaro-simone-tebet-debate-presidencial.htm. Acesso em: 03 jan. 2025.

 

BORGES, Cauan. Mulher relata que juíza obrigou encontro com ex-agressor: ‘parar de mimimi’. Band News. 17 dez. 2024. Disponível em:

 

PASINATTO, Rubiamara; OLIVEIRA, Lisiane. ‘Chega de [...] mimimi”: o funcionamento discursivo da expressão e seus efeitos de sentido no Twitter. Linguagem em (Dis)curso, Tubarão, SC, v. 23, 2023, p. 04.

 

PINTO, Joana Plaza. É só mimimi? Disputas metapragmáticas em espaços públicos online. Interdisciplinar - Revista de Estudos em Língua e Literatura, São Cristóvão-SE, v. 31, n. 1, p. 221–236, 2019.

 

PELBART, Peter. O mimimi como categoria biopolítica. Cadernos de Subjetividade, [S. l.], n. 20, 2020. p. 101.

 

Referência da imagem: Imagem criada com uso de Inteligência Artificial

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page