CHICO, WENCESLAU E BROWN

Um canal de comunicação é o texto e este é vida. Atualmente um texto e a vida vão sendo socializados via rede social e mundo presencial, sem nenhuma separação, ganhando o mundo, assim é mais amplo que uma mensagem numa garrafa atirada ao mar por um naufrago. Não somos náufragos, mas estamos no mar e atentos, pois “navegar é preciso, viver não é preciso.” Chamamos atenção que aqui a relação não é de necessidade, mas de precisão.
Nesse entendimento, talvez devêssemos trocar todo o vivido em miúdos, mas podemos ouvir Chico quando ele canta:
“Trocando em miúdos pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças”
Chico está sempre dizendo algo, mesmo diante do já dito, do já experenciado. Deixamos marcas de amor não só em nossos lençóis, mas na nossa vida e também na vida dos outros que nos conheceram. Mas, “para onde vai o amor quando o amor acaba?”, ou ainda vê se tem no almanaque “como é que termina um grande amor?”
Nesse almanaque da vida ninguém tem resposta “pra que tudo começou?”, nem mesmo quando tudo acaba. Nosso “almanaque” são as nossas lembranças, todas elas! Tudo devidamente selecionado entre a memória e o esquecimento. Guardamos em nossa memória tanto os prazeres como também as dores. Os prazeres dos encantos e das viagens, inclusive as vagas, das risadas e das dores, dos sofrimentos e lamentos, brigas, lambanças e mudanças.
Tem muito do esquecido, e nesse esquecimento está o resto, que é o inesquecível. Nesse resto, que se pode entender como sobra, e apesar disto poder parecer pejorativo quero deixar nítido e distinto que não é. O resto é um tempo que Paulo definiu em Romanos 11.7 assim dizendo: “...no tempo de agora se produziu um resto.” O resto não é uma porção ou uma quantidade. O resto é um todo e é uma parte do todo ao mesmo tempo, sendo também aquilo que impede as divisões, ou a vida em caixinhas, ou seja, aquilo que impede que as partes e o todo possam coincidir consigo mesmas. O tempo é do agora, que é o único real, e neste não há senão um resto.
O que está aqui expresso é um movimento, que em filosofia denominamos de tautegórico, ou seja, o movimento que reenvia algo ao seu mesmo ponto de partida. No sentido atribuído por Nietzsche tem-se o eterno retorno. Do ponto de vista científico entendo que não voltamos a viver tudo como já foi vivido, entretanto do ponto de vista filosófico-existencial e como se perguntassem se se viveria o vivido tal como foi experienciado ao viver? A resposta seria: viver o que se vive foi o que importou ter sido vivido, portanto, viveria, retornaria mil vezes a viver a experiência de viver o que se viveu. Esta é uma possibilidade entre as possibilidades.
O tempo do agora, esse resto é o de continuar atendendo ao chamado, “kaleo”. Paulo, faz essa abordagem em 1ª Coríntios 7.17: “Para o resto, a cada um como o Senhor deu como sorte, cada um como Deus chamou assim caminhe.” O chamado é tal como uma vocação, assim nos provoca a teologia da tradição luterana. Nessa compreensão, re-significada pelo movimento tautegórico, ou ainda pelo eterno retorno nietzschiano, o que se tem é um chamado do chamado, ou seja, chama a nada e em direção a nenhum lugar, ou melhor, ao não-lugar, à utopia de uma vida, a vocação é a revogação de toda vocação. Sejamos assim vocacionados, entendendo o que cantou e nos encantou Flávia Wenceslau:
“E quem duvidar
Que pergunte ao canário
Que é quem sabe do itinerário”
Que cada um possa ter seu passarinho, seu canário libertário que ajuda no itinerário e assim cada um possa viver aquilo ao qual foi vocacionado, pois a vocação não é um direito, não é também uma identidade, é pois uma vontade de poder, que se usa na vida sem que jamais se seja titular. Essa titularidade é definida pelo ser humano indestrutível que é, podendo ele ser destruído infinitas vezes. Não há uma essência humana a ser destruída ou re-encontrada, pois o ser humano é um ser que falta infinitamente a si mesmo, sendo assim, ele é o infinitamente destruído, portanto, de toda a destruição sempre resta alguma coisa, e nesta destruição que o ser humano é esse resto.
Já trocamos miúdos e graúdos também e as sobras de tudo que fomos nós. Agora, o que nos resta? Viver a vida sem arestas. Quanto a você, ficarei com a linguagem da poética de Wenceslau pois “Eu te desejo a paz de uma andorinha/ No vôo perfeito contemplando o mar/E que a fé movedora de qualquer montanha/ Te renove sempre, te faça sonhar” Quanto a mim ... seguirei o canto do itinerário do canário, “eu vou nas asas de um passarinho ... eu vou nos beijos de um beija-flor ... no tic tic tac do meu coração ... renascerá ... no tic tic tac do meu coração ... Renacerá!”
Que a Benção da Divindade na vida e pela vida esteja e seja com cada um/a de nós!
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Imagem gerada por IA.


a vida passa sempre depressa, e leva consigo momentos, pessoas e fases que jamais voltarão. mas, mesmo com o tempo seguindo seu caminho, algumas lembranças permanecem guardadas no coração. sao sorrisos, os abraços, as conversas e os pequenos momentos que fizeram parte da nossa história.
Maria Victoria De Jesus Santos
A partir da riqueza do texto me veio à mente aquela musica de lulu santo "nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia... tudo passa, tudo sempre passará". Ao partir desta perspectiva, o "resto" seria o fragmento do indissolúvel daquilo que o tempo, com sua impiedade cronológica, cristiliza em nós, nos convidando a viver novas experiências as quais, penso, que jamais serão possíveis de serem repetidas, como ensina Heráclito. Sob uma dimensão ontológica, entendo que a vida destroi nossas certezas fixas, deixando apenas a espinha dorsal das experiências inesquecíveis. Assim, percebo a proposta do texto em deslocar o problema do tempo físico para a postura ética e existencial. Sim, o movimento tautegórico (e não alegórico),…
Todo aprendizado acontece enquanto cultivação do resto.
O aprendizado decorre da retenção, da assimilação e da fixação de um miúdo em relação a um todo graúdo, que foi a experiência propriamente dita.
Ao mesmo tempo que o aprendizado não é o todo de onde surgiu, ele é um todo em si mesmo, e eu entendo que é isso que expressa a reflexão do autor nesse texto, quando o mesmo comenta isto daqui:
"O resto não é uma porção ou uma quantidade. O resto é um todo e é uma parte do todo ao mesmo tempo, sendo também aquilo que impede as divisões, ou a vida em caixinhas, ou seja, aquilo que impede que as partes e o todo possam coincidir…
A vida que circula livre, sem separação entre o mundo virtual e o real. Somos navegantes onde navegar é indispensável , não por necessidade, mas por opção e sentido. O "resto" que fica não é o que fica, mas o fundamental, o que permanece além dos altos e baixos da vida, aquilo que nos faz quem somos. Reviveríamos o que vivemos, pois o mais importante é o que se vive e aprende. A vocação não é uma sentença definitiva, ela é dinâmica, envolve confiança no próprio caminho, como o canário que sabe o itinerário. Somos seres em constante reconstrução, transformação. Que vivamos sem medo, em paz, deixando marcas de amor e sempre dispostos a recomeçar .
A instância entre viver e remendar-se ao que resta daquilo que se vive, mesmo sabendo que não teremos todas as experiências, que não seremos todas as pessoas, que não seguiremos todos os caminhos que são destinados a nós... mas todos nós somos vários mundos, e vários mundos que dialogam com outros mundos.
A ideia do "resto" é forte. Ela tira o resto da ideia de sobra, e a transforma em centro. O resto é o que sobra da destruição, mas que impede que nós nos fechemos em nós mesmos para esconder quem somos e quem queremos ser. É o agora.
Sobre a vida, basta cultivarmos quem somos para que possamos florescer, e até o que foi julgado como erro, servirá…