COMEMORE! PORQUE VOCÊ MERECE A VITÓRIA CIDADÃ E DEMOCRÁTICA QUE CONQUISTOU.

Cristiane Souza*
Vencemos! O campo popular, progressista e democrático invadiu as ruas e as redes nos últimos quinze dias movidos por uma vibrante e intensa mobilização para fazer sua vontade soberana eleitoral pelo candidato a presidência que queriam, pelo representante político que lhes asseguraria direitos arduamente conquistados, pela soberania do país que amam (e que o adversário político da extrema direita prometeu oferecer de bandeja a gringos), por seu orgulho como brasileiros, especialmente os nordestinos (que foram duramente atacados e ridicularizados pela extrema direita) e que foram fundamentais para a vitória nas urnas.
Uma vitória lindíssima que se espalhou pelos quatro cantos do país em manifestações gigantescas, fantásticas, puxada por jovens maciçamente, mas logo em seguida contou com a participação de adultos, idosos, crianças levadas por seus pais, que formaram cenas inesquecíveis que foram gravadas nos anais da história republicana recente do país e também do resto do mundo. Sites,blogs, revistas virtuais e impressas, jornais virtuais e impressos, tevês comerciais e canais pagos, todos mostraram as cenas (nem sempre em igual proporção), canais independentes no YouTube, etc.
Não foram os partidos a convocar, não foram os movimentos sindicais tampouco, nem nenhuma instituição ou coletivo, foi a massa da população, organicamente, indignada e assustada com a perspectiva da extrema direita autoritária ascender ao poder (o candidato extremista havia saído na frente no primeiro turno), que resolveu reagir, inundando as ruas, avenidas, praças e cidades brasileiras, de todos os tamanhos, com caminhadas, motociatas, carreatas, danças, batucadas, caminhões elétricos rudimentares, fanfarras, todos empunhando faixas, bandeiras, cartazes com frases combativas e de protesto, palavras de ordem, produzidas em casa, em cartolina, papelão, papel pardo, de todas as cores e tamanhos. Tudo isso compondo um registro épico da festa da democracia e cidadania brasileiras. Dezenas de analistas políticos e jornalistas consideraram um dos eventos políticos mais estrondosos desde a redemocratização em 1989, pós promulgação da Constituição Cidadã.
Tendo em vista o resultado das eleições no primeiro turno, dando vitória em número para o candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, de pauta antipopular, antiprogressista, antidemocrática (de teor, fervor e intenção golpista), o êxito final no segundo turno, do campo progressista, foi arrebatadora. Podemos considerar que esse fenômeno fantástico que aflorou, puxado por estudantes universitários e secundaristas (e abraçado pelo resto da população) - não foram convocadas por partidos, nem lideranças políticas, nem lideranças burocráticas - foi fundamentalmente importante para o triunfo da democracia liberal.
A multidão que tomou as ruas brasileiras foram movidas pelo espírito cidadão em plenitude com seu direito eleitoral ao voto, à manifestação política, direito de lutar por nossa constituição plenamente cidadã, numa espécie de sentimento “aqui tem muito em jogo, vamos lutar”, num apoderamento do verdadeiro patriotismo, organicamente organizado, energizante, circular, gigante, numa onda vermelha (cor do partido do candidato de centro esquerda Lula da Silva, pelo qual todos lutavam para reeleger), na busca pelo exercício da cidadania, pela manutenção do poder coletivo na construção das lutas coletivas. Essas manifestações produziram milhares de vídeos para a internet, um mais simpático que o outro, que foram curtidos, compartilhados, salvos e enviados a centenas de milhares de seguidores, perfis anônimos, gente comum, que transformou-se numa imensa confraternização pela cidadania e pelo afastamento da possibilidade de um possível regime autoritário pretendido pelo candidato de extrema direita. Houve analistas políticos que asseguraram que certamente eleitores de centro, centro-direita e direita, mudaram de seu voto mediante o arroubo democrático que viram nestas manifestações e um possível afastamento do bolsonarismo, tido como um espectro político defensor do ódio e da violência, de mudanças na constituição, do armamentismo, dos ataques às instituições, bem como a pauta moral exacerbada, inflexível, não inclusiva, radical.
Por outro lado, a performance do candidato Flávio Bolsonaro não ajudou muito sua tentativa de vencer a eleição. Nos dois debates televisionados que participou com o candidato Lula, expôs etarismo, xenofobia, capacitismo e minimizou um crime contra uma criança de 5 anos. Também deu entrevistas desastrosas nas quais manifestou parte de suas intenções golpistas, numa delas afirmou que “revisaria a constituição” e iria “redemocratizar o país”. Como, se já somos uma república democrática estabelecida (perseguida e ameaçada, mas consolidada) reconhecida no mundo todo, com toda sua institucionalidade funcionando? Seria uma nova ameaça ao nosso processo democrático, como fez seu pai, Jair Bolsonaro em 2022, quando perdeu as eleições e tentou um golpe de estado e está preso por isso?
Ajudou muito, não restam dúvidas, o comportamento desumano, cínico, tirânico, desdenhoso do candidato Flávio Bolsonaro, especialmente publicamente, nas entrevistas e debates. Fora a divulgação parcial de seus supostos “projetos políticos” para o Brasil, que provocaram susto em entidades, instituições, imprensa, cidadãos. Em uma dessas entrevistas chamou o benefício social “bolsa família”, dos mais populares e importantes para a população de baixíssima renda, de bolsa farelo. Isso indignou milhões, gerando repercussão negativa imediata. Em outra ocasião disse que uma capital brasileira, Belém, no Pará, cheirava mal, numa flagrante demonstração de xenofobia.
Novamente, num debate, ele foi hostil com o candidato Lula da Silva - de 80 anos - quando ridicularizou o fato dele ter um dedo a menos em uma das mãos (decorrente de um acidente de trabalho quando jovem), bem como insinuou que o candidato não ouvia direito, incutindo a ideia de que era velho, deixando claro tanto seu capacitismo, quanto seu etarismo, veiculados em rede nacional televisiva com 40 milhões de telespectadores. No último debate foi confrontado sobre sua defesa de um acusado de matar uma criança de 5 anos (na porta de sua casa enquanto brincava) , com fortes evidências do crime com flagrante e, com a mãe da criança na plateia, dirigiu-se às câmeras chamando a mãe pelo nome da vítima, em outra clara demonstração de descaso, frieza, desumanidade.
A questão das redes sociais, especialmente as redes do conglomerado da META, do biolionário Mark Zuckerberg, chamou a atenção do mundo inteiro pela evidente manipulação algorítmica, distorção dos dados, favorecimento do engajamento ao candidato de extrema direita, em detrimento do candidato de centro esquerda, Lula da Silva, configurando uma interferência externa, portanto ilegal e antiética, das bigtechs, na democracia brasileira. Por suas redes (facebook, instagram e whatsapp) a Meta propagou uma profusão de desinformação e mentiras ininterrupta que flagrantemente ajudaram a eleger o ex-presidente Jair Bolsonaro e agora quiseram favorecer seu filho, Flávio.
O algoritmo da Meta limitou a conta de Lula da Silva, recomendou a conta de Flávio Bolsonaro. No whatsapp o canal do candidato Flávio aparecia em buscas relacionadas ao candidato Lula. Sendo que recomendações de candidatos é proibido pelas regras do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A Meta negou o favorecimento político, assume apenas “falhas técnicas”. Houve denúncias de que a Meta tratou os candidatos de forma diferente, quando, por exemplo, pedidos com “Lula 13” eram recusados e pedidos com “Flávio 22” produziram imagens. A meta relatou ter resolvido esse problema imediatamente e que não tem viés político. Noutra situação, a conta de anúncios do presidente Lula na plataforma Facebook foi desabilitada dias antes do primeiro turno, embora tenha sido normalizada no mesmo dia sem alegação do motivo.
Ressalte-se também a força do aparato tecnológico dessas grandes redes de internet, as fazendas de bots contratradas para a divulgação em massa de fake news, fora apoios de extremistas famosos de direita como Donald Trump, dos EUA e Javier Milei, da Argentina, ambos aliados do projeto de poder autoritário, anti-democrático e falsamente “anti sistema” de Flávio Bolsonaro, que ainda sustenta em suas costas acusações graves de corrupção, lavagem de dinheiro, desvio de verba pública, dentre outros. Escandalosamente suspeito foi uma publicação do aliado do candidato extremista, o deputado Nikolas Ferreira que alcançou um número estratosférico de curtidas superando a de artistas e jogadores de futebol famosos mundiais, em milhões, numa suspeitíssima ação de “governança algorítmica”.
Nesse ínterim, vários perfis do campo da esquerda foram restaurados após reclamações públicas, sendo que outros não tiveram a mesma sorte e não conseguiram restaurar suas contas, numa evidente amostra de desigualdade digital, ou seja, aqueles que têm grande visibilidade alcançam resultados por pressão, mas os que não têm essa visibilidade são ignorados. Perfis que denunciam abusos de bigtechs promoveram campanhas de protesto, instigando seguidores a fazerem denúncias dos abusos cometidos; uma dessas campanhas chamou-se “Tira a mão de nossa eleição”, cobrando transparência nos dados e revisão por humanos das queixas e protestos. Muitas dessas denúncias apontaram perda de alcance de contas, restrições às funcionalidades dos aplicativos ou até banimentos.
Por sua vez, o campo democrático reagiu, incendiando o país, com a criação de uma eufórica campanha virtual promovida pelo deputado federal André Janones, que incentivou e criou o “Exército de Lula” no aplicativo de mensagens whatsapp, inicialmente pensado para conseguir 400 mil seguidores, só que o entusiasmo tomou conta da população e gradativamente foi crescendo exponencialmente e alcançou a estrondosa cifra de 10 milhões de pessoas. O canal “Exército de Lula” pretendia essencialmente publicar mensagens diretas do próprio Janones aos participantes, com “guias”, “tarefas”, “comandos” para atividades diárias através das redes sociais e na vida real; dentre elas: levantar hastags, publicar apoio ao presidente Lula, fazer vídeos simples, sem ferramentas muito técnicas, de cunho pessoal declarando o motivo de apoiar Lula, apoiar os perfis de esquerda, ajudando-os a engajá-los melhor nas plataformas (curtindo, comentando, compartilhando, salvando os conteúdos). Essa estratégia tornou-se vitoriosa pelo engajamento popular orgânico da militância de esquerda, e vovôs e vovós, e tios e tias, gente das cidades, gente da zona rural e milhares de outros anônimos que se engajaram no projeto, configurando uma intensa atuação dos militantes pró-direitos e garantias institucionais democráticas.
Esse movimento foi uma ferramenta substancial para incutir esperança, renovação do espírito combativo, promoção da radicalidade de um sujeito coletivo que voltou a acreditar ser capaz de tomar em sua mão a construção de mudanças e realizações para sua vida e dos demais, afirmando sua participação ativa e a defesa dos projetos políticos em que acredita, mobilizando os participantes na conquista de busca de votos necessários para o campo progressista ganhar o segundo turno das eleições, num autêntico sentimento de patriotismo rejeitando a interferência estrangeira, sonhando com uma agenda para o país onde os direitos conquistados não lhes fossem tirados, como pretendia e ameaçava o candidato da extrema direita, apontando para uma busca de saída coletiva às inúmeras demandas populares.
A mobilização só cresceu com o passar dos dias - durante cerca de 20 dias - às vésperas das eleições do segundo turno, em manifestações cada vez maiores e mais intensas e em maior quantidade pelo país, nas ruas e nas redes, incendiando o Brasil e extasiando o resto do mundo. O L de Lula feito com os dedos das mãos, na mão espalmada, tornou-se símbolo de luta pela estabilidade democrática, pela luta pelos direitos sociais, pela efervescência popular e progressista.O Brasil esperançou, não aceitou virar quintal de ninguém (como proferiu o presidente Lula da Silva num discurso). “Os poderosos podem matar uma, duas, ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a chegada da primavera”, foi o sentimento de 64 milhões de eleitores brasileiros que deram a vitória no segundo turno a Lula da Silva, comemorado não só no país mas em todo o mundo do campo progressista e social democrata.
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