COMO AS TECNOLOGIAS MUDARAM A VIDA DOS IDOSOS? SER "NOLT" É A NOVA TENDÊNCIA?
- Autor(a) Convidado

- 6 de mai.
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*Cristine Souza
Envelhecer, um dos tabus do século, quiçá não tenha sido de todos os séculos (lembremos dos mausoléus e outras maneiras - estátuas, urnas, quadros, etc - de venerar os mortos sem registrar seu declínio físico). Mas embora tenhamos conquistado gradativamente melhores condições de vida e longevidade em geral, aparentemente ainda não aceitamos bem o acúmulo de idade - cronológica - com leveza e com naturalidade, como consequência natural de estarmos vivos.
Quem ousa envelhecer hoje?
A cultura e a sociedade jogam pesado, por assim dizer, com dois lados supostamente opostos das nossas vidas, ora negligenciando, desprezando e invisibilizando os mais 50 e 60, ou, cada vez mais idolatram, endeusam, cultivam a juventude como nosso único momento auto-realizável, embora estes mesmos jovens sejam pressionados a produzir performances, gerenciar metas inalcançáveis, superar planilhas de desempenho, etc (em academias, estúdios, com personal trainer, caminhadas, dentre outras modalidades); seja aumentando o peso carregado, o número de exercícios, a quantidade de treinamentos, etc. Enfim, a vigilância dos corpos continua a todo vapor e, recorrendo a Foucault, um bio poder nos controla e vigia, aqui no caso, a indústria cultural, e nossos corpos precisam estar adequados às suas determinações.
De um lado, os 50+, 60+ tentam buscar o respeito básico por sua existência, e do outro, a juventude é pressionada a performar continuamente para dar conta das exigências sobre sua existência, do que lhes é esperado: vigor, beleza, flexibilidade, elasticidade, o “estilo de vida” sobrepõe-se e aprisiona jovens e adultos jovens, peremptoriamente. Ultimamente, aqueles considerados de “maior idade” também resolveram adotar seu próprio estilo. Vale ressaltar que estas novas decisões estão ligadas àqueles com maior poder aquisitivo, é um ideal ainda longínquo aos que precisam essencialmente preocupar-se com a sobrevivência e manutenção restrita das necessidades de suas famílias, infelizmente, tendo em vista que o aumento da qualidade de vida deveria ser possível a todos, pois equipamentos, ferramentas, acessórios, prestadores de serviços voltados a um salto no bem-estar de vida têm custos e muitas vezes altos.
Acontece que após a “revolução” no incremento da capacidade de diagnóstico precoce de problemas de saúde, oferta cada vez maior de especialidades diversas e o aumento da expectativa de vida nessa faixa etária, a “terceira idade” agora aposta em novas alternativas a fim de aprimorarem suas vidas. Pessoas de 50, 60, 70 anos, foram, por centenas de anos relegadas a um tipo de lugar de “reclusão”, ao esquecimento, quase à invisibilidade, às pausas e silêncios desconfortantes e desconfortáveis, pois não eram bem-vindos ou celebrados em espaços e sociabilidades mais dinâmicas e vivazes. Muita solidão esteve presente (e ainda está) com muita assiduidade na vida dessa população. Mas as coisas têm mudado, estão e continuam mudando e após muita evolução envolvida, tornou esse fato diferente nos dias atuais.
A melhor idade, terceira idade, seniores, o longevo, velho, pessoa mais velha, são denominações (dentre outras denominações bem pejorativas) para o idoso - aquele que atingiu os 60 anos. Mas o envelhecimento mudou. A narrativa sobre envelhecer tem deixado de ser considerada algo deficiente, ruim ou um problema que precisa de conserto. É a trajetória natural da vida, de todos, para todos nós. No contexto da medicina tivemos excepcionais avanços - cientificamente e socialmente - inclusive com a criação da especialidade geriatria, que atende exclusivamente idosos pelos profissionais geriatras. Na sociedade, o etarismo - preconceito por causa da idade - constrange pessoas mais velhas em inúmeros aspectos e situações do dia-a-dia, e alcançando questões como profissão, sociabilidade, personalidade.
Desde 2003, foi criado (para o grosso da população) o “Estatuto da Pessoa Idosa”, para assegurar uma política pública apropriada e direcionada às pessoas idosas (que é a atual denominação oficial) que visa assegurar direitos diversos básicos, dentre eles: transporte gratuito público, descontos em transporte particular - assentos especiais em ambos - prioridade em atendimentos como no SUS (Sistema Ùnico de Saúde) e no sistema jurídico, lugares especiais nas filas em inúmeros setores, facilitação para pagar dívidas, direito a um salário mínimo a partir dos 65 anos a famílias de baixa renda, descontos em áreas de cultura e lazer, recebimento de remédios gratuitos. Bem como lhe são fornecidos proteção em casos de abandono familiar, maus tratos, discriminação. Os direitos humanos chegaram à população idosa tardiamente, mas chegaram, e a busca de efetivação desses benefícios segue intensa.
Vemos que o fator “envelhecer" prosperou, não é mais visto unicamente como “fim da vida”, não é considerado necessariamente “fracasso” pessoal (!?). Setores da coletividade já desmistificaram esse fato consequente da vida, reduziram-se a avalanche de preconceitos, a longevidade, embora ainda fator estressante e até assustador para muitos, abarca também aqueles que a acolhem com naturalidade, tranquilidade, serenidade. Como acontecimento biológico (complexo, com nuances) da vida de todos, cada um de nós, deveríamos - sustentam os especialistas - tratar com aceitação, compreensão, conciliação e uma condução sensata dos processos envolvidos neste fenômeno natural. Uma tentativa de mudança discursiva contra a corrente do autoritarismo da parte da indústria cultural odiosa do envelhecimento.
A indústria cosmética, a medicina, a indústria farmacêutica, obtiveram resultados impactantes ao atrelar mais permanência via “cuidados” anti-envelhecimento (anti-rugas, anti-flacidez, anti impotência, etc) empurraram aos mais longevos ( com poder aquisitivo) a preocupação cada vez mais crescente com o apogeu de suas vidas, ao retardar essa transição biológica o mais possível, ou melhorar drasticamente seus efeitos: cirurgias plásticas, aplicação de botox, uso de viagra, polivitamínicos +50 diários, dentre tantos outros procedimentos e recursos que estes setores buscam proporcionar. Acresça-se logicamente o “apoio” da mídia, as redes sociais, a publicidade, que seguem velozmente e vorazmente nessa “guerra” contra a maturação etária a que nós estamos sujeitos, gerando conteúdos e venda de produtos e serviços, inclusive ao lançar novas nomenclaturas, como o atual conceito de NOLT.
A sigla - NOLT - do inglês New Order Living Trend, apresenta-se como uma nova modalidade de encarar a maturidade pós 50 anos, em sua essência, como parte natural da vida. Sustentam não ser mais um modismo passageiro, mas uma maneira de manter a dignidade de enxergar esse período não como limitante, como a chegada do fim, pelo contrário, deve-se assumir sua trajetória, seu legado, toda uma vida de experiências e que o envelhecimento físico não está atrelado necessariamente a envelhecer o espírito. A proposta é assumir autoridade sobre sua própria história e encará-la não como uma finalização, e sim uma expansão de si mesmo, uma nova mentalidade sobre o momento vivido: sem pânico, com leveza e até abertura a novas paixões, sem oportunizar arrependimentos, obrigações, ou tentar suprir expectativa alheias irrealizáveis.
Quem estuda esse novo longevo diz que este vai aprender a usar novas tecnologias, uma nova língua, dança, ou outra expressão artística, voltar a estudar, viajar o mundo, ou até iniciar uma nova carreira ou negócio, talvez frequentar academia (sem o peso da cobrança, da exigência da indústria cultural por corpos magros, atléticos, vigorosos) em busca de repaginada do corpo e mente, ou simplesmente manter-se ativo, firme e forte sem dever satisfações a ninguém, só a si mesmos, recomeçando por seus próprios e genuínos termos, desejos e interesses. Não querem desmerecer as bagagens acumuladas, o reiniciar é por sentirem-se bem consigo mesmos, tendo auferido tudo o que se puseram a conquistar. Estão felizes e plenos.
As jornadas do NOLT foram construídas, e poderão ser iniciadas novas jornadas se para eles fizer sentido. Não dramatizam as cicatrizes, e não fazem delas suas muletas de vida; foram importantes para sua formação sim, só que sem travá-los ou funcionarem como âncoras que os prendem ao chão fazendo-os parar, estacionar. Para os entendidos, o NOLT não resiste ao tempo, teimando em não enfrentá-lo, não querem aparentar mais juventude, querem assumir o controle do tempo com sobriedade, fazendo-o acontecer e não apenas passar, ocupando-o com a energia vital que ainda está ali, uma continuidade. Será uma tendência, como tantas outras que irá passar? Seria o momento oportuno tendo em vista o envelhecimento do povo brasileiro, cada vez mais crescente, e a infeliz estatística de casos positivos de déficit cognitivo e demência que vêm na sequência? Será o fenômeno NOLT apenas outra narrativa de negação da velhice? Será por engajamento em redes sociais?
Esta pequena parte da população - que não depende de políticas públicas para usufruir de benefícios específicos - alega que esta nova mentalidade perante a vivência pessoal ao adentrar os 50+ anos é o usufruto de mais autonomia, protagonismo, longevidade ativa e produtiva - para si mesmos - como atitude perante a vida, não são performances para terceiros e estranhos, desconexas da realidade, não almejam o apelido de superidoso, não é apenas um “estilo de vida”, querem estar conscientes, produtivos, vivos com plenitude, querer propósito, aprendizado, projetos, vida social qualificada (não minguada, ou quase invisibilizada), mudar de rumo parcial ou totalmente se quiserem, manter acesa a curiosidade e reinventar a permanência, rejeitar a obsolescência.
Por outro lado, críticos especulam se isto não seria um novo rótulo que pretende esconder a vergonha pelo envelhecimento, fugir da textura das rugas, escapar da fragilidade óssea, Fogem para não parecer velhos? Fingem algo que não são? Agem estapafurdiamente, desesperados por não mostrar quem são? Seria o fenômeno um reforço do etarismo? Será que tentam disfarçar sua condição? Querem ser aceitáveis não parecendo velhos? O conceito-ideia NOLT fará outras múltiplas velhices serem ridiculariza das ou silenciadas? A importância dada aos que acolhem ser Nolt, substituirá possíveis políticas públicas - para essa faixa etária - reduzirem ou sumirem? Há uma hierarquização evidente no fenômeno? Devemos dar mais evidência ao ressignificado do envelhecimento em oposição aos novos rótulos? Estaria então o “superidoso”, o Nolt, maquiando essa realidade? Ou devemos lutar por uma velhice mais digna, mais frutífera, mais plural, mais respeitada, mais inclusiva e visível?O processo de envelhecer é social e político e nesse caso, pertinente de ser discutido, analisado, conscientizado sobre suas subjetividades e como o devemos abarcar em nosso seio com todas suas nuances, repertórios e vida.
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*Cristine Souza (cristinesouza2020) é bacharel em Ciências Sociais, autora convidada.
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