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COMO DEVEMOS AGIR PRA LULA SE REELEGER?





Antes de me aprofundar no tema desse artigo preciso voltar ao meu último texto (https://www.soteroprosa.com/single-post/j%C3%A1-consigo-ver-fl%C3%A1vio-presidente). Há duas semanas postei um artigo que infelizmente se tornou controverso. O ensaio causou abalos emocionais diversos, pré-conceitos e tudo o mais. Pelo título e imagem, já desenvolveram teses as mais diversas. Venho aqui justificar as escolhas, o conteúdo, e o que o texto pretendia passar.

 

A escolha da imagem: aquela foto com cores aberrantes é risível, uma piada pronta. Interpretaram como algo positivo, e essa interpretação também não estava errada, ok. Mas era justamente pra ter efeito contrário. Encontrarem no ensaio um cara encalacrado com acusações sérias de corrupção, justamente o oposto do que pregavam os agora milhões de eleitores dele. Era um contraste. Não foi assim que viram, paciência. A imagem foi retirada do site liberal-progressista MyNews, que critica a conduta desse candidato e expôs uma matéria alertando para os riscos de sua candidatura, ou seja, parece que eu não estava sozinho nessa!

 

O título tem a ver com uma sensação de consternação. Não simbolizava um desejo, mas uma possibilidade casada com consultas investigadas. Apresentei um monte de pesquisas que mostram a estabilidade do pensamento dito conservador no país e uma inclinação pouco volátil nas urnas, reflexo de anos de ressentimento em segmentos da população. No primeiro parágrafo, coloquei fontes que mostravam uma provável eleição disputada. Isso não foi tirada de minha cabeça não! Depois descrevi um monte de suspeitas sobre o candidato citado, que não avançaram na justiça, fazendo com que hoje ele fosse candidato, expondo um cinismo de quem pretende votar nele, os mesmos que estavam nos áureos anos do lavajatismo berrando moralidade pelas ruas.

 

Falo também dos números do governo Lula e exponho críticas que não são minhas, mas que advém de índices negativos de seu governo. Se a desaprovação aparece, tenho que elencar possíveis situações que demonstram o porquê da desaprovação. E não estou sozinho nessa. Estou inserido em um pacote analítico que inclui outras fontes. O Meteoro Brasil fez um episódio criticando a taxação de eletrônicos e games que depois o governo voltou atrás - tá lá no texto como “test drives”; recentemente, Marcos Bezzi no canal do Galãs Feios fez uma critica contundente ao governo, que repercutiu em meios progressistas; O ministério inchado foi pauta de vários debates. E por aí vai. E com estatísticas de desaprovação mostradas por esses canais, pelo ICL, Foro de Teresina e outros. Pareceu que eu tinha arranjado esses números de propósito pra falar mau do governo com minha mente doentia!

 

Falo da associação entre escândalo Master e STF, coisa que não saiu de minha cabeça, mas de diversos analistas, como Celso Rocha de Barros. Falo também que Lula perde eleitores justamente na faixa que foi beneficiada pela insenção do IR. Isso é P-E-S-Q-U-I-S-A!! Por fim, concluo possibilidades que os mesmos veículos acima mencionam, inclusive, falando das ingerências do governo estadunidense EM CASO de vitória de Flávio. Isso foi totalmente desconsiderado em meu texto. Tudo que falei ficou retido na imagem e títulos, como se fosse um desejo oculto, uma espécie de hipnose sutil tipo “compre batom... compre batom...”

 

Tudo em razão do “texto suspeito” que publiquei, como se fosse uma fonte de atração de fascistas e outros ratos corroendo nosso portal. O título e a imagem podem ser questionáveis, aceito isso, mas a dinâmica do  texto mostra um outro panorama. Isso mostra um defeito de TODOS: fazer análise da reportagem lendo a manchete. Ler o título e ver a imagem e começar a tirar conclusões precipitadas é um defeito de todos que lidam com acesso a meios digitais. Eu inclusive não me excluo disso. Não deveria, mas é algo que por vezes ocorre.

 

A conclusão geral do texto é o descrédito que costumo ter com partes do eleitorado. Agora é que vem a coisa: isso não é novidade, caso lessem meus textos, porque segui a mesma linha de raciocínio e métodos de comunicação e linguagem de sempre. Há muito minha escrita é de desconfiança com parcelas da população. Existe desalento no texto? Sim. Desamparo? Sim. Sensação pessimista? Também. Mas isso não advém de mim, são dos números. Se prestassem atenção na estatística, veriam que, na fotografia de hoje, o saldo é preocupante. Mas pesquisa, estatística, números, índices, de nada valeram. Tanto, que nem vou utilizar dados aqui, vai ser opinião e achismos. Dados só servem para ser rolados, não compreendidos, não é mesmo?

 

Vamos lá... se eu escrevesse em março de 2018 “já vejo Jair presidente”, iam dizer o que? Que meu texto causou a vitória dele? Porque em 2018 eu estava negando isso. “Que nada, rapaz, esse cara não ganha”, “tô tranquilo, com o tempo ele murcha”. Ao que parece, ninguém aprendeu, porque as críticas que me foram feitas passam a sensação de tranquilidade eleitoral. Agora imagina um argentino escrevendo lá “já vejo Milei presidente”, um chileno “vejo Cast presidente”, um estadunidense “Já vejo Trump presidente”... esses caras iam ser taxados de que? De malucos? De fascistinhas?

 

Não alimentei polarização no meu texto, coloquei que ele está posto socialmente! E aí tenho que explicar outra coisa: o viés sócio-antropológico que utilizo e que ninguém entendeu. Na antropologia não se prioriza o que você tem pra falar, mas o que os outros tem a dizer.  Eu não quero explicar a causa, mas observar como a sociedade se comporta! O embasamento científico que utilizei - e que nada serviu - é para mesclar o que está sendo manifesto e as avaliações sobre o que foi captado dessas expressões coletivas. Meu viés quase sempre foi esse.

 

Houve agravantes que por educação e respeito a quem lê não vou colocar aqui (coisas muito sérias que me atribuíram) até porque o que pretendia fazer com o texto tá mais que explicado, mas quero dizer algo: contribuí com duzentos e tantos textos para esse portal, falo sobre polêmicas das redes, música, cultura, filmes, séries, os problemas de Salvador, a cultura baiana, festas, celebrações, política, e me reduziram a um mísero texto. Ignoraram meu histórico, como se eu tivesse caído de paraquedas e tivesse estreado com um texto infeliz. Vou parar por aqui que tem muito leitor boiando com tudo isso. Mas fica a “mensagem subliminar”. Entendedores entenderão. Segue o baba. Título aceitável e imagem positiva, vamos ao tema.

 

Lula disputará a sétima eleição em 37 anos. Quando venceu em 2002, fez um governo estável, com crescimento econômico nadando de braçada, incremento da transferência de renda, instituições fortalecidas e funcionando, órgãos de justiça e imprensa funcionando de boa. Saiu com índices de aprovação extraordinários (entre 83% e 87%). Muita gente conseguiu sua primeira televisão, sua água canalizada, sua energia elétrica, o primeiro membro da família no ensino superior. Conseguiu eleger a sucessora e aí tudo começou a virar. Teve câncer, passou anos sumido, e quando retornou foi sob os holofotes da mídia, suspeito de corrupção, formação de quadrilha e outros crimes. Foi preso, retornou, enfrenta dificuldades de gestão, mas taí, firme e forte.

 

Acontece que sofre um ódio quase patológico de quem nunca foi com a cara dele, cara de brasileiro, de cachaceiro, de operário, de retirante. Inventaram um monte de história sobre ele. Na época das lutas sindicais, que deixava o síndicato pra ir beber com os patrões; que cortou o dedo de propósito pra receber pensão do INSS!!! Na época da Lava Jato, não era incomum alguém dizer “tá vendo aquela ilha ali? É de Lula! Ele fazia reunião da roubalheira lá!”. Uma parte do nosso povo, sofrido e sensível, ficou anos com gente assim cocorocando no ouvido delas. Mulheres de baixa renda perderam o Bolsa Família após deixarem de levar fihos pra vacinar. Por que? Porque reacionários antivacina encheram o saco delas a respeito de inverdades sobre a vacinação.

 

Por falar em Bolsa Família, é o principal programa de governo. O combate à fome, fazia com que o estado fornecesse meios para alimentação de milhões de pobres. Isso gerou a ira da classe dominante. Claro: não precisavam mendigar, nem serem explorados por um prato de comida. Lula ajudou a colocar o pão na mesa dessa gente sem passar pelos abusos de quem possui inúmeros privilégios. Acho até que essa é a causa principal da ira das classes médias contra ele. Por isso, há uma grande chance de Lula na eleição vinda desse eleitor silencioso, discreto, que fica na dele. Tenho observado que boa parte dos eleitores de Lula querem passar despercebidos. Há uma massa quietinha, só esperando a hora da urna.

 

Porém, há outra categoria que se distanciou dele: os ressentidos. Gente que trabalhava na indústria e ficou a ver navios com a devassidão que a Lava Jato operou nesse setor. Colocando a responsabilidade disso nas ladronagens da Petrobrás, que de fato ocorreram. Ainda tem os “sem-mercado”: gente que estudou numa faculdade fundo de quintal e nunca trabalhou na profissão que se formou, perdendo a vaga para um recém saído de uma federal. Aí  se tornam motorista de aplicativo, entregador de comida, do Mercado Livre, vendedor de hamburguer na marra. Grande parte potenciais eleitores do seu adversário. Fora os cristãos protestantes, que ouvem de seus líderes religiosos a importância dos valores da família e que Erika Hilton está “mocinhalizando” o filho dele. É coisa viu...

 

O desemprego está com índices baixos, empregos a pleno vapor, mas... o cara que consegue esse emprego pode considerar que conseguiu com esforço próprio. Já quando o preço do mamão aumenta, coloca a culpa em quem? A guerra tá pipocando aí no Oriente Médio, barris de petróleo disparando, o sujeito indiferente chega no posto, encontra a gasolina a oito reais e dispara “faz o L!”. Essas observações são recortes empíricos que coloco pra chamar atenção do quanto é difícil nosso campo convencer outras pessoas. E será que estamos fazendo isso? Quem é o presidente da UNE hoje? Alguém sabe? Feminicídios crescem, grupos masculinistas se reproduzem aos montes, o PL taí com mais de 110 deputados, cheios da grana, e urubuzando a mente de uma galera aí. Pela primeira vez em 24 anos, não teremos mulheres candidatas, demonstrando o recuo de espaço que elas estavam ocupando.

 

Os canais de youtube progressistas se estagnam e outros desaparecem. O cartunista Maurício Ricardo mantinha um canal com milhares de seguidores, mas abandonou por saúde mental. Henry Bugalho foi outro, combatia o extremismo nas redes, mas também deixou porque cansou e “não via propósito”. Ciro Gomes, que tinha um programa à esquerda de Lula, taí se engraçando com Flávio. E assim, vai cada um cansando e cuidando de si. Como expliquei acima... não estou aqui pra dar sugestões, bradar, militar, nada disso. Estou aqui pra concatenar vivências do cotidiano de uma população desconfiada, ressabiada, cética, que se pudesse nem ia votar. Em 2022, Lula terminou o primeiro turno com 6 milhões e 500 mil votos à frente do seu adversário. Venceu com pouco mais de 2 milhões de diferença. Em menos de um mês, ele perdeu 4 milhões e 400 mil votos! Isso é sintomático! Há motivos pra achar que esse pleito será complicado. Mas o problema tá no meu texto, “aquele título, aquela imagem, hum, sei não, esse cara aí...”

 

Sobre a pergunta do título... não sei. É, não tô aqui pra trazer sugestões. Sou mais um a ficar alerta sobre os desígnios populacionais. Houve até um comentário no meu texto anterior falando que “A Bahia é resistência, é luta, Antônio Conselheiro lutou...”. Sim! Salvador foi a cidade que Lula recebeu mais votos em 2022 (70%. De cada dez soteropolitanos, sete votaram em Lula). Só falta combinar com curitibanos, goianienses, cariocas, e manauaras. Manaus, alías, deu ganho a Bolsonaro em 2022, mesmo com o drama da COVID por lá e o mesmo ter imitado um doente sufocando. Pra todos verem aqui que a situação é grave! A pergunta é: o que se passa na cabeça do brasileiro? Essa é a linha que venho percorrendo. Quem não me conhece, estou me apresentando. Não briguem comigo, briguem com os números!



IMAGEM: Jornal Opção

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