Como pensar o papel da Universidade em Durkheim, Adorno e Althusser?






Como pensar a Educação na sociedade atual no âmbito da Universidade?


O primeiro passo é como conciliar respeito às autoridades – docente e ciência – junto ao processo de emancipação social, o que inclui espaço às individualidades, à criatividade com incentivo à reflexão voltada para mudanças sociais, e o enfrentamento à reprodução das desigualdades e da perpetuação da exclusão social.


Deve-se considerar a preocupação de Émile Durkheim, levando em consideração o seu contexto, em que as mudanças engendradas por uma educação moderna, efeito das estruturas sociais cada vez mais centradas no indivíduo, em constante transformação, eleva o risco de uma anomia social crônica. Pois, dentro de uma composição de uma solidariedade orgânica, sem o compromisso das partes, sem entender a importância do outro para uma sociedade pacífica, numa constituição de interdependência, não há referências para a futura geração.


Durkheim. Fonte: Wikipedia


O papel da Universidade é promover um amplo debate com a sociedade sobre a autoridade da ciência, não para menosprezar os outros saberes, mas para mostrar a importância que ela teve no desenvolvimento da modernidade, das melhorias proporcionadas no campo da saúde, enfrentamento de doenças e pandemias, nas políticas públicas, com especialistas à frente no combate à violência e a pobreza, nas diversas tecnologias que reduziram tempo e espaço nas comunicações, aumentando a possibilidade de contatos sociais. Assim, a instituição Universidade e a ciência são uma célula moderna fundamental na solidariedade orgânica.


Ao falar também da importância da autoridade do docente, Durkheim sustenta uma composição moral válida para qualquer tempo, pois é a base de qualquer solidariedade social. Mostra que qualquer pessoa inteligente pode instruir. Ensinar é tornar possível uma aprendizagem. Instruir é dotar o ensino de uma utilidade prática. Mas educar é a capacidade de alguém ter de apontar um norte, uma direção válida ao educando, considerando que o educador se apresenta como uma referência moral, muito além de ser um mero instrutor. Então, o professor ou professora, mestres em suas respectivas áreas de formação, devem ser exemplos de dedicação, comportamento, comprometimento com o saber, promovendo a paixão pelo conhecimento como fim em si mesmo.


O desrespeito ao docente contribui com a perda da importância do espaço acadêmico. O professor deve ser uma referência intelectual, sim, mas também moral, do ponto de vista de integridade e respeito frente aos educandos, jamais assumindo uma postura de arrogância, insensibilidade e autoritarismo. Também é papel dele compreender, assim como a escola e a universidade, a realidade dos estudantes, suas demandas e dificuldades práticas, bastante diversas, sem abandonar o que é fundamental no espaço da educação: o conhecimento do passado, do presente e perspectivas para o futuro. E, sim, é o educador ou educadora a pessoa legitimada no cumprimento desta grandiosa tarefa.


Theodor Adorno ressalta a importância da educação para a emancipação. A preocupação do autor é não repetição histórica dos regimes fascistas, que inibiram a capacidade dos indivíduos de pensarem por si próprios. A Universidade deve proporcionar, dentro de seus limites, a liberdade dos indivíduos, a liberdade de pensar, promovendo o esclarecimento, para usar o um termo caro ao filósofo Immanuel Kant. Liberdade aqui, não no sentido banal do que “faça o que você quiser sem responsabilidade com outro”, mas no sentido de desenvolvimento das habilidades que cada um possui, sem perder de vista o papel que todos temos como agentes sociais. Especificamente na formação docente, é crucial que os futuros mediadores se atentem a promover uma educação voltada à desmassificação, hiperdimensionada pela indústria cultural capitalista, e o enfrentamento à padronização de normas excessivas, autoritárias, que acabam desprezando as capacidades autênticas de cada personalidade em formação.


Adorno. Fonte: Wiikipédia


É importante assinalar que as diferenças não devem produzir hierarquias que impliquem superioridade moral. O que Auschwitz produziu foi a indiferença com a existência do outro, o outro visto como inimigo da Nação, como sub-cidadão, logo como um objeto, não humano. O nazismo não produziu seres que entendam que todos sofremos, temos fraquezas, medos, sonhos, esperanças; mas produziu uma falsa concepção de que alguns são superiores moralmente, seja pela questão do físico, raça, etnia e intelecto. É essa a doença da barbarização social que foi produzida e deve ser evitada.


O que o totalitarismo também ensinou é que instituições devem ser independentes, ter vida própria, o que implica, também, a existência de uma Universidade autônoma, pois toda forma de Estado total e planificado, tal como foi o regime fascista e comunista, de completa administração sobre os corpos e mentes das pessoas, de absorção da sociedade civil e dos espaços de convivência, é empobrecer e unidimensionalizar a realidade, destruir a diversidade e solapar as diferenças.


Na perspectiva de Louis Althusser, é necessário pensar no papel que a Universidade tem junto à formação de professores e pesquisadores, no sentido de desvelar as relações desiguais que há por trás da constituição social. E esse papel de desvelar o que está oculto, o que parece ser natural, reproduzido pelo senso comum, mantém o status quo que favorece a uma minoria privilegiada pela condição de classe, neste caso, da burguesia. Não é só sobre a formação acadêmica, pois isso não impede a reprodução das ideologias dominantes: é sobre uma atitude perante o mundo, perante as injustiças sociais, as mazelas materiais causadas pela estrutura desigual das condições de produção, de troca e consumo, o que relega à maioria da população somente a pura sobrevivência.



Althusser. Fonte: Wikipédia

É papel, então, dos professores e futuros professores, uma pedagogia crítica, parafraseando Paulo Freire, no sentido de transformação da realidade, tornando-a mais inclusiva, mais igualitária, e não contribuindo para perpetuação da naturalização perversa das condições sociais.



Fonte da imagem principal: https://www.ufba.br/


Referências


ADORNO, Theodor W. Emancipação e educação. Trad. Wolfgang Leo Maar. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1995.

ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. 3 ed. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1980.

DURKHEIM, Émile. Educação e sociologia. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2013.

DURKHEIM, Émile. Educación y Pedagogia. Buenos Aires: Editorial Losada. p. 7-73, 1998

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