CONDOMÍNIO PARA IDOSOS EM SALVADOR: PARA ONDE VAMOS DEPOIS DA VELHICE?
- Karla Fontoura

- há 4 dias
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Estão sabendo da novidade? Salvador terá seu primeiro condomínio exclusivamente para pessoas sessenta mais. Segundo a corretora Sheila Rangel, o projeto prevê a construção de imóveis adaptados especialmente para o público 60+, com banheiros acessíveis e áreas comuns planejadas para garantir mais mobilidade e conforto. O condomínio ainda oferecerá atendimento e assessoria médica para todos os moradores e atividades voltadas para ampliar a convivência e socialização dos idosos. Além disso, o projeto terá opções para diferentes perfis e faixas de renda, com a inclusão de modelos econômicos, de médio padrão e de alto padrão.
No meu bairro, uma grande casa na esquina, que havia sido uma escola por anos, acabou de virar um lar de idosos. Só na minha rua, há dois dos mesmos lugares, um privado e um criado por um centro espírita. Sem mencionar que, por toda Salvador, tem havido um crescimento exponencial de farmácias. Em 200 metros de uma rua próxima a minha casa, você pode encontrar facilmente 6 farmácias, sendo duas da mesma franquia em menos de 500 metros entre elas. Isso aconteceu antes mesmo do período pandêmico e escancara a realidade que logo estaremos enfrentando no mundo inteiro: o aumento da população 60 mais.
Segundo uma pesquisa do IBGE, o número de pessoas acima dos 60 anos no Brasil cresceu 56% entre os anos de 2010 e 2022 e já representa 16% da população. Essa mudança está levando a tendências em várias áreas, do mercado de trabalho ao acolhimento institucional, como mencionei, com os surgimentos de casas de idosos e, agora, um condomínio exclusivo para eles.
Essas alternativas talvez sejam o caminho para desafogar as famílias que estão comprometidas com duas gerações de cuidado, a chamada “geração sanduíche”. Segundo uma análise do centro Pew nos EUA, é provável que quase um em cada quatro adultos americanos potencialmente tenha responsabilidades tanto com pais idosos com mais de 65 anos quanto com filhos menores de idade ou maiores de 18 anos que ainda são financeiramente dependentes.
De acordo com as pesquisadoras brasileiras Simone Wajnman e Jordana Cristina Jesus, em um estudo sobre o tema no Brasil, é possível afirmar que esse fenômeno irá dominar as famílias brasileiras nos próximos anos, dado que as pessoas estão tendo filhos mais tarde e seus pais estão vivendo mais, por conta do acesso a recursos que aumentam a longevidade. Porém, as famílias estão ficando cada vez menores, ou seja, há menos pessoas para dividir essas tarefas de cuidado. Claro que a maioria dos responsáveis continuam sendo as mulheres, sem que elas necessariamente saiam do mercado de trabalho. Elas seguem uma tripla, quádrupla jornada para cuidar de todos da família.
Essa realidade das casas de idosos crescendo pela cidade também me fez questionar se não estamos esperando uma vida cada vez mais compartimentalizada, onde cada etapa já possui seu espaço de convívio. Lido com isso frequentemente sendo mãe e entendendo que os espaços públicos se mostram avessos a crianças. É dito que elas pertencem ao espaço kids e nada mais. A criança precisa se encaixar no lugar dela para não incomodar.
Será que também não estamos fazendo os mesmos com nossos idosos? Fico imaginando a mim, uma pessoa sociável que convive com muita gente, de amigos a família, chegando num ponto de invalidez pela velhice onde precisarei ficar num espaço limitado, recebendo assistência constantemente de estranhos e convivendo com outros idosos e idosas que não sabem nada sobre a minha vida. Mesmo essa opção do condomínio separado, onde é permitido apenas os mais 60, há a regra de que não posso ter minha família ali. Apenas se tiver um parente na mesma faixa etária para morar comigo.
Diante disso, questiono aquela frase típica da modernidade: “Não tenha filhos para que eles cuidem de você na velhice. Eles não devem ser obrigados a fazer isso”. Será? Se não eles, quem fará? Será que não precisamos criar alguma obrigação moral entre nossos entes queridos de que precisaremos ser cuidados um dia e faz muito mais sentido que seja por aqueles que nos conhecem e nos amam? Não tento fazer uma intimação sobre quem deve fazer isso dentro da família, mas considero assustador como estamos envelhecendo em uma sociedade que privilegia o jovem, o saudável, o forte, o produtivo. Quem estiver fora disso, se torna um estorvo, um grande problema que precisa ser resolvido em mais uma instituição prática e objetiva. Vejo nisso um grande risco de mantermos esse olhar capitalista e materialista da vida, esquecendo o valor das relações e a força delas na experiência humana.
A velhice está aí, por todos os lados. Chegaremos a ela, quer estejamos com o botox em dia, ou com as rugas saudáveis de uma vida bem vivida. Precisamos ficar atentos como vamos dimensionar essa fase da vida que não será nem um pouco curta e, no período em que acontecer, demandará maior suporte e apoio. Para onde vamos depois da velhice? Para uma casa de idosos? Um condomínio de idosos? Para um lar solitário? Ou para um aconchego familiar com suporte e apoio? Estou preferindo notoriamente a última opção.
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