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CONTRA A ESCATOLOGIA


Entre o delírio e a coragem, Dom Quixote ensina que nem toda luta é travada para vencer — algumas existem apenas para afirmar a dignidade da ação diante de um mundo que insiste em normalizar a injustiça.
Entre o delírio e a coragem, Dom Quixote ensina que nem toda luta é travada para vencer — algumas existem apenas para afirmar a dignidade da ação diante de um mundo que insiste em normalizar a injustiça.


Acho difícil que qualquer pessoa que se depare com alguma notícia escabrosa nas redes sociais não tenha visto, imediatamente, o seguinte comentário: “vem logo, meteoro”. Tal expressão de descontentamento está diretamente ligada à ideia de que, em certos momentos, o melhor mesmo seria anunciar, tal qual na música Minha pequena Eva, o fim da aventura humana na Terra — sem direito a arca de Noé para fugir.


E não é de se surpreender o quanto, no plano dos afetos, narrativas do fim tenham um apelo sedutor extremo ou, no sentido que usarei aqui, narrativas de cunho escatológico. Com escatologia, designa-se um tipo de conhecimento voltado para o fim do humano ou do mundo. Narrativas escatológicas nunca foram novidade na história humana, e a forma mais conhecida que temos é a de matriz cristã, segundo a qual, em algum momento, haverá o Juízo Final e a civilização chegará ao fim.


Com o advento do Iluminismo e seu consequente secularismo, a escatologia cristã passou a ser acompanhada por versões terrenas, que decretam o colapso iminente seja do capitalismo, da democracia liberal ou da própria civilização. Assim, a predação desenfreada dos recursos naturais em nome de um consumo pantagruélico, a ascensão de experiências iliberais de regimes sociopolíticos, além de graves crimes e barbáries cometidas, por vezes, em nome de razões vãs — cada um desses eventos parece alimentar a tese de que tudo está acabado e nada mais há a ser feito.


Nesse sentido, nunca deixei de perceber que o anúncio — e a forma como consumimos — uma catástrofe carrega em si um tipo muito específico de gozo. Não apenas o temor pela consumação de tudo, mas também uma satisfação íntima dos arautos do fim em se saber, ou ao menos se crer, entre aqueles que viram antes, que compreenderam o sentido oculto da história enquanto os demais permanecem cegos. É o famoso “eu não disse?”.


Lembro-me de certa vez estar numa barbearia, com a televisão ligada transmitindo cenas do morticínio em Gaza. Para ser mais específico, a notícia era de uma bomba que atingira um hospital no momento em que um médico cuidava de outros feridos pelo conflito. Havia mulheres pranteando pequenos corpos enrolados em mantos empoeirados pela destruição material e moral causada pela máquina de guerra israelense. Quando comentei sobre aquele absurdo — porque minha incontinência verbal é absoluta —, um dos barbeiros disse: “é… mas infelizmente é a Palavra se cumprindo”.


Mesmo ao lembrar do ocorrido, minha perplexidade ainda não se afastou totalmente. E antes que pensem na religião como “ópio do povo”, abaixem as pedras, porque não conheço progressista que não tenha abraçado a sua própria escatologia. Basta Greta Thunberg abrir a boca para que apareçam seus fiéis, em uníssono, postando frases que condenam o capitalismo e afirmam que não há mais jeito.


Assim, a lógica atravessa campos ideológicos distintos. À direita, manifesta-se na obsessão com o declínio moral, a corrupção dos costumes, a dissolução da autoridade e o colapso da nação. Há alguns anos, um caminhão tombou no bairro de São Caetano, em Salvador, e, enquanto o motorista jazia morto nas ferragens, a população saqueava a carga — numa espécie de confirmação mórbida da banalidade que a vida assumiu nesses tempos. A cantilena é a mesma: só a vinda do Messias — seja o próprio Jesus, seja o soldador autodidata — poderia dar jeito.


À esquerda, a escatologia assume a forma de um catastrofismo estrutural, no qual capitalismo, patriarcado, colonialismo ou liberalismo aparecem como totalidades fechadas, incapazes de produzir qualquer transformação que não seja a própria ruína. A adjetivação “estrutural” tornou-se a mola mestra com a qual, aqui e ali, se condena toda e qualquer situação.


Não há muitos meses, em meio a uma onda hedionda de feminicídios amplamente veiculados, qualquer debate chocava-se contra o muro intransponível do “é estrutural, não tem jeito”. Aliás, cabe lembrar o quanto essa tecnologia identitária tem sido apropriada por aqueles que perpetram preconceitos e violências, sob a justificativa de que são “frutos da estrutura”. Quem não se lembra de Wanessa Camargo, após o episódio no Big Brother Brasil, surgir na clássica skin do “desculpa se alguém se sentiu ofendido” e afirmar exatamente isso? Em ambos os casos, o mundo é apresentado como irrecuperável — e o futuro, como algo que só pode vir depois da destruição.


Ainda sobre a escatologia progressista, ela tem sido politicamente instrumentalizada de maneira particularmente eficaz desde as eleições de 2018. A narrativa de que o país estaria às portas do fascismo — e de que apenas uma solução específica poderia detê-lo — produziu um enquadramento moral absoluto. Toda crítica, divergência ou alternativa que não coubesse nesse horizonte passou a ser tratada como cumplicidade com a barbárie. A chamada “frente ampla” funcionou, assim, como uma grande matrioska: uma narrativa totalizante dentro da qual todas as demais precisavam se encaixar ou desaparecer.


Como o diabo é diabo não porque seja mau, mas porque é velho, não custa lembrar que o mesmo partido que encampou a luta contra o fascismo foi também aquele que recusou apoiar Ciro Gomes, o candidato que virtualmente tinha mais condições de derrotar Jair Bolsonaro em 2018. Do ponto de vista eleitoral, faz sentido seguir como representante exclusivo da oposição, em vez de tornar-se apêndice de um governo aliado. Mas todos sabemos por quais caminhos tortuosos chegamos até aqui.


Não se trata de negar o risco autoritário real que se apresentava, mas de observar como o discurso do fim foi convertido em técnica de poder. O futuro passou a ser mobilizado como ameaça; o presente, como trincheira; e a política, como estado de exceção permanente. Nesse cenário, a crítica deixou de organizar a ação e passou a disciplinar o campo do possível. Como advertia Hannah Arendt, quando a política perde sua dimensão plural e se reduz à gestão do medo, o espaço da ação comum se dissolve. A lógica do “nós contra eles” tornou-se o pesticida que ajudou a exterminar qualquer alternativa no campo da esquerda — como se o país vivesse num eterno clima de espera pela chegada dos bárbaros, tal como no poema de Konstantinos Kaváfis, com um campo político inteiro sequestrado de si mesmo.


Seja como for, a esterilidade escatológica é terreno fértil para que discursos aparentemente toscos, mas politicamente eficazes, possam medrar. O famoso discurso coaching — tão ridicularizado pelas elites culturais (inclusive por mim) — grassa com força entre os setores mais baixos da sociedade não apesar de seu vazio semântico, mas justamente por causa de sua forma. Ele não busca explicar o mundo, não promete salvação histórica, tampouco anuncia o fim dos tempos. Ele convoca à ação imediata. Ainda que raquítico conceitualmente, oferece algo que a escatologia nega: agência, movimento, decisão.


A eleição municipal de São Paulo é exemplar nesse sentido. A expressiva votação de Pablo Marçal nas periferias revela menos uma adesão programática e mais uma recusa ao imobilismo moralizante. Diante de um discurso progressista que anuncia permanentemente o abismo e pede contenção, espera e sacrifício em nome de um futuro abstrato, o discurso motivacional — mesmo raso — apresenta-se como alternativa porque propõe fazer alguma coisa. Onde a escatologia diz “o mundo acabou”, o coach diz “levanta e anda”.


Esse contraste revela um problema mais profundo: seja na política, seja na sociedade civil, a sensação é a de que perdemos completamente a dimensão dos afetos. Ao reduzir tudo a estruturas, sistemas e diagnósticos finais, abandonamos aquilo que Peter Sloterdijk chama de thymós — a energia do orgulho, da coragem, do reconhecimento e da disposição para agir. A ira, quando não encontra forma política, degrada-se em ressentimento ou se converte em violência difusa; quando elaborada, pode ser motor de ação coletiva.


Retomar a política enquanto ação, portanto, não passa por negar a gravidade dos problemas do mundo — Gaza, o aquecimento global, o avanço do autoritarismo —, mas por recusar o gozo estéril do anúncio do fim. Hans Jonas nos lembra que a ética começa na responsabilidade para com aqueles que ainda não nasceram; e, para lembrar outra cria de Heidegger, Hannah Arendt insiste que a ação só faz sentido no “entre”, no mundo compartilhado. Nenhuma dessas perspectivas é compatível com a escatologia paralisante.


Contra o anúncio permanente do apocalipse, a tarefa que se impõe é outra: reconstruir uma política dos afetos, capaz de afetar o outro, mobilizar o pathós timótico e devolver à ação seu lugar central. Não se trata de prometer redenção nem de negar a tragédia, mas de recusar a comodidade moral de quem prefere o fim do mundo à difícil tarefa de transformá-lo. Se a escatologia oferece o conforto da certeza, a política exige o risco da ação — e talvez seja justamente isso que hoje mais nos falte.


Nietzsche percebeu com precisão esse mecanismo. Há, na escatologia, um prazer ressentido: o mundo falha, logo eu estava certo; a história caminha para o desastre, logo minha impotência é redimida. O anúncio do fim suspende a exigência da ação e converte a crítica em postura moral. Quando tudo está condenado, agir torna-se não apenas inútil, mas quase ingênuo. A lucidez passa a coincidir com a paralisia.


Por fim, volto a insistir no argumento de que, mais do que nunca, devemos buscar no baú da nossa tradição o resgate de um precioso tesouro para os dias que vivemos. Muito mais do que uma sátira, Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, propõe uma reflexão profunda sobre o Cavaleiro da Triste Figura. Para além do “herói louco” moldado pelos livros de cavalaria, emerge a figura de alguém que, derrotado, humilhado e ridicularizado inúmeras vezes, persiste em agir segundo um código que ele próprio reconhece já não ter lugar no mundo.


É nesse contexto que ocorre a chamada aventura dos leões. Dom Quixote e seu escudeiro, Sancho Pança, encontram na estrada uma carroça que transporta dois leões africanos, capturados e enviados como presente ao rei da Espanha. Os animais estão vivos, famintos e presos em jaulas reforçadas. O responsável pelo transporte — um homem experiente — deixa claro que ninguém, em sã consciência, ousaria abrir aquelas grades fora de um ambiente controlado. O perigo é evidente, concreto, reconhecido por todos.


Aqui está o ponto decisivo: Dom Quixote não confunde os leões com monstros imaginários, nem acredita estar diante de encantamento algum. Ele sabe perfeitamente o que são e do que são capazes. Sancho foge. O cocheiro implora que prossigam viagem. A prudência comum recomenda a retirada imediata. Ainda assim, Dom Quixote ordena que a jaula seja aberta.


Ele não o faz para libertar os animais, nem por bravata gratuita. Tampouco espera vencê-los ou obter qualquer ganho prático. Ele simplesmente se recusa a recuar. Diante do risco real de morte, decide permanecer. Seu gesto não nasce da ignorância, mas da escolha consciente de enfrentar o perigo, porque, para ele, a honra de um cavaleiro não se mede pelo êxito, mas pela disposição de agir conforme um princípio, mesmo quando não há garantias.


Quando a jaula finalmente se abre, o desfecho é quase irônico: o leão olha para Dom Quixote, boceja, volta-se para dentro e se deita. Nada acontece. Não há luta, não há sangue, não há triunfo espetacular. Ainda assim, Dom Quixote declara-se vencedor e passa a se chamar “Cavaleiro dos Leões”.


A vitória, nesse episódio, não está no resultado, mas no gesto. Dom Quixote vence porque não foge — porque permanece de pé quando tudo indicava que recuar seria o mais sensato. Cervantes sugere, assim, que há ações cujo valor não depende de consequências futuras, recompensas ou redenções. Elas valem por si mesmas.


A aventura dos leões marca um momento crucial do romance: Dom Quixote deixa de ser apenas um personagem cômico e se torna trágico, no sentido clássico. Ele age num mundo que já não sustenta seus valores, mas ainda assim escolhe afirmá-los — não porque acredita que vencerá, mas porque não agir seria abdicar de si mesmo.


Por isso essa cena atravessa os séculos. Ela não fala de loucura, mas de dignidade; não de esperança escatológica, mas de ação sem garantias. Dom Quixote enfrenta o perigo não para salvar o mundo ou inaugurar uma nova ordem, mas para não se render à ideia de que só vale agir quando a vitória é certa. Em um mundo desencantado, Cervantes parece dizer, a coragem não assegura o triunfo — mas recuar assegura a perda de si.



Referências bibliográficas:


ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

_____. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2009.

_____. O que é política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.​


CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. Tradução de Irene Hirsch e outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 1328p.


JONAS, Hans. Ética da responsabilidade. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.


SLOTERDIJK, Peter. Ira e tempo. São Paulo: Relógio D'Água, 2010.


IMAGEM:  DORÉ, Gustave. Don Quichotte. 1863. Gravura. Bibliothèque nationale de France. Disponível em: https://gallica.bnf.fr


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Sergio Fialho
há um dia
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Coisa Finíssima !

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