CRIANÇAS DO BRASIL, TRABALHAI-VOS!: Zema, Nagle, e uma Defesa Abjeta
- Carlos Henrique Cardoso

- há 15 horas
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Em um podcast que foi ao ar no dia 1° de maio, o ex-governador e pré-candidato à presidência da República Romeu Zema falou, com todas as letras, que, caso eleito, tentará mudar as regras trabalhistas para crianças poderem trabalhar. Isso mesmo! O político mineiro afirmou que ajudava o pai desde os 5 anos numa loja de peças automotivas e comentou que “lá nos Estados Unidos” crianças entregam jornal desde cedo. Pra concluir, ainda colocou culpa na vilã de todos os males universais: a esquerda, responsável por “criar a noção de que trabalhar prejudica a criança”. Após a repercussão negativa, veio no dia seguinte alegar que se referia a adolescentes. Esse pessoal da extrema-direita é assim, enfatiza que quer cortar todas as árvores, e no dia seguinte volta atrás dizendo que queria apenas aparar a grama…
Parecia que ele estaria sozinho nessa, mas eis que surge a jornalista Leda Nagle e concorda com ele. Lembrou que quando tinha 10 anos, trabalhava no armazém dos pais, atendendo a clientela. E corroborou, “ele está certo”. Recebeu muitas críticas nas redes sociais, e não foi a primeira vez… Claro está que os dois fizeram uma confusão, considerando que auxiliar os pais numa rede familiar é um trabalho infantil. Óbvio que não é a mesma coisa! Estar com os responsáveis num ambiente comercial, sob o controle dos mesmos, é basicamente diferente de “entregar jornal” na rua, como Zema quis colocar, atividade perigosa para um infante (andar sozinho na rua), sem nenhum monitoramento parental, e totalmente desviante de uma vida saudável para alguém nessa faixa etária. No Brasil, o trabalho regulamentado é permitido aos 14 anos, com Lei do Jovem Aprendiz, com regras próprias e presença escolar garantida. O que o ex-governador deixou entendido foi a regressão da idade para ocupação laboral de crianças, CRIANÇAS!
Mesmo estando sob escrutínio dos pais, qualquer pessoa pode constatar irregularidades a respeito da presença da criança em um ambiente comercial/empresarial e denunciar ao Conselho Tutelar, sindicatos, câmaras lojistas, ou qualquer outro órgão de fiscalização. Muitos não veem absurdos nas palavras de Zema, principalmente aqueles que começaram a trabalhar desde muito jovem, por necessidade, pobreza extrema, ou acompanhando parentes, como no caso de Nagle e Zema. A questão é o desejo de regulamentar isso, quando programas sociais de transferência de renda - como Bolsa Família - e projetos educacionais como Escola em Tempo Integral tentam minimizar o drama desse tipo de atividade infantil. Ao invés de reforçar pautas existentes e planejamentos de mesmo padrão, tentam visualizar a “beleza” do trabalho juvenil. Difícil, viu...
Em 2024, 1 milhão e 600 mil crianças foram catalogadas em situação de trabalho infantil, entre 5 e 17 anos. Os números vem sendo reduzidos, através da atuação de entidades públicas (ou seja, aparelhos de Estado, coisa que essa turma "liberal" quer reduzir, com a ideia do tal "Estado mínimo"). Desse número apresentado, 36% estavam em atividades insalubres e degradantes. Cerca de 24% tinham idades entre 5 e 13 anos, situados irregularmente em setores da agricultura, comércio, e serviços, incluindo funções domésticas. Tudo leva a crer, pela sua fala pavorosa, que Zema pretende regularizar essas ocupações, ação típica de um reacionário. Algumas pessoas podem crer que ele queria oficializar a atividade do menor junto à família, mas, se assim fosse, ele não diria que “a esquerda” atrapalha a discussão e não diria que “nos Estados Unidos” a banda toca diferente. Os EUA, aliás, parecem o Jardim do Éden contemporâneo, onde tudo funciona às mil maravilhas, bonitinho, uma beleza, paraíso extremista que não sai da boca desse pessoal. Não á toa, tem candidato a presidente querendo entregar de mão beijada nossos minerais pra eles e torcem fervorosamente para uma ingerência governamental deles sobre nosso país, taxando produtos, apontando quem é terrorista, e apoiando prisão de chefe de estado na tora. Um vira-latismo de quinta categoria.
Já Leda Nagle é uma jornalista consagrada, famosa por sua passagem pelo Jornal Hoje, entrevistadora hábil, e comandante do programa “Sem Censura” por várias décadas. No entanto, criou um canal no youtube onde passou a receber convidados da chamada “nova direita”, simpatizantes do olavismo, pré-bolsonaristas convictos, e lavajatistas inveterados, passando a defender ideais desse campo ideológico. Um tempo atrás, entrevistou o ex-marido de Maria da Penha, condenado pelo disparo que a deixou numa cadeira de rodas até hoje. Nagle suspeitou da versão oficial da ativista, o que gerou muita revolta. Surpresa zero ela ter apoiado a pantomima descarada de Zema. Eles se merecem!
FONTE:
IMAGEM: X (Twitter)

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